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Crítica: Kong - A Ilha da Caveira

Melhor que o opressivo Godzilla que o precedeu, Kong: A Ilha da Caveira não quebra barreiras como o clássico de 1933 quebrou, ou mesmo traz a densidade emocional complexa do longa de 2005.
Crítica: Kong - A Ilha da Caveira

Enquanto o King Kong de 1933 é um colossal filme de monstros que apostava em uma grandiosidade, até então, inédita na sétima arte; sua primeira refilmagem (1976), adaptava a fantasia para o cínico e realista cinema da Nova Hollywood. Já a obra-prima que Peter Jackson dirigiu em 2005 voltou à aura da Era de Ouro para criar uma aventura cheia de emoção genuína, bons personagens e comentário ambiental contundente. O novo longa desse monstro clássico, no entanto, vai na contramão das altas pretensões de todos os filmes anteriores. O diretor Vogt-Roberts quer criar “apenas” um filme de ação e aventura divertido que apresente um universo de seres fantásticos selvagens e ameaçadores. E é MUITO bem-sucedido nisso.

Fazendo parte do mesmo universo de Godzilla de 2014, essa nova versão do gorilão mais famoso do cinema se ambienta na década de 1970, quando os EUA perderam a Guerra do Vietnã. Nesse ambiente político explosivo, um grupo de pesquisadores liderados por Bill Randa (John Goodman) convence um senador a liberar verba, e um grupo militar liderado por pelo Coronel Packard (Samuel L. Jackson), para uma expedição a uma desconhecida ilha ao sul do Pacífico. Acompanhados ainda pelo expedicionário James Conrad (Tom Hiddleston) e a fotógrafa de guerra Mason Weaver (Brie Larson), todos os integrantes da viagem descobrem que naquela ilha existem seres inomináveis, e ameaçadores.

Com um apuro estético EXTREMAMENTE elegante, o visual do diretor Vogt-Roberst está para a ação assim como o visual de Tom Ford (Direito de Amar, Animais Noturnos) está para o drama. Inicialmente, a paleta de cores que o cineasta e o diretor de fotografia Larry Fong (Batman Vs Superman – A Origem da Justiça) decidem para o filme já nos remete ao trabalho realizado por Francis Ford Copolla no clássico Apocalypse Now. O amarelo, laranja, vermelho e verde saturados são hábeis ao aclimatizar os espectadores naquele ambiente de guerra e selvageria, como se aquele local estivesse sempre ardendo em chamas fumegantes (não à toa, os personagens sudoréticos são frequentemente focados em planos fechados de forma sufocante). Para criar uma rima com sua paleta, o diretor sabiamente trabalha bem quadros contemplativos (às vezes em slow-motion) que exploram chamas imensas geradas por explosões (como o momento em que o Coronel Packard encara um paredão de fogo sobre Kong), um sol flamejante (como a impactante silhueta de Kong à frente da estrela) e até um céu inundado por uma bela aurora boreal sugestivamente esverdeada.

Além de tornar o filme esteticamente irrepreensível, a estratégia visual do diretor também serve para criar um tom de humor sarcástico que veste bem ao clima aventuresco "B" do filme. Para se ter uma noção, Kong: A Ilha da Caveira possui o tom de fantasia ingênua de Jurassic Park – Parque dos Dinossauros, misturado à urgência violenta e sufocante de Predador (que completa 30 anos em 2017),

Vogt-Roberts transita bem entre os dois estilos. Por um lado, o diretor comenta as más intenções inerentes aos humanos criando um paralelo de reações de animais e homens frente a situações semelhantes. Como exemplo, o cineasta registra a reação desesperada dos animais ao testemunharem a ação das bombas sísmicas da mesma forma que cria uma plano-sequência subjetivo (em um helicóptero) para registrar o horror dos soldados ao sofrerem as ações de Kong pela primeira vez. Nesse ínterim, o diretor ainda cria piadas debochadas, como ao trabalhar a proporção de forma interessante ao focar mosquitos frente aos helicópteros chegando na Ilha da Caveira, ou até ao refletir as chamas de bombas nas lentes dos óculos escuros de um soldado em expressão maliciosa logo antes de ele visualizar uma gigante palmeira em direção ao seu helicóptero (que possui um adequado bonequinho de Richard Nixon, diga-se de passagem). Da mesma forma, há um trabalho genuíno de humor negro em algumas transições que o diretor realiza, como no momento em que corta uma cena de um soldado prestes a cair na boca de Kong inesperadamente; ou até quando nos deixa nervosos ao vislumbrar um monstro aquático rapidamente antes de um cantil ser introduzido na mesma aguada.

Além do humor afiado, o diretor também consegue criar sequências de ação que consegue aproveitar o absurdo daquele universo de forma que nunca para de nos surepreender. A montagem de Richard Pearson (experiente em filmes de ação como A Supremacia Bourne e Homem-de-Ferro 2) consegue ser dinâmica e veloz sem deixar o espectador confuso do que está vendo. Aproveitando a câmera baixa e as panorâmicas que o diretor cria para dar uma dimensão monstruosas às suas criaturas (a diminuteza de Weaver frente a Kong é impressionante), o montador dá muita dinâmica às suas cenas de ação, conseguindo fazer os cortes necessários entre planos-detalhes (como as mãos, braços e olhos de Kong) e planos gerais (enfocando a natureza selvagem ao redor) para que a intensidade, e ferocidade, daqueles atos sejam mantidas. O ataque de Kong aos helicópteros tem uma sensação de urgência impressionante; bem como a luta dos personagens humanos em um cemitério (que adapta uma divertida ideia de Jurassic Park III para criar suspense acerca da posição da criatura), e uma batalha contra uma aranha gigantesca.



Também inspirado pela guerra “suja” e realista de Apocalypse Now, todo o design e mixagem de som do filme é de um esmero impecável. Há brincadeiras sonoras interessantes, como aquela que envolve som de hélices de helicópteros se fundindo a um ventilador (referência ao longa de Copolla) e os slides sendo “engatilhados” ao som de tiros durante uma apresentação (que poderia lembrar Todos os Homens do Presidente, também da Nova Hollywood). Já nas cenas de ação, há uma fusão perfeita dos sons autênticos das criaturas selvagens com os tiros, armas, explosões, golpes e gritos. Há dois momentos em especial que trazem um trabalho de som excepcional para gerar tensão e urgência: a cena em que os protagonistas humanos adentram um paredão de tempestade (que prenuncia a aproximação do perigo através dos trovões e ventanias crescentes) e a cena do cemitério (que trabalha o silêncio cortado por sons de flashes de uma forma tão tensa que faria o Hitchcock de Janela Indiscreta se orgulhar).

A trilha sonora de Henry Jackson (experiente em filmes de super-heróis como Capitão América: Guerra Civil e X-Men: Primeira Classe) consegue pontuar bem cada ação sem se tornar descabidamente grandiosa (já que está não é a intenção do filme), lembrando em alguns momentos o excelente trabalho de Danny Elfman em Hulk (2003). Em contrapartida, as inclusões sonoras pop da década de 1970 (que vão de Black Sabbath a Jimi Hendrix), apesar de começarem estilosas, se tornam exageradas com a insistência em parecer cool como em Guardiões da Galáxia.

Apesar de ter um GRANDE elenco, Kong: A Ilha da Caveira não possui personagens suficientemente interessantes para que os atores realizem um grande trabalho. Tom Hiddleston (com pose de herói diametralmente oposta da de Loki) e Brie Larson (que usa a simpatia e bom-humor para tornar sua Weaver mais real) estão adequados. John Goodman tem mais oportunidades de engrandecer seu personagem através do rancor e da tragédia. Enquanto isso, Samuel L. Jackson fica com um papel ingrato, já que seu personagem é um clichê já visto em vários outros filmes (o militar paranoico), e não possui um desenvolvimento suficientemente bom para que o levemos a sério (apesar de seu carisma habitual). No entanto, John C. Reilly brilha sempre que pode, ganhando nossa empatia por trazer humor e emoção (prestem atenção no seu hilário diálogo enquanto faz a barba) através de um personagem que parece uma mistura do náufrago de Tom Hanks com o Doc Brown de De Volta para o Futuro.

Com efeitos visuais IMPRESSIONANTES, a equipe criativa do filme demonstra que pensou no mínimo detalhe de cada uma de suas criaturas. O protagonista macaco, por exemplo, possui uma expressão facial e movimentação tão críveis quanto o do filme de Peter Jackson (apesar de não ser na mesma profundidade). Já as demais criaturas possuem características marcantes e inteligente em sua imagem, sejam as pernas de uma aranha gigante que se confundem com imensos bambus; a estrutura óssea craniana de lagartos gigantes que nos enganam sobre onde estão realmente seus olhos; e até os cornos de búfalos d'água que parecem imensos troncos. Inclusive, os efeitos são especialmente efetivos ao criar as interações das criaturas com seus ambientes (gosto especialmente do pelo chamuscado de Kong após passar por um paredão de fogo).

Melhor que o opressivo Godzilla que o precedeu, Kong: A Ilha da Caveira não quebra barreiras como o clássico de 1933 quebrou, ou mesmo traz a densidade emocional complexa do longa de 2005. No entanto, é bem melhor realizado que a versão de 1976 e cumpre satisfatoriamente bem o que se propõe: um filme de ação fantasioso cheio de aventura e lutas entre criaturas fantásticas. Mal posso esperar para que o gorilão encontre o lagarto radiativo em 2020!

Divulgaí

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