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Crítica #2: Machester à Beira-Mar

Massacrante até seus segundos finais, Machester à Beira-Mar não é um filme que pode ser assistido em qualquer estado de espírito
Crítica: Machester à Beira-Mar

Há situações em nossas vidas que demandam uma carga emocional tão grande que, por mais que acompanhemos pessoas que já passaram por aquilo, só conseguimos experimentar a real sensação quando acontece com nós mesmos. Perdas, morte e luto são algumas dessas situações; e cada uma das pessoas que experimentarem as sensações oriundas desses momentos terão interpretações e reações diferentes.

O grande feito do diretor Kenneth Lonergan (Conte Comigo, não confundir com o clássico Conta Comigo de Rob Reiner) é justamente entender a subjetividade por trás das reações aos eventos indesejados. Neste pungente Manchester à Beira Mar, Lonergan nos convida a acompanhar uma passagem da vida de Lee (Casey Affleck), quando ele encara o fato de ter que voltar à sua cidade natal, e consequentemente a seus traumas passados, após seu irmão mais velho falecer.

Adotando uma estrutura não linear, que intercala passado e presente intermitentemente, o diretor (que também assina o roteiro) é sábio ao implantar os flashbacks em determinados pontos intrigantes; um sentimento que só não é superado pela melancolia inebriante que sentimos ao testemunhar os eventos. O interesse vem principalmente da forma como Lonergan nos retrata o presente depressivo de Lee.

Preso a um trabalho burocrático e desinteressante, Lee nos despertar curiosidade pelo modo estranho como lida com seus sentimentos: se em um determinado momento ele evita qualquer socialização com uma moça que demonstrou interesse, em outro ele faz questão de iniciar uma briga de bar sem justificativa. É como se ele só conseguisse se relacionar com as pessoas através da violência pura e direta, sem se entregar a sentimentos, ou relações mais complexas.

A partir daí o desenvolvimento desse personagem nos embala de uma forma tão imersiva que é impossível não nos emocionarmos com sua jornada interna. Jornada essa que Casey Affleck (dono de uma filmografia respeitável que inclui Medo da Verdade e O Assassino em Mim) explora com muita TALENTO, delicadeza e dor. Para representar a introspecção de Lee, Affleck é hábil ao adotar um tom voz sempre baixo e monótono que contrasta com seus impulsos agressivos em alguns momentos. Além disso, Affleck utiliza tão bem seus olhares (e desvios de), bem como suas inflexões de falas, que fica claro a força descomunal que ele lança mão para não demonstrar maiores sentimentos ou explosões; como um sistema de autoproteção contra o julgamento de outras pessoas (sua última cena com a personagem de Michelle Williams demonstra bem isso).

E mesmo quando o personagem se vê catatônico frente a situações trágicas, a própria inexpressividade (proposital) de Affleck já expõe um mundo de sentimentos por baixo daquela apatia. Para exemplificar, podemos citar os silêncios constrangedores e as falhas de memória de Lee na primeira cena do hospital, algo incrivelmente natural para qualquer um que já tenha passado por aquela situação. E se Affleck ganhar o Oscar esse ano, será pela sua impactante cena na delegacia. É impossível sair do cinema e não ficar com esse momento na cabeça por semanas.

Mas não apenas Affleck brilha (e MUITO) nessa obra, mas também outros três impressionantes atores: Kyle Chandler (que esteve no sensacional Carol, e atualmente estrelando Bloodline), Michelle Williams (que, assim como Meryl Streep, arrasa em qualquer filme que trabalhar) e o novato Lucas Hedges (um verdadeiro achado). Chandler inspira muita credibilidade ao encarnar com doçura e diversão o personagem Joe, o irmão de Lee; nos encantando por seus breves momentos de humor ao confrontar uma séria doença; e também pela preocupação patente pelo seu irmão.

Já Williams traz sua notória intensidade já vista em obras como Blue Valentine e Entre o Amor e a Paixão, para um papel (merecedor de prêmios) que precisa transparecer dor e empatia (sua, já citada, cena final é de uma crueldade penetrante). Já Hedges, impressiona a todos por seu incrível realismo durante todo o filme, sendo responsável por intensificar uma química “palpável” com Affleck e por criar momentos de alívio cômico naturais e realmente muito engraçados.

Aliás, o humor que Lonergan expõe no filme poderia se apresentar forçado, como algo “necessário” para que as tragédias expostas não se tornem tão insuportáveis; porém, todas as piadas soam genuínas por dois fatores: pelo inteligente timming cômico dos atores, e pelas piadas serem honestas ao se basearem em irritações, paranoias, implicâncias que todos nós passamos no cotidiano.

Aproveitando para nos passar muitas informações pela imagem, e não exatamente pelos diálogos, Lonergan utiliza alguns quadros, ou até apenas alguns elementos destes, para engrandecer suas mensagens e a personalidade de seus personagens. É lindo ver como o cineasta faz questão de enquadrar Lee, ao arrumar seus objetos para uma viagem, pegando com carinho três porta-retratos, e guardando-os cuidadosamente em uma caixa; Lonergan não precisa nos mostrar as fotos inseridas neles, e nem poderia, já que o fato de estarem posicionados apenas para o campo de visão do personagem já denuncia que aquilo é de um simbolismo EXTREMAMENTE pessoal. Ainda nesse sentido, o uso da câmera lenta no momento de recepção dos convidados do velório é um excelente recurso para demonstrar o sofrimento das pessoas em ter que encarar, interminavelmente, o pesar de várias pessoas diferentes.

Algo também frequentemente bem retratado no filme é a incomunicabilidade de Lee, simbolizada pelas diversas conversas interrompidas ao telefone, e em locais barulhentos. Ademais, a própria água, tão querida para o personagem, se torna um elemento metafórico importante: primeiro porque uma das tragédias ocorre causada por outro elemento totalmente contrário a ela; segundo porque o próprio estado do elemento mostrado na tela (água líquida ou gelo) determina o estado de espírito do personagem em diferentes momentos. Reparem também na passagem que o diretor focaliza o mar ao longe, por trás de várias construções, através de uma janela observada por Lee – a metáfora de que a felicidade (o mar que trazia tanta alegria para a vida de Lee), dificilmente será alcançada novamente.

É necessário destacar também o excelente trabalho do departamento de arte de Jourdan Henderson (Sangue Negro), que consegue transparecer as emoções através dos ambientes, como no escritório do chefe de Lee (abarrotado de papéis, livros-atas e cadernos de registros) ou no contraste entre as casas dos pais do personagem de Lucas Hedges (enquanto a casa de Joe demonstra conforto e acolhimento, o da mãe expõe uma natureza fria e “asséptica”).

Já os figurinos de Melissa Toth (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças) destacam o verde para marcar Lee de uma forma que transcende o habitual. Geralmente a cor verde no cinema simboliza melancolia e tristeza (algo bem marcante em Um Corpo que Cai, por exemplo), porém, Toth é inteligente ao escurecer gradualmente o verde das roupas de Lee à medida que ele se vê mais corroído pelas tragédias; pontuando não somente a depressão gradual do personagem, como também uma sensação de irreversibilidade.

Massacrante até seus segundos finais, Machester à Beira-Mar não é um filme que pode ser assistido em qualquer estado de espírito. Principalmente porque Lonergan é sincero em reconhecer que nem tudo em nossas vidas é passível de superação. Somos o acúmulo de experiências vividas e emoções sentidas. E essa obra magnífica soube trabalhar isso com uma admirável humanidade.

Divulgaí

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