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Crítica: Capitão Fantástico

Dirigido pelo novato Matt Ross (28 Hotel Rooms), Capitão Fantástico é um filme indie que assume esta condição, que outrora foi sinônimo de escassez de recursos, mas hoje um subgênero de alma.
De tantos elementos que amo sobre o cinema, um deles é o conflito que sinto como crítico, me apaixonando por obras pelas quais reconheço defeitos. Costumo desenvolver simpatia quando alguém se identifica com um filme que certamente não é unanimidade com público e crítica. Acho admirável que uma obra toque pessoas diferentes de formas diferentes e, por mais que não se trate de perfeição, Capitão Fantástico se tornou uma de minhas paixões. Sim, podemos amar filmes que não são tecnicamente perfeitos.

Viggo Mortensen (o eterníssimo Aragorn) interpreta Ben, o pai de seis crianças, que decide fugir da vida urbana e criar seus filhos nas florestas selvagens, dando lições sociais e de sobrevivência. Um dia, Ben é obrigado a retornar para a civilização com sua família, buscando adaptação.

Dirigido pelo novato Matt Ross (28 Hotel Rooms), Capitão Fantástico é um filme indie que assume esta condição, que outrora foi sinônimo de escassez de recursos, mas hoje um subgênero de alma. Sempre que assisto a um filme independente, me questiono se grandes produções de Hollywood não valorizam tanto a sutileza e o poder espiritual de suas produções, ao menos não tanto quanto seus potenciais.

Capitão Fantástico se propõe ir além de um filme, se tornando um verdadeiro exercício de reflexão, concordemos ou não com a ideia de seus personagens. Todo filme que gera discussão ou reflexões merece ser valorizado, por mais que tais debates se tornem sociais ou culturais. E lembre-se: discordar dos ideais dos personagens não torna o filme uma experiência ruim. Às vezes, assistir ao que não temos familiaridade serve como estudo através da arte.

Logo aos primeiros minutos de filme, Matt Ross nos apresenta uma família unida e visivelmente acostumada à vida selvagem. O costume fica evidente em gestos – todos sabem o que fazer em suas funções distribuídas pelo pai. Além disso, há diálogos que funcionam justamente para substanciar o tempo em que vivem lá. Inclusive, o filme abre com: “O menino morreu para que o homem possa nascer”. Com pouco tempo, notamos a forma como Ben educa seus filhos para que saibam se proteger do que há de errado com seus antagônicos.

Matt Ross lida com seus personagens de forma sensível e simplista, o que contribui vigorosamente para o desenvolvimento de tantos deles, ainda dando espaço para uma história que, igualmente, não se prende a complexidades. E é por isso que o óbvio não se torna superficial em Capitão Fantástico, que consegue tocar sem se aprofundar em questões melodramáticas. Pelo contrário, o que mais tende a emocionar é a forma otimista como os personagens buscam lidar com situações dramáticas.

Não se equivoque com o tom do filme, quando no início, há uma cena poderosa em que o personagem de Viggo chama a responsabilidade de dar uma notícia trágica para a família. É incrível como o ator revela a dificuldade de se manter firme e resoluto para passar segurança aos filhos, enquanto evidencia toda a soturnidade no modo como os olha. Um momento de fragilidade que serve de grande importância para a jornada de seus personagens, dando exatamente o ponto de partida para Ross trabalhar com o otimismo e a espiritualidade ao longo da trama.

Há cenas que soam controversas do ponto de vista de enredo, mas o filme sabe disso. Se sentimos excentricidade quando Ben não poupa seus filhos de duras lições de vida, como explicar de forma natural e educativa a diferença entre sexo (e porque as pessoas fazem) e estupro para um dos mais novos que questiona, Matt Ross se preocupa em salientar tal excentricidade em um jantar com uma família cotidiana na civilização em um choque de culturas. Uma das melhores cenas do filme, sem dúvida.



Quando o personagem cotidiano de Steve Zahn tenta contar aos seus filhos sobre uma grave situação que se passa com a família de Ben, evitando usar termos explícitos, resultando numa disputa com o personagem de Viggo, que opta por explicar de forma expositiva o que realmente aconteceu. A cena é guiada de forma cômica e delicada. Surpreendentemente, começamos a conhecer os defeitos de Ben exatamente quando o filme ameaça tratar o capitalismo com antagonismo, fazendo claramente uma crítica a geração que se prende a aparelhos eletrônicos. Não é o filme que está julgando, e sim nosso protagonista. E em uma bela sacada de Ross, depois de praticamente vilanizar os arquétipos do capitalismo aos olhos de Ben (facilita estarmos do lado do herói da história), surge o outro lado da moeda no personagem de Jack (Frank Langella), o sogro que o culpa por todos os defeitos da família.

Langella faz um belo trabalho ao humanizar Jack, antes apresentado como um homem prejudicial a Ben. Suas motivações são justificadas, nos fazendo questionar o modo de vida e educação que Ben proporciona a seus filhos. Por mais duro que o sogro seja com seu genro, é absolutamente compreensível que queira o bem de seus netos, por mais que não procure compreender as escolhas alheias. Ben é tão antagonista de Jack quanto vice-versa e o filme trata isso com uma naturalidade tocante.

O personagem de Langella é o ponto que coroa a humanidade de Capitão Fantástico, mostrando que o filme não se trata exatamente de uma crítica exclusivamente social, e sim uma arte sobre defeitos, otimismo e família (o ponto crítico se encaixa nos 3 fatores, como traços sociais de diferentes personalidades). Entretanto, é exatamente em Jack onde ocorre o defeito do filme. Evitando spoilers, há uma omissão de desenvolvimento e reação em certa situação no final do terceiro ato. Faltou mostrar como Jack lidou com a última escolha de Ben, entregando uma conveniência pouco orgânica ao final. Ainda que os últimos minutos do filme sejam brilhantes e alivie o tropeço para quem já se encontrava vislumbrado com a obra, não há justificativa.

Um dos maiores destaques de Capitão Fantástico é a atuação magnífica de Viggo Mortensen. Ben é riquíssimo e extremamente admirável por si só, e Viggo lhe dá vida com maestria. É fascinante como ele entrega o conflito entre ser um exemplo para a família, ao mesmo tempo em que claramente se recusa a aceitar o que lhe aconteceu, evidenciando a incerteza da culpa que sente. Há uma bela cena em primeiríssimo plano (enquadramento dos ombros para cima) onde Ben enfim se desmorona em prantos e mais uma vez somos presenteados com o grande talento de Mortensen. O que o torna o capitão fantástico do título são seus erros e defeitos como um ser humano que tenta ser perfeito.

Há belos detalhes destacados de formas sutis no filme. A belíssima fotografia do francês Stéphane Fontaine (Elle, também de 2016) evidencia o otimismo da produção com cores pastéis e vivas, algo muito comum em filmes indie, mas interessante reconhecer de um diretor de fotografia renomado. Outro detalhe que vale ser citado é a relação entre Ben e seus filhos, que habitualmente recitam frases e filosofias pregadas pelo pai, uma forma de reforçar o espelho que representa em sua família. Inclusive, como já citei antes, o final do filme é belíssimo e simplista, nos passando a sensação de ter feito parte daquela família por 120 minutos.

Capitão Fantástico é um filme para todos, mas que certamente vai tocar de maneiras diferentes a cada um, tanto em intensidade quanto em valor sentimental. O filme beira o surrealismo em certos momentos, mas sabe disso, pois o modo como Matt Ross trata estes momentos é pontual não se levando a sério, dando um tom cômico a eles. Uma fórmula que lembra bem Pequena Miss Sunshine. Releve os extremismos sociais se não concordar com eles e aprecie a arte como ela deve ser apreciada. Afinal, você provavelmente gosta de terror sem concordar com um assassino em posse de uma serra-elétrica.


Divulgaí

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