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Crítica: O Expresso do Amanhã

Crítica: O Expresso do Amanhã

Não é de hoje que o cinema aborda a “Luta de Classes”, teoria estabelecida pelo filósofo alemão Karl Marx, embora esta questão seja geralmente discutida de forma implícita ou metafórica. Filmes como “Metrópolis” (1927, de Fritz Lang), por exemplo, onde a classe privilegiada vive em um maravilhoso jardim enquanto a classe trabalhadora é escravizada pelas máquinas e condenada a viver e trabalhar em galerias no subsolo ou em “Assassinato em Gosford Park” (2001, de Robert Altman), onde o diretor explora o antagonismo entre a burguesia aristocratizada em uma reunião social numa mansão e a realidade dos seus trabalhadores, que quando não estão segregados na área dos serviçais, precisam agradar seus patrões sendo responsáveis por inúmeras tarefas, transitando inclusive por ambientes “íntimos” de seus empregadores e escutando informações e fofocas importantes - capazes até arruinar os aristocratas ali reunidos. Quando ocorre um assassinato durante a reunião, é aí que se percebe que neste tabuleiro de xadrez, os peões são tão importantes quanto reis e rainhas.

Cultuado por um público discreto pelo clássico sul-coreano “Memórias de um Assassino”, de 2003, o diretor Joon-ho Bong apresentou em “O Expresso do Amanhã” uma visão interessante de um mundo distópico, onde um experimento para impedir o aquecimento global falha, transformando o planeta Terra em um lugar inabitável coberto de neve. Os únicos sobreviventes subiram a bordo de uma imensa máquina chamada Snowpiercer, um trem em constante movimento, onde a diferença de classes obviamente foi retratada. Os mais pobres ficaram no fundo do trem, vivendo em condições absurdas, enquanto a classe rica desfrutava dos últimos benefícios existentes no planeta, como comida e água por exemplo.

Após algumas tentativas de rebelião mal sucedidas, o sucessor natural do “líder rebelde” Gilliam (John Hurt), já com idade avançada, Curtis (Chris Evans), com a ajuda de alguns companheiros, arquitetou um plano para “destronar” a burguesia e acabar com a desigualdade social. Entretanto, cada vagão descoberto reserva segredos e surpresas para os rebeldes.  Os papéis de destaque do filme ficam com o usual colaborador do diretor,Kang-ho Sang(Lady Vingança, 2005), que interpreta Minsu, responsável por abrir as portas de cada vagão, a perversa Mason (a Vencedora do Oscar Tilda Swinton, irreconhecível e eficiente, como sempre) e o protagonista Curtis (Evans). O elenco de apoio conta com nomes de peso, como os Indicados ao Oscar John Hurt Ed Harris, a Vencedora do Oscar Octavia Spencer, além de Jamie Bell e Alison Pill.

Mason (Tilda Swinton)
“Saiba o seu lugar, aceite o seu lugar. Seja um sapato.”

Esta é uma frase da supervisora Mason, uma espécie de braço-direito do proprietário do trem Wilford (Ed Harris). Mason disse isto colocando um sapato sobre a cabeça de um desafortunado que perdeu seu filho e em um momento de desespero atirou seu sapato contra um funcionário da elite. Seu trabalho é manter a “ordem” por meio de punições e medo. Ao colocar o sapato na cabeça do pobre homem ela afirma: “Não se usa um sapato na cabeça, usa-se um chapéu. Eu sou um chapéu e vocês são os sapatos. Meu lugar é lá na frente e o de vocês aqui atrás”. Muitos governos atuam desta forma, restringindo a liberdade de expressão, controlando a circulação de informação e, por meio de distração ou ameaça, colocando cada um no seu “devido lugar”.

Curtis (Chris Evans)
“ Sabe o que eu mais odeio sobre mim? Eu sei o gosto que tem uma pessoa...”

Curtis sempre foi o escolhido do líder rebelde Gilliam (John Hurt). Seu porte físico privilegiado em meio a tantos moribundos servia de esperança para uma população mantida à base de rações e sem direitos alguns, apenas sobreviver e servir. Aliada a natural vontade de ter uma vida digna e justa, está uma busca por redenção, por coisas que precisou fazer para sobreviver enquanto sequer ração era oferecida a classe inferior. Corajoso e focado, ele não pretende parar até atingir seu objetivo, matar o chefão Wilford, embora vá descobrindo, aos poucos, mentiras e segredos que podem estremecer sua confiança.

“O Expresso do Amanhã” é um esforço bastante ambicioso do diretor Joon-ho. A primeira metade do filme, quando as questões são levantadas, é uma quase “obra-prima”. Entre alguns absurdos e metáforas, o filme proporciona cenas muito bem executadas de lutas e de tensão, com um visual impecável e o estilo de direção que consagrou o também diretor Chan-wook Park - inclusive algumas cenas remetem ao clássico Oldboy, de 2003. A trilha-sonora do experiente Indicado ao Oscar Marco Beltrami (Guerra ao Terror, 2008) está na medida certa.

“Snowpiercer” nos convida para uma viagem bastante envolvente e com conteúdo, mas que perde a força no terceiro ato, quando fica claro que as questões brilhantemente levantadas na primeira metade do filme ainda são muito difíceis de serem respondidas. O próprio Marx não conseguiu provar a eficiência na prática de suas ideias (a maioria dos países que tentou seguir sua doutrina fracassou), mas enquanto aguardamos uma das tantas catástrofes que o cinema já abordou acontecer, o filme é altamente recomendado por habilmente nos entreter e lembrar dessa verdade inconveniente do status quo da nossa sociedade.



Divulgaí

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