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Crítica: Garota Exemplar

Crítica: Garota Exemplar
A 20th Century Fox mais uma vez consegue nos trazer uma grande adaptação literária para o cinema. Garota Exemplar é o resultado da combinação de um conteúdo material de muita qualidade com a habilidade cinematográfica de um diretor de topo. David Fincher e seu talento como grande “contador de histórias”, bem como sua capacidade de dirigir filmes de longa duração sem perder as rédeas da narrativa - características que têm o acompanhado durante toda sua filmografia, em especial em filmes como Zodíaco e O Curioso Caso de Benjamin Button - foi uma escolha que se mostrou totalmente acertada.

Garota Exemplar não é um filme de amor. É um melodrama perverso, que mostra os traumas e problemas do casamento moderno deteriorado e mal sucedido, revelando segredos que se passam no coração e na cabeça daqueles casais que chegam ao extremo de pensar em alguma forma de atingir ao outro. E toda essa “raiva” é muito boa para nós, cinéfilos. Nos faz acreditar que ainda existem grandes estúdios e profissionais dispostos a investir em histórias polêmicas e hipnotizantes como esta. Em alguns momentos, o filme consegue ser sombriamente engraçado e faz isso com uma eficiência cirúrgica, sem perder o tom de suspense. Baseada em seu livro, Gillian Flynn adapta intencionalmente o roteiro de forma fria e cruel, explorando a montanha russa de um relacionamento, e as diferenças da concepção de casamento entre homens e mulheres, além da falha (ou falta) de comunicação entre ambos.

Fincher filma sem receios, confiando na inteligência do espectador, entrega a trama da forma menos didática possível, e surpreendendo várias vezes durante as reviravoltas do longa. Semelhante a montagem do filme Amnésia, o diretor mescla flashbacks com histórias do jovem casal apaixonado e a angústia e mistério dos dias pós desaparecimento. Nick Dunne (Ben Affleck) é um escritor de uma revista masculina em Nova Iorque, onde conhece a também escritora Amy (Rosamund Pike), uma jovem linda e interessante (perseguida por um riquinho ex-namorado chamado Desi Collings, interpretado por Neil Patrick Harris, que nunca superou sua perda desde o ensino médio), a qual teve sua vida “explorada” pelos pais na pele de Amy Exemplar, uma série de histórias infantis de sucesso absoluto que proporcionaram a sua família um verdadeiro império financeiro.

Os dois vivem uma linda história de romance e amor intenso. Mas o tempo passa e com ele a magia do amor se vai, Nick agora é um marido frustrado, que precisa voltar a sua cidade natal, no Missouri com sua recém-esposa para cuidar da mãe com câncer. Após não conseguir evitar o fatídico destino de sua querida mãe e com seu pai desequilibrado em um asilo, Nick não consegue dar conta de ser um marido presente e desafiador para sua brilhante esposa e acaba caindo no comodismo, ao assumir o controle de um bar na cidade com sua irmã gêmea Margo Dunne (Carrie Coon). Amy também perde seu emprego e ambos percebem que o casamento não é apenas uma linda união de “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”, e nem imaginam que estão próximos de um “até que a morte os separe”.

No seu quinto aniversário de casamento, Amy prepara, como de costume, uma surpresa para Nick. Mas, ao voltar para casa ele se depara com uma surpresa ainda maior: sua querida esposa desapareceu! Começa então a investigação da detetive Rhonda Boney (Kim Dickens) e do oficial Jim Gilpin (Patrick Fugit, o jovem repórter da Rolling Stones no filme “Quase Famosos”), que de imediato tratam Nick como suspeito, e com o apoio da mídia

sensacionalista e da própria falta de jeito e simpatia de Nick, o tornando o homem mais odiado dos EUA no momento. Com a ajuda do advogado renomado Tanner Bolt (Tyler Perry, com um timing perfeito), o marido tentará provar sua inocência. O suspense é tanto que, durante a investigação, o espectador não consegue deixar o nervosismo de lado.

Affleck não precisa de muito esforço para interpretar Nick, seu personagem aparentemente combina de forma orgânica com a personalidade do ator – além de ambos terem nascido no mesmo dia, 15 de agosto - mas tudo não foi por acaso, Ben pesquisou e estudou o comportamento de vários homens acusados ou condenados por assassinarem sua esposa, especialmente Scott Peterson, um homem condenado a pena de morte em 2005 por ter supostamente assassinado sua esposa grávida, e que permanece no corredor da morte enquanto advogados buscam sua absolvição, pois Scott permanece se declarando inocente.

Fincher, que já conseguiu comandar alguns atores a surpreendentes indicações ao Oscar, como Jesse Eissenberg, Rooney Mara e Taraji P. Henson, extrai o melhor dos dois protagonistas, com destaque para Rosamund Pike. Não seria surpresa, pelo que vimos até o momento, uma possível indicação da atriz para a próxima edição do prêmio.

Caso alguém esteja se perguntando, de fato há diferenças entre o livro e o filme. Apesar desta análise ter sido feita baseada apenas na versão cinematográfica, percebemos que Fincher deixou de fora alguns detalhes e modificou também a ideia de “tempo” durante a investigação (no filme, tudo acontece mais depressa, bem como o planejamento do assassinato que, no livro, leva muito mais tempo para ser elaborado), para deixar a narrativa mais fluída e dinâmica. Obviamente não posso detalhar muito para não revelar spoilers e estragar as surpresas, mas sempre há dúvidas que ficam: será que conhecemos o suficiente com quem nos casamos? Aquele homem que eu achava que me amava, poderia me machucar? Quais são os limites da loucura de um ser humano frustrado? Até que ponto alguém vai para salvar seu casamento (ou se salvar dele)?

Outro fator positivo – e este eu atribuo menos ao filme e mais a excelente obra de Gillian Flynn – é a crítica em forma de sátira ao posicionamento policial quanto à abordagem em crimes misteriosos e complexos como este (vale lembrar que o estado onde o crime ocorreu tem pena de morte), e principalmente à cobertura sensacionalista da mídia, voraz em explorar o drama genuíno de famílias com verdadeiros “circos”, transformando pessoas em monstros para entreter seus espectadores.

Garota Exemplar entretém do início ao fim de suas 2 horas e meia. Seu final deixa um gosto amargo na boca do espectador, não de insatisfação, mas o sentimento de incredulidade, como se estivéssemos assistido a dois filmes diferentes, após os reviravoltas e tudo o que presenciamos. Certamente mostra a atração de Fincher em explorar e satirizar o deslumbre do estilo de vida norte-americano atual, recheado de aparências. Graças a esse estilo provocativo, o cinema e seus fãs só têm a ganhar, pois estamos diante de um dos melhores suspenses dos últimos anos.
Divulgaí

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