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Crítica: Mulher-Maravilha 1984

Um filme de super-heróis plenamente consciente de suas origens nos quadrinhos e que tira proveito deste descompromisso
Mulher-Maravilha 1984


Pouco a pouco, a DC está se convencendo de que toda a argumentação envolvendo uma alegada identidade sombria de seu universo não passa do mais profundo engodo. É claro que os resultados colhidos pelas abordagens de Tim Burton e Christopher Nolan foram altamente positivos e influentes dentro – e até mesmo fora – do gênero de super-heróis, no entanto, não significa que todos os personagens e enredos necessitem da mesma atmosfera gótica, realista, sisuda, pesarosa ou dessaturada. Depois das experiências amargas causadas por Batman Vs. Superman- A Origem da Justiça, Esquadrão Suicida e Liga da Justiça em menos de dois anos, empreitadas como Mulher-Maravilha (2017), Aquaman (2018), Shazam! (2019) e Aves de Rapina (2020) apresentaram não apenas produtos finais mais coesos, bem como exploravam melhor o seu potencial estético.

Mulher-Maravilha 1984 (Wonder Woman 1984, 2020), sequência da obra conhecida por quebrar os paradigmas criativos da era Snyder no estúdio, junta-se a este novo grupo de êxitos da DC ao apostar altíssimo no senso de escapismo, na fantasia e no exagero quase megalomaníaco. É, enfim, um filme de super-heróis plenamente consciente de suas origens nos quadrinhos e que tira proveito deste descompromisso para contar uma história realista-fantástica, a qual acaba por surpreender devido a alguns subtextos políticos.

Assim que os créditos iniciais preenchem a tela, percebe-se uma construção de clima diferenciada nos aspectos visuais e sonoros: a diretora Patty Jenkins e o diretor de fotografia Matthew Jensen abraçam uma paleta de cores afirmativa, em que os tons comuns de azul, verde e amarelo preenchem cada centímetro da tela, ao passo que, na trilha sonora, Hans Zimmer adota seus coros elísios de maneira a evidenciar a grandeza do prólogo e para reintroduzir a plateia à heroína de Themyscira, ligeiramente diminuindo a tonalidade unicamente cool que Zack Snyder procurou dar às aparições de Diana Prince em Batman Vs. Superman, uma suavização que garante mais humanidade à protagonista.

Na verdade, este longa-metragem representa uma ruptura significativa com o que vinha sendo apresentado até então na DC, uma vez que quase todas as sequências de ação são cristalinas de tão claras, ambientadas à luz do dia, sem filtros ou quaisquer efeitos imagéticos que pudessem potencializá-las. Jenkins, livre do padrão imposto pelo direcionamento criativo de Snyder no Universo Estendido da DC até então, promove uma ação dinâmica, objetiva e desavergonhadamente pueril, em que a escala dos objetos é deliciosamente estilizada devido à sua maximização, e os corpos estão frequentemente colidindo, sendo arremessados ou simplesmente no mais rápido movimento. É quase como uma criança maravilhada ao descobrir as leis da Física.

Essa mesma lógica se estende à dramaturgia, a qual funciona, em certa medida, como um conto moral sobre o que os nossos desejos dizem e refletem sobre quem somos. O vilão Max Lord, interpretado por um Pedro Pascal afetadíssimo na medida adequada, é uma sátira muito divertida (e pouquíssimo sutil) do empresário popular, bufão e com fama de self-made man que tenta convencer a todos, por meio de sua aparência de executivo bem-sucedido, que é um sagaz sujeito de sucesso, jamais disposto a perder. Nem é preciso mencionar quem foi a figura que o inspirou, só basta dizer que é uma ironia muito curiosa que Jenkins tenha escolhido justamente um ator de descendência latina para dar vida ao antagonista. Com isso, é possível verificar que a tensão dramática do clímax ganha pontos não apenas em sua elaboração textual, mas principalmente em sua execução, superando o péssimo terço final do filme original.

O elenco abraça essa sensibilidade de Jenkins para o entretenimento genuíno. Novamente esbanjando segurança e carisma, Gal Gadot continua transitando firmemente no equilíbrio entre malícia e inocência, suavidade e imponência, além de manter uma ótima química com Chris Pine, cujo timing cômico eficiente consegue extrair o máximo de sequências básicas, ao passo que Kristen Wiig surpreende ao revelar uma fisicalidade improvável, além de assertividade na transição dramática de sua personagem. Connie Nielsen e Robin Wright são coadjuvantes de luxo e reagem bem ao que lhes é exigido.

Embora possua problemas de ritmo em sua progressão narrativa e apresente uma sequência de abertura que, a despeito de sua boa realização, não justifica sua integração ao restante da projeção, Mulher-Maravilha 1984 se consagra como o melhor filme desta fase recente do Universo Estendido da DC justamente por se mostrar uma aventura apaixonada por sua ludicidade e os contornos expansivos de sua gênese nas HQs. É, enfim, uma matinê à moda antiga e feita com os recursos tecnológicos de hoje, mas que traz dois componentes atemporais: brio e leveza.


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