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Crítica: Dois Irmãos - Uma Jornada Fantástica

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica é uma animação que deve levar os adultos ao cinema para passar um tempo precioso com os filhos, mas certamente vai fazê-los sair refletindo sobre a forma como idealizamos o que poderia ter sido e perdemos o que de fato está na nossa frente.
Dois Irmãos - Uma Jornada Fantástica

A habilidade de contar uma história é também a arte da manipulação. Não me refiro ao campo político ou o cinema como instrumento de controle, mas ao simples fato de que a mentira da ficção é uma mentira que se torna tão verdade que nos perdemos nela durante uma sessão de duas horas. Ao longo de 34 anos de existência e 22 longas lançados até agora (esse ano ainda tem a estreia de Soul), a Pixar Animation Studios tem feito precisamente isso, levando o público a se emocionar genuinamente sem distinção de idade. A abordagem, sem dúvida, mira o infanto-juvenil, mas as temáticas tocam profundamente de forma que vários ditos “dramas sérios” não conseguem. Ainda que não esteja no patamar de Wall-E, Toy Story 3, Divertida Mente e outras obras-primas, Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica não parece ser o exemplo onde veremos o estúdio perder a capacidade de fazer um bando de marmanjos saírem do cinema com olhos marejados.

A trama se passa num mundo habitado por seres mágicos onde antigamente conviviam várias criaturas comuns a esses tipos de história, como fadas, trolls, unicórnios, sereias, etc. Com o passar do tempo e a chegada da tecnologia, o poder mágico foi desaparecendo junto com a rotina das grandes cidades. Ian Lightfoot (Tom Holland) é um jovem elfo introspectivo que tem dificuldades em arrumar amigos na escola e passa os dias lamentando a ausência do pai, morto quando era apenas um garoto e deixando como lembrança apenas fotos e uma pequena gravação de voz caseira. No seu aniversário de 16 anos do rapaz, sua mãe, Laurel (Julia Louis-Dreyfus), entrega um pacote deixado pelo pai contendo um cajado mágico que promete trazê-lo de volta durante 24 horas. A inabilidade na execução do feitiço acaba funcionando apenas pela metade, o que faz com que Ian e seu irmão de personalidade completamente oposta, Barley (Chirs Pratt), precisem ir atrás de um artefato que os possibilitará completar o desejo antes que o tempo se esgote.

Exibindo a costumeira expertise em criar mundos facilmente relacionáveis, ainda que povoado por outras espécies inseridas em jornadas humanas, a Pixar mais uma vez retorna com a qualidade de sempre. Mas o mais importante é que ela faz o que toda boa animação deveria fazer: não duvidar da capacidade de uma criança em absorver temas mais complexos. Praticamente todos os filmes lançados pelo estúdio possuem o talento para fixar a atenção dos filhos enquanto os colocam, mesmo que não se deem conta, para refletir sobre vida, morte (Viva - A Vida é Uma Festa) e até a tristeza (Divertida Mente). Aqui, a trama que envolve a busca por rever aqueles que amamos e já se foram não poderia ser mais imediata para qualquer um. Mesmo que provavelmente atinja aqueles que sofreram perdas recentes, a história deixa uma lição importante sobre o valor de não desperdiçar o tempo – e o interessante é que, por mais que isso pareça piegas, funciona sempre pela capacidade do estúdio em tornar a simplicidade do formato numa poderosa mensagem através de uma sensibilidade sempre surpreendente.

Dirigido por Dan Scanlon (Universidade Mosntros), o longa coloca a jornada familiar dos Lightfoot inserida num universo fantástico, porém drenado pela facilidade com que a tecnologia substituiu a arte performática de invocar encantos (o que é pontuado pela descoberta da luz elétrica ao invés da necessidade de um bruxo). Boa parte da construção de mundo se baseia no humor que compara o nosso dia-a-dia com a existência de seres que nos acostumamos a ver em fantasias. Dessa forma, os centauros dirigem carros no lugar de cavalgarem, as fadas se juntaram em gangues de motociclistas e não usam mais as asas e os dragões e unicórnios são animais de estimação. A ideia funciona durante a maior parte do filme e há ótimas sequências que usam o conceito de magia como uma concepção de “humanidade” perdida pela rapidez da rotina baseada em conectividade instantânea e o esquecimento do passado.

Infelizmente, esse acaba se revelando também como um ponto fraco. Embora seja muito eficiente a forma como o roteiro de Scanlon, Jason Headley e Keith Bunin usa elementos familiares como um recurso da narrativa – como é o caso de um livro de RPG conter histórias verdadeiras dos elfos e até uma manticora (Octavia Spencer) ter se tornado a dona de uma lanchonete temática, – o longa não aproveita muito a oportunidade de expandir os conceitos e basicamente aposta numa piada só. O resultado é uma superficialidade que torna a trama por vezes enfadonha e cansativa, criando aquela famosa “barriga” no 2º ato. Nesse caso, um certo vazio narrativo que serve para preencher o tempo até que finalmente o arco principal engrene.

Em compensação, quando a história entre pai e irmãos toma conta de verdade, esses problemas parecem diminuir e a força do filme cresce à medida que o desfecho se aproxima. É aí que entra a verdadeira “magia” da obra, representada na manipulação cujo os mecanismos o espectador está 100% ciente e mesmo assim se entrega por completo. Em termos do que esperar daquilo que a premissa determinou, há pouquíssima surpresa. Mesmo assim, dificilmente alguém não será surpreendido com a sensibilidade com a qual Scanlon e sua equipe decidem mostrar o que se julgava a escolha natural da história.

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica é uma animação que deve levar os adultos ao cinema para passar um tempo precioso com os filhos, mas certamente vai fazê-los sair refletindo sobre a forma como idealizamos o que poderia ter sido e perdemos o que de fato está na nossa frente. Pois é, parece algo feito para se ler em biscoito da sorte ou em frases motivacionais, mas a Pixar provavelmente o fará se esquecer desse detalhe.

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