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Crítica: Sonic - O Filme

Integra-se a este elemento mais descontraído a interpretação de Jim Carrey como o vilão Dr. Robotnik e ao tratamento que a narrativa lhe confere.
Sonic - O Filme

Ao contrário da postura adotada pela Universal Pictures com a hecatombe Cats, a Paramount demonstrou solicitude (e bom senso, lógico) ao atentar-se às críticas feitas há quase um ano por internautas quanto ao design do ouriço azul Sonic, personagem-título de um jogo muito popular criado no início dos anos 1990 e controlado pela Sega. Após refazer o trabalho, a equipe do diretor debutante Jeff Fowler entregou um resultado muito mais simpático e próximo da concepção original da matéria-prima, fazendo o orçamento saltar de (estimados) $90 a 110 milhões de dólares.

O fato é que, a despeito da controvérsia gerada entre os fãs, Sonic: o Filme (Sonic the Hedgehog, 2020) firma-se como um filme bem simpático. Não há grandes novidades no que se propõe aqui. Trata-se de uma aventura para família em que uma criatura alienígena carismática acaba convivendo com humanos de coração genuinamente bom e precisa escapar de uma força governamental (ou a serviço dele) que deseja capturá-lo para conduzir experimentos científicos.

Percebe-se que originalidade não é o forte do roteiro de Pat Casey e Josh Miller – nem deveria sê-lo, necessariamente. No entanto, é um bocado melancólico que Hollywood se preocupe mais com a aparência das coisas do que com seu conteúdo, que se disponha a atrasar o lançamento de uma grande produção apenas para melhor atender a uma demanda comercial, mas se esqueça de fornecer à plateia uma história mais calibrada, de batidas narrativas menos manjadas e com set pieces menos óbvias (OK, é preciso dar o braço a torcer: ainda que já tenham sido vistas nos três últimos filmes da recém-encerrada franquia X-Men e no malfadado Liga da Justiça, as corridas de Sonic contra o tempo, agora congelado, são bem divertidas).

Às vezes, a burocracia do texto e a trivialidade das escolhas feitas pela direção ameaçam escancarar o indireto destino natural de um longa-metragem como este: ser assistido despretensiosa e casualmente na Sessão da Tarde. O núcleo humano, comandado por James Marsden (contracenando com uma criatura computadorizada pela segunda vez após Hop- Rebelde Sem Páscoa), é concebido e conduzido com uma artificialidade ausente até nos mais descabidos desenhos animados. A situação melhora assim que Sonic (cuja voz e captura de movimentos é de Ben Schwartz, o Jean-Ralphio da série Parks and Recreation) entra em cena: apesar do arco dramático sem quaisquer surpresas, o ouriço apresenta grande presença de cena, faz referências espirituosas à cultura popular e sua interação física com os atores reais convence na maior parte do tempo.

Integra-se a este elemento mais descontraído a interpretação de Jim Carrey como o vilão Dr. Robotnik e ao tratamento que a narrativa lhe confere. Sua presença é antecipada em uma série de diálogos travados entre figuras de poder dentro do governo norte-americano, as quais se referem a ele como um “maluco” ou “como a única solução possível”; seus trajes são sempre longos, escuros e muito característicos; sua misantropia é carregada em níveis autoparódicos. Carrey, muito confortável neste tipo de personagem, abraça a proposta de um antagonista cartunesco e injeta-lhe toda a sua elasticidade maníaca, elevando-a à máxima potência e divertindo a si e a plateia, no processo. As piscadelas descaradas à Apocalypse Now (1979) e Náufrago (2000) são apenas a cereja a bolo.
Sendo assim, a experiência proporcionada por Sonic: o Filme pode não ser uma quintessência, tampouco indica uma renovação no gênero ou no cenário dos blockbusters. Mas também não ofende ou entendia ninguém. Ao menos, consegue emular o espírito do jogo noventista no qual é baseado: célere, ligeiramente empolgante e consideravelmente esquecível, mas ainda assim, uma agradável ocupação.



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