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Crítica: O Preço da Verdade - Dark Waters

O Preço da Verdade é eficiente como um drama investigativo e escapa da armadilha de enfeitar demais uma história real que não necessita de muitas mudanças para causar indignação.
O Preço da Verdade - Dark Waters

Em tempos onde é preciso constantemente se lembrar de que a arte, em maior ou menor grau, sempre reflete o contexto político em que está inserida, um filme como O Preço da Verdade (Dark Waters, 2019) nem necessita muito esforço para fazê-lo. Caindo como uma luva para o ator Mark Ruffalo, cujo engajamento em questões ambientais é bastante notório, a história de como a empresa americana DuPont envenenou pessoas e o meio ambiente através de um composto químico presente no Teflon foi a oportunidade perfeita ele deixar de lado o legado do Hulk nos blockbusters da Marvel e voltar para um papel que ressoa suas aspirações pessoais (algo semelhante ao que fez no excelente Spotlight).

Baseado no artigo do NY Times, O Advogado Que se Tornou o Pior Pesadelo da DuPont (Nathaniel Rich), a trama acompanha Robert Billot (Ruffalo), cuja experiência trabalhando em uma firma que defendia grandes empresas o torna um candidato inesperado para representar o fazendeiro Wilbur Tennant (Bill Camp) quando este o procura se queixando de que a DuPont tem despejado lixo tóxico nos arredores de sua propriedade, causando a morte de seu gado. Quando Billot passa a investigar o assunto e descobre que o PFOA, substância química do Teflon, está não só intoxicando os animais e a flora, mas também causando a morte de pessoas em uma escala muito maior, sua defesa se torna uma cruzada contra uma grande corporação decidida a sair impune.

Partindo de um formato baseado no thriller de investigação jornalística com pitadas de drama de tribunal, o roteiro de Mario Correa e Matthew Carnahan (Guerra Mundial Z, Leões e Cordeiros) foca nas duas frentes comuns ao gênero: o processo relativo ao caso em si e as consequências pessoais tanto para o protagonista quanto para os outros personagens. Em termos da apuração dos fatos, o longa segue a cartilha da reprodução fidedigna da realidade (ou quanto for possível, como mostra esta matéria), algo que não só é colocado durante a trama através dos passos principais que levaram às descobertas incriminadoras da empresa quanto a abordagem da própria narrativa, que data o longo processo pontuando as passagens de tempo (embora a exposição inicial que explica as motivações de Billot sejam completamente desnecessárias).

Nesse ponto, a obra apresenta sua riqueza temática e informativa ao retratar o penoso processo resultante da dificuldade em provar os acobertamentos realizados pela empresa e fazer a justiça funcionar quando um dos lados possui recursos financeiros (portanto, meios para se defender) muito maiores do que o outro. A fim de deixar que a história retenha sua força justamente no peso da denúncia, o diretor Todd Haynes (Carol, Não Estou Lá, Velvet Goldmine) evita transformar a narrativa num espetáculo super dramático ao não incluir grandes sequências de julgamento, geralmente marcadas por atuações teatrais e reviravoltas de último segundo. Do contrário, investe numa abordagem bem mais contida, ressaltando o desgaste físico e emocional colocando os personagens em salas escuras e banhadas tons cinzas e verdes sem vida, o que, junto a uma fotografia levemente granulada, causa a impressão de uma decadência gradativa (que se mostra nos exteriores através da frieza do azul).

Como uma trama desse tipo correria o risco de se tornar enfadonha se focasse apenas na camada da investigação, a trama também mostra o arco de Billot e como ele lida com as consequências do caso. No âmbito social, ele é obrigado a encarar o símbolo negativo do seu passado a favor das corporações para uma comunidade inteira afetada por todos os lados – e isso inclui tanto as vítimas de danos materiais e as que perderam a vida desenvolvendo doenças graves quanto os trabalhadores da empresa que perderam o emprego após a explosão do caso mundialmente.

Na lado pessoal, a relação com a esposa Sarah (Anne Hathaway) é um dos pilares em que o longa se apoia para trazer o estresse do mundo jurídico e midiático para dentro do lar, especialmente pelo fato de o casal esperar um novo filho diante das possibilidades de o Teflon contido nos utensílios domésticos afetar a saúde dos recém-nascidos. Infelizmente, esse é um dos pontos fracos da obra, já que o real peso da história sobre eles nunca sai do básico. A personagem da mulher subaproveita o talento de Hathaway e ela basicamente é obrigada a transitar entre poucos estados emocionais ou servir de um suporte pontual para alavancar algumas decisões do protagonista. A própria jornada de Billot, por mais que Mark Ruffalo mantenha a competência de sempre, é mais cantada por recursos burocráticos contidos em diálogos ou em interações com outros personagens do que realmente um aprofundamento nas mudanças de seu arco (alguns clichês incomodam, como reações exageradas quando informações vem à tona numa pesquisa por fontes, o personagem que tosse na hora exata afim de telegrafar uma doença grave ou o confronto em local público que serve para resumir a indignação de uma vítima para com o advogado).

Mas, ainda assim, O Preço da Verdade é eficiente como um drama investigativo e escapa da armadilha de enfeitar demais uma história real que não necessita de muitas mudanças para causar indignação. O próprio fato de descobrirmos que o PFOA está presente na maioria dos seres humanos (por consequência, em mim e em você) já causa um certo choque e, ao menos nisso, a obra cumpre seu papel ao mesmo tempo em que se mostra operante como cinema.  


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