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Crítica: Maria e João - O Conto das Bruxas

Talvez uma mera tentativa de soar mais ousado ao final do roteiro, uma explorada mais significativa no confronto final, ou uma preocupação maior em ser impactante do que ser didático, fizessem do longa um horror memorável.
Maria e João - O Conto das Bruxas


Para os amantes do cinema de horror, principalmente aqueles que se entregam a propostas inovadoras e conceitos repaginados, não há frustração maior do que um filme que entrega uma excelente ideia, um impecável visual, um convincente trailer, mas peca em toda a sua execução. “Maria e João” vem aos cinemas para provar que a junção de bons elementos que fazem sucesso não basta para gerar um bom filme. Quando se pensa na ideia da junção do popular conto dos Irmãos Grimm, “João e Maria”, com uma repaginada evidente do filme “A Bruxa” de Robert Eggers, espera-se um filme tocante e sombrio sobre o papel feminino em histórias e o conceito que define uma bruxa. Ainda mais num filme que propositalmente inverte os nomes presentes no seu título, na intenção de deixar claro que Maria é a protagonista da história, era de se esperar que a história contada buscasse uma perspectiva original. Mas a questão não é que a perspectiva seja repetitiva, e sim que após o fim do filme, percebe-se que o próprio filme não sabe qual é a perspectiva adotada.

No enredo acompanhamos os irmãos Maria (Sophia Lillis) e João (Samuel Leakey) lutando contra a fome e a miséria, atravessando um caminho por uma floresta sombria até encontrarem a casa de uma velha senhora que os oferece comida, estadia e uma vida com fartura. Tais conceitos são expostos e desenvolvidos de forma fantástica, com visual refinado e fantasioso na medida certa, deixando o espectador intrigado e curioso para quais adaptações serão feitas no conto original. Mas a partir desse ponto, a narrativa se torna incoerente, e o filme não sabe mais se deseja se manter no clima do horror, do suspense ou do simples reconto de um conto de fadas fazendo referência a outros. É como se ao longo de todo o enredo fosse prometido para o espectador que será contado ali “algo a mais do que o conto João e Maria que conhecemos”, mas quando chegamos ao fim, é como se tivéssemos simplesmente o “João e Maria que conhecemos” com um único diferencial na protagonista que, apesar de ter potencial para uma ideia genial, não é bem executado.

As atuações do elenco são convincentes. Sophia Lillis, apesar de inexpressiva em alguns pontos, sabe como carregar a função de protagonista, nos fazendo enxergar aquele mundo através de seus olhos, ao passo em que leva nos ombros o medo escondido de uma personagem na miséria disfarçado pela responsabilidade de proteger o irmão mais novo. Alice Krige, no papel de Holda, a bruxa da história, traz o esperado de uma antagonista com segundas intenções, reservando o sombrio em seus trejeitos para movimentos vagarosos e expressões mínimas. O que desconstrói completamente as relações e intenções criadas pelas atrizes em suas personagens é a narração de Maria inserida em vários momentos do longa. Os acontecimentos narrados soam como tentativa de costurar cenas soltas, enquanto em alguns momentos se fazem extremamente desnecessários, visto que contam exatamente o que está acontecendo em tela.

A mixagem de som e a edição, entretanto, devem ser mencionadas, visto que são as responsáveis por construir o clima de miséria e ruína, inserindo desde o ruído dos estômagos das crianças, até o zunir de moscas em cenas específicas, fazendo-se presentes ao mesmo tempo que os diálogos e demais sons ambientes. A ambientação do longa se sustenta do início ao fim.

Talvez uma mera tentativa de soar mais ousado ao final do roteiro, uma explorada mais significativa no confronto final, ou uma preocupação maior em ser impactante do que ser didático, fizessem do longa um horror memorável. Infelizmente, o clímax decepcionante faz com que a sensação ao subir os créditos seja de desapontamento, não por um filme medíocre, mas sim por um filme medíocre que tinha potencial para ter sido fantástico.


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