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Crítica: Luta por Justiça

Por mais que seu tradicionalismo limite sua potência, Luta por Justiça justifica sua pertinência no mundo contemporâneo por trazer uma história ocorrida em um tempo relativamente recente
Luta por Justiça

O título brasileiro deste filme não poderia ser mais apropriado e sintomático: Luta por Justiça (Just Mercy, 2019) é um nome genérico que poderia ser facilmente adotado por qualquer produção de cunho inspiracional ou dramaticamente hiperbólica, estando apta ou não a concorrer às grandes premiações norte-americanas. No entanto, apesar da obviedade comercial da distribuidora tupiniquim, o projeto do diretor Destin Daniel Cretton (de Short Term 13 e O Castelo de Vidro) mostra-se sempre relevante (infelizmente) e capaz de suscitar grandes catarses na plateia.

Baseando-se no livro de memórias homônimo escrito pelo advogado Bryan Stevenson, o longa-metragem centra-se na figura do autor (interpretado aqui por Michael B. Jordan), que, em 1989, recém-saído do curso de Direito de Harvard, muda-se para o estado do Alabama com o intuito de oferecer assistência jurídica às pessoas que não possuem renda suficiente para se defenderem legalmente. Em uma passagem pelo corredor da morte, Bryan se depara com a história de Walter “Johnny D.” McMillian (Jamie Foxx), um homem negro condenado a pena de morte pelo assassinato de uma jovem branca de 18 anos. Ao constatar que os depoimentos incriminatórios não têm sentido e que álibis concretos não foram considerados pela polícia local, o idealista Bryan Stevenson, em parceria com Eva Ansley (Brie Larson), decide ajudar Walter e livrá-lo de uma condenação injusta.

Tem-se aqui um drama norte-americano clássico: o protagonista é um homem íntegro, de intenções nobres e convictas em sua postura transformadora; os percalços são incrivelmente dolorosos e dispostos em uma escalada abominável de injustiças; há grande rejeição quanto ao objetivo do personagem central; o sistema é o grande vilão, mas, por vezes, seus agentes também o são (função exercida pelos personagens de Rafe Spall e Michael Harding); e o peso histórico dos temas e da recorrência de casos como os retratados no conflito central aqui. Cretton e o diretor de fotografia Brett Pawlak filmam todas estas características com a solenidade contumaz, alternando-se entre tons cremosos e em planos próximos e estáticos.

Esse classicismo, no entanto, traz algumas deliberações questionáveis e consideravelmente exaustivas. O roteiro, coescrito pelo diretor em parceria com Andrew Lanham, decide abraçar subtramas cuja função temático-social não poderia ser mais válida, mas que, com um ajuste, não prejudicariam a trajetória dramática da história. Há um sub-arco narrativo sobre um carcereiro aparentemente detestável que nunca encontra uma justificativa ou demonstra ter um caminho bem pavimentado. Isto faz com que o segundo seja tateante e inchado, apesar do prólogo (a apresentação do vitupério contra Walter e a obstinação de Bryan) e epílogo (o embate nos tribunais por uma reavaliação do caso) bastante sólidos.

Seguindo essa vertente, as interpretações do elenco e suas relações dramáticas são fortes e causam impacto. Michael B. Jordan demonstra com competência a incredulidade e firmeza de seu personagem, saltando da melancolia ao pleno horror. Já Jamie Foxx firma-se como o grande destaque desta iniciativa, ancorando a narrativa por sua tenacidade, revolta e clareza de objetivos.
Por mais que seu tradicionalismo limite sua potência, Luta por Justiça justifica sua pertinência no mundo contemporâneo por trazer uma história ocorrida em um tempo relativamente recente, alicerçada unicamente na convicção e na comprovação de serviço à comunidade pública, por sua vez, fundamentadas em sentimentos e preconcepções vis e retrógradas. E ver que as vítimas são sempre as mesmas (negros, latinos, pobres, desescolarizados), ao longo de toda a História, é uma repugnância salutar que o filme faz questão de suscitar.

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