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Crítica: Entre Facas e Segredos

O fato é que todo o mistério funciona, pois é inteligente, repleto de boas reviravoltas e traz de volta genuinamente a palavra “diversão” para outros exemplares do cinema que não sejam os blockbusters de ação e super-heróis. Rian Johnson, mais uma vez, está entre os melhores do ano.
Entre Facas e Segredos

Um dos conceitos de narrativa que mais se relacionam com as histórias envolvendo tramas que giram em torno de um enigma a ser desvendado é o da ironia dramática. Mais precisamente, a relação entre o fato de o público saber menos (mistério) e quando ele sabe mais (ironia). Como discutido de forma bastante didática por Robert McKee em seu essencial Story, o controle que o narrador exerce sobre quando e como jogar as informações para o espectador é o responsável por manter o suspense, já que depende de convidá-lo a “participar” da trama através de um jogo cuidadoso de pistas e recompensas, jamais o deixando demais no escuro e nem revelando mais do que o necessário até a hora certa. Se há um tipo de história que se encaixa perfeitamente nisso é o dos thrillers de assassinato. Na literatura, tem como grandes representantes a Rainha do Crime, Agatha Christie e os contos de Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle.

Não à toa, suas influências não passaram em branco no cinema e as adaptações de suas obras são inúmeras. Resgatando o clima whodunit (uma espécie de contração informal no inglês de “quem fez?” relativo à investigação de um assassinato), Entre Facas e Segredos (2019) trás de volta a pegada clássica do subgênero ao mesmo tempo em que usa o humor para desenvolver uma abordagem menos séria e remeter o público a um divertido jogo de Detetive (famoso jogo de tabuleiro). No caso, a morte da vez é do bem-sucedido autor de histórias de assassinato Harlan Thrombey (Christopher Plummer), encontrado morto em sua mansão após completar 85 anos. Investigada pela polícia e pelo detetive particular Benoit Blanc (Daniel Craig), a família Thrombey está repleta de suspeitos e não faltam motivos para que o autor do crime seja qualquer um deles.

Escrito e dirigido por Rian Johnson (Star Wars – Os Últimos Jedi, Looper e o melhor episódio de Breaking Bad, Ozymandias), o longa acerta em praticamente todas as frentes, criando uma experiência tensa e divertida que envolve inúmeros personagens, dando a praticamente todos eles (há exceções) um papel importante a desempenhar. É aqui onde entra o delicado equilíbrio entre o que esconder e o que revelar, de que maneira isso é colocado pela estrutura através das famosas pistas (incluem-se as falsas também) e do quanto é preciso para que o espectador seja recompensado satisfatoriamente a cada virada do roteiro. Nesse ponto, Johnson subverte as expectativas não só nos elementos da trama em si, mas da própria relação entre narrador, personagens e público, ora nos deixando tensos porque ainda não sabemos nada, ora invertendo a lógica e extraindo o suspense da curiosidade de imaginarmos as consequências do que já conhecido por nós – é, novamente, onde entra o equilíbrio entre ironia e mistério.

Para isso, é preciso reconhecer o mérito do roteiro em conseguir criar um microuniverso rico de personagens que ganham substancia pelas ótimas atuações e pela maneira como suas particularidades, forças e fraquezas vão sendo reveladas pela trama, cada um com um peso calculado de seu impacto no escopo geral. O cerne da coisa toda se divide a partir dos três filhos: Linda (Jamie Lee Curtis), Walt (Michael Shannon) e outro que é brevemente mencionado, mas não participa da trama. A partir das famílias de cada um deles – incluem-se aí os netos Ramson (Chris Evans), Meg (Katherine Langford) e Jacob (Jaeden Martell), além da nora Joni (Toni Colletti) e o marido de Linda, Richard (Don Johnson) – o longa cria uma intrincada rede aparências cuja dinâmica se apresenta como como um vai e vem de crescentes acusações mútuas, sendo um grande trunfo da trama justamente participar das manipulações a cada um é submetido.

Afinal de contas, qual é a graça de um filme como esses senão tentar adivinhar quem matou Harlam de acordo com nossas impressões particulares de cada um? Nesse ponto, o roteiro é preciso ao brincar com as expectativas do público. Para cada um dos Thrombey, é possível identificar uma cartilha de possíveis motivações seguidas de outros fatores que, porventura, os excluiriam diante de outras mais fortes. Tendo atingido grande sucesso escrevendo romances policiais de mistério e assassinato (o que só soma à trama, inclusive), Harlam também é possuidor de um patrimônio gigantesco, e que, segundo ele mesmo, é quase como uma maldição, já que o torna invariavelmente responsável por sustentar os filhos ao mesmo tempo em que precisa se preocupar e não torna-los meros herdeiros de seu trabalho. Por si só, essa relação primordial e inevitável entre eles já se tornaria uma semente fértil para traições, mentiras e ressentimentos.

Sob um ponto de vista simbólico, Johnson também usa esses personagens para fazer o uso clássico de suas características para representar um microuniverso dos tempos atuais – aqui, no caso, uma família de classe alta, privilegiada pelas conquistas do patriarca, cujos integrantes escondem a ânsia por sua parte da herança sob discursos hipócritas de ligação sanguínea e de falsa meritocracia; fora, especialmente, a famosa “amizade” com a cuidadora latina Marta Cabrera (Ana de Armas) em meio a debates sobre a situação dos imigrantes nos EUA. Embora essa abordagem não seja, de forma alguma, sutil (e até desnecessária se considerarmos a função de Jacob na narrativa, por exemplo), ela acaba ajudando o público a abraçar Marta como a heroína. Fazendo papel da inocente colocada em maus lençóis, ela é a protagonista cujo ponto de vista se apoia no dito equilíbrio entre o saber de menos e o saber de mais, o que torna sua interação com Blanc ainda mais interessante – este aliás, é interpretado de forma divertidíssima por Daniel Craig, em um sotaque propositalmente cômico e uma pompa de um Hercule Poirot (detetive de vários dos romances de Agatha Christie), porém muito mais caricato (uma versão “zoada”, para resumir bem), contribuindo para o tom de não se levar a sério.

É justamente essa abordagem mais para o lado do despretensioso que torna Entre Facas e Segredos tão divertido. Auxiliado pela excelente montagem de Bob Ducsay (colaborador constante do diretor), o filme estrutura com maestria toda a desenvoltura narrativa necessária para que jamais nos entediemos com a trama, mesmo com 130 minutos de duração. Fora isso, Rian Johnson usa seu conhecido talento para composições visuais para brincar com elementos típicos do gênero, como os personagens que se revelam misteriosamente nas penumbras, expressões que surgem marcadas pelas sombras em momentos de revelação e até um exagero proposital em cenas mais dramáticas, com direitos a closes mais acentuados e uma trilha que remete aos clássicos. É uma obra que abraça a forma em sua homenagem, mas também tem conteúdo, presente tanto em seus personagens como no grau de dificuldade da própria trama, que verdadeiramente é capaz de surpreender quando o público está com a guarda baixa.

Mas além disso, claro, se o espectador não reconhecer esses méritos da linguagem (embora os absorva inconscientemente), o fato é que todo o mistério funciona, pois é inteligente, repleto de boas reviravoltas e traz de volta genuinamente a palavra “diversão” para outros exemplares do cinema que não sejam os blockbusters de ação e super-heróis. Rian Johnson, mais uma vez, está entre os melhores do ano.

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