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Crítica: Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe

Um bom filme de gênero e uma simpática homenagem ao cinema feito meio século atrás.
Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe

Uma das capacidades mais interessantes da Arte é a possibilidade de reescrever histórias, readequar técnicas, recontextualizar comportamentos e revisitar épocas distintas da que se vive, recuperando, remetendo ou referenciando o passado, ainda que com a lógica e os recursos do presente. Isto é bastante comum na Sétima Arte. Surgido no final da década de 1940 e vigorado até o início dos anos 1960, o Cinema Noir vem se mostrando como a escola cinematográfica mais querida por cineastas contemporâneos como Steven Spielberg (Minority Report, Ponte dos Espiões), Steven Soderbergh (O Segredo de Berlim), Robert Zemeckis (Aliados), Mauro Lima (Reis e Ratos), Christopher McQuarrie (Jack Reacher – O Último Tiro e Missão: Impossível – Nação Secreta) e Paul Thomas Anderson (Vício Inerente), em abordagens mais ou menos explícitas, mas sempre com elementos obviamente identificáveis. Retornando à cadeira de direção quase vinte anos depois de assumi-la pela primeira vez, Edward Norton exercita seu estilo e executa a cartilha do Noir em Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe (Motherless Brooklyn, 2019).

Estamos na Nova York do final dos anos 1950. Portador da Síndrome de Tourette, que o faz tocar nos ombros dos outros e tecer comentários cômicos inapropriados em forma de tique, Lionel Essrog (Norton) trabalha como detetive particular em um escritório chefiado por Frank Minna (Bruce Willis), a quem enxerga como figura paterna por tê-lo ajudado ainda criança, juntamente com Tony Vermonte (Bobby Cannavale), Gilbert Coney (Ethan Suplee) e Danny Fantl (Dallas Roberts), que também trabalham com ele. Quando Frank é baleado e morre em decorrência de seu envolvimento em um caso específico e sigiloso, Lionel sente-se no dever de descobrir o que ocorreu com o chefe/amigo, adentrando-se em uma trama cheia de pormenores e que envolve, principalmente, a jovem advogada Laura Rose (a sempre bela Gugu Mbatha-Raw).

Gestando este projeto há duas décadas, desde quando leu o romance de Jonathan Lethem no qual o longa-metragem se baseia, Edward Norton demonstra, de fato, muito carinho para com o material original e, ainda mais notavelmente, para com o protagonista – tanto é que, não bastando dirigir, roteirizar e co-produzir, também incumbiu-se de interpretá-lo. Apesar de todas as excentricidades de seu personagem, Norton o enxerga com grande empatia e paciência, procurando normalizá-lo dentro das situações em que se insere ao longo da narrativa. No entanto, o ímpeto de tornar assimiláveis os cacoetes de Lionel se revela bastante irregular, uma vez que a reação dos personagens coadjuvantes que acabam de conhecê-lo é praticamente nula (como na cena-confronto entre o detetive e o todo-poderoso Moses Randolph, interpretado por Alec Baldwin) ou facilmente superável (já no primeiro encontro entre Laura e Lionel, ela parece achar charmosos e levemente divertidos os comentários inadvertidos dele, o que se contradiz, inclusive, com a própria personalidade inquisitiva e forte da ativista).

Ademais, o roteiro do próprio Norton também comete deslizes já em seu prólogo, o qual se inicia de forma decisivamente abrupta e apenas sugere uma relação afetuosa de proximidade entre Lionel e Frank. Essa celeridade prejudica um pouco da motivação do personagem central, já que, mesmo tendo acompanhado o evento climático que dá o pontapé do enredo, não é possível estabelecer um vínculo emocional ou crer indissoluvelmente na importância do mentor para o pupilo, o que se agrava pela pouca exploração que Norton faz da figura póstuma de Frank. (Neste caso, talvez, a culpa não seja do diretor, mas, sim, de Bruce Willis, cujo ímpeto para atuar desapareceu há muito e legou-lhe uma face inexpressiva e indisposta, também vista aqui). Por fim, ainda que este seja um demérito menor, faltou ao Norton roteirista um pouco da parcimônia e senso de tensão dos escritores de thrillers noir, como Raymond Chandler e Dashiell Hammett, atentando-se em não entregar completamente os pontos sobre a dubiedade moral de um personagem por meio de questionamentos, abraçar inquestionavelmente os diálogos expositivos para mero efeito elucidativo ou de apressar-se para resolver os conflitos da trama, que, inclusive, apresenta uma contradição temática por um dos elementos presentes na cena final (sem spoilers).

O Norton diretor, por outro lado, revela-se um pouco mais preciosístico. Ao alterar (adequadamente, diga-se de passagem) o cenário no qual a história do romance se passava, da contemporaneidade para o final dos anos 1950, o cineasta, em parceria com o diretor de fotografia Dick Pope e a designer de produção Beth Mickle, consegue explorar os elementos visuais daquela época ao emular outras representações do período, marcado pelo surgimento do Cinema Noir. Desta forma, Norton, Pope e Mickle conseguem criar composições estimulantes e estimulantes, como aquela que capta uma discussão entre os personagens de Baldwin e Willem Dafoe por meio do contraste entre luz e sombras enquadradas em preciso plano de conjunto, também visto na misteriosa reunião dos minutos iniciais, ou ainda o longo plano que gira em torno de Lionel e Laura enquanto dançam ao som de um jazz mavioso e atmosférico. A montagem de Joe Klotz, ainda que constantemente tateie a procura de um ritmo apropriado, merece consideração especial por apresentar demoradamente o rosto do personagem de Baldwin, mitificando-o por seu poder de decisão.

Assim, aos trancos e barrancos, Edward Norton consegue conferir uma unidade estética exitosa a seu longa-metragem, a qual é complementada por uma sólida recorrência temática envolvendo corrupção, pragmatismo moral, racismo, justiça social e paternidade, ainda que esta última, repito, seja prejudicada pelo parco entrelaçamento dramático da relação entre Lionel e Frank. A excepcional trilha sonora do inglês Daniel Pemberton – acrescida da suave canção “Daily Battles”, composta pelo ilustre Thom Yorke – também contribui bastante para a boa fruição de Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe, um bom filme de gênero e uma simpática homenagem ao cinema feito meio século atrás.




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