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Crítica: Ford vs Ferrari

A estrutura de Ford vs Ferrari não é particularmente ousada, a até pode-se dizer que é formulaica, mas ela atinge muito bem sua proposta de ser uma homenagem honesta à paixão pelo automobilismo.
Ford vs Ferrari

Há uma razão para que filmes sobre grandes esportistas sejam tão atrativos para o público em geral: a natureza de um ser humano competindo para chegar acima de outros e vencer obstáculos se assemelha naturalmente à jornada do herói aplicada ao storytelling. Ali está o personagem que se origina no desconhecido, mostra talento ao ser o “escolhido” para vencer e seus conflitos são representados nos próprios percalços de sua modalidade – e torcer para um deles em um filme pode ser tão empolgante quanto assistir a uma competição ao vivo, mesmo que as duas situações sejam de naturezas distintas. É por esse motivo que Ford Vs Ferrari é o tipo de obra que nasce chamando atenção do público com sua temática que parece ser universal: o universo da competição automobilística, que aí inclui tanto o aspecto dos atletas quanto dos carros.

E a história da Ford entrando de vez nas 24 Horas de Le Mans é naturalmente cinematográfica, especialmente porque envolve o típico talento problemático, mas habilidoso – aqui na pele do piloto e engenheiro Ken Miles (Christian Bale) – atrás de sua chance de ganhar um grande destaque na categoria quando o ex-colega de profissão, Carroll Shelby (Matt Damon), recebe a incumbência de montar uma equipe (e um carro) no intuito de acabar com a sequência de vitórias da Ferrari. Com pouco tempo e muito trabalho, a companhia americana, liderada por Henry Ford II (Tracy Letts), finalmente buscará o protagonismo no esporte após amargar uma crise no mercado doméstico.

Investindo tanto nas competições em si quanto nos bastidores, o longa de James Mangold (Logan) recorta esse curto período da metade dos anos 60 para inserir dois personagens opostos (com a única semelhança de serem pilotos) para enfrentar o mesmo objetivo de vencer uma corrida conhecida por sua grande exigência de resistência e estratégia – ressaltando que o número em seu título não é metafórico, pois a competição dura mesmo 24 horas. Mostrando que o cineasta escolhe primeiramente (e acertadamente) iniciar sua obra focando nos personagens, o prólogo coloca o espectador na agonia de Shelby enquanto recebe a notícia de que não poderá mais correr profissionalmente devido a problemas cardíacos. Enquanto isso, Miles é oposto e parece não alcançar o sucesso (apesar de vencer) por que se sabota constantemente em consequência de seu comportamento rebelde e avesso à autoridade.

A dinâmica entre os dois protagonistas funciona muito bem graças à química entre Matt Damon e Christian Bale e a forma como a narrativa constantemente ressalta suas diferenças sem transformá-los em inimigos. Dessa forma, por exemplo, durante um diálogo em uma lanchonete, enquanto Shelby se senta como se estivesse em uma reunião de negócios, Miles tende a se esparramar no assento em uma postura que insiste em passar uma imagem de um sujeito descolado e presunçoso. Em vários momentos, a montagem de Andrew Buckland e Michael McCuster também contrapõe suas características distintas ao mostrar cada um trabalhando penosamente em suas respectivas “áreas”, um pisando em ovos para lidar com estrutura hierárquica de uma empresa gigante como a Ford e outro literalmente sujando as mãos para transformar um simples modelo de automóvel em uma máquina de competição.

Aliás, as dificuldades desses esportistas em se encaixar em mundo de advogados, dirigentes e supervisores ganha tempo considerável no roteiro de Jez Butterworth, John-Henry Butterworth e Jason Keller. Enquanto uma batalha se aproxima nas pistas, outra se desenrola na disputa entre Henry Ford e Enzo Ferrari (Remo Girone) para ganhar os holofotes na Le Mans. Embora alguns aspectos desse núcleo tendam a se tornar um pouco caricatos – especialmente porque a trama é obrigada a vilanizar alguns personagens, como o braço direito de Ford, Leo Beebe (Josh Lucas), ou a forma como a equipe italiana é mostrada como um bando de incompetentes em momentos importantes do longa – ele é importante porque trata bem o tema da distância entre os bastidores de negócios e a paixão pelo esporte e o objetivo da vitória e da glória. É uma abordagem que também funciona, além de trazer um dos melhores momentos da projeção, quando o chefão da empresa “experimenta” pela primeira vez a adrenalina de estar em um carro em alta velocidade e fazendo manobras arriscadas: “Eu não sabia que era assim...”, diz o sujeito acostumado a gerenciar tudo da segurança de seus escritórios.

E falando justamente dos carros e das corridas, James Mangold também demostra habilidade na concepção visual de suas sequências de ação. Priorizando não apenas uma direção que deixa compreender a lógica do que está acontecendo através de planos que tem o tempo necessário de serem absorvidos pelo olhar, mas também colocando o público em ângulos impossíveis, o que permite que experimentemos tudo ora sob a subjetividade do piloto, ora tendo um vislumbre que seria impossível sem um CGI que funciona ao não apelar para o exagero. Junto a isso, o design de som poderoso termina por inserir o espectador na sensação de estar a bordo de um supercarro experimentando o ronco do motor e adrenalina do risco, sendo um aspecto primordial para construir a importância desse elemento na narrativa.

O que leva ao ponto que realmente faz com que Ford Vs Ferrari seja um bom filme. Não só visualmente, seja pela fotografia, som, direção de arte e efeitos especiais, o esporte é tratado, sobretudo, com respeito e reverência por aqueles que vivem suas vidas buscando não só dinheiro e reconhecimento, mas um estado quase transcendental que se aproxima de uma droga. O risco de morte, ainda mais naquela época, era enorme, e ainda assim a busca incessante pela superação jamais é equiparada à pura loucura ou irresponsabilidade, mas pelo intenso desejo de satisfação pessoal, mesmo que ele possa significar consequências trágicas tanto para os pilotos quanto para aqueles que o amam e fazem parte de sua vida.

Dessa forma, nunca enxergamos a necessidade de Ken Miles em vencer e se arriscar constantemente como uma característica egoísta. Sua relação com a mulher, Mollie (Caitriona Balfe), e o filho, Peter (Noah Jupe), é retratada de forma doce e verdadeira, o que também revela que sua família entende que as pretensões do personagem não são um obstáculo, mas um objetivo necessário. De maneira semelhante, Carroll Shelby apenas substitui o papel que tinha atrás do volante ao almejar o mesmo sucesso lutando para que o amigo seja aceito pelos empregadores apesar de sua personalidade – aliás, a amizade entre os dois é também um ponto forte, sendo ressaltada por alguns momentos inspirados, como aquele em que um confronto físico é marcado pelo fato de que um evita machucar o outro... enquanto tentam trocar socos desajeitados.

Já um dos pontos fracos reside no fato de que essa abordagem algumas vezes escorrega para a pieguice e alguns diálogos não soam muito inspirados. O que também pode incomodar é que a trama não faz muita questão de esconder a exaltação da equipe americana sobre a italiana, mas o resultado é que a paixão universal por esse esporte ganha um tributo intenso e emocionante não exatamente por uma empresa, mas pelos esportistas. A estrutura de Ford vs Ferrari não é particularmente ousada, a até pode-se dizer que é formulaica, mas ela atinge muito bem sua proposta de ser uma homenagem honesta à paixão pelo automobilismo. 

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