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Crítica: Parasita | 43ª Mostra

Inconscientemente alimentamos esse estigma de “baratas humanas” transitando pela cidade, forçando essa asquerosidade que Bong Joon-ho nos obriga a ver e compreender que há mais em desigualdade social do que esse mero título que costumamos repassar para criticar a realidade
Parasita

Uma obra que se propõe a criticar um fato universal é uma obra a se dar valor, e um diretor que opta por se posicionar sobre uma situação que vem crescendo cada vez como a miséria não podem ser ignorados, e a mensagem que é passada em Parasita além de apontar o dedo para a podridão humana e os problemas do cotidiano que escolhemos fechar os olhos ao invés de buscarmos melhorar o que está ao nosso redor e principalmente melhorar a nós mesmos.

Parasita, de acordo com umas das definições do dicionário, é “animal que vive à custa do outro, retirando dele tudo de que necessita para a sua própria subsistência”. O título parasita é propício para uma narrativa que nos oferece a perspectiva de como os mais pobres são vistos e como eles se sentem vistos, como se rastejando pelos cantos escuros das ruas e becos ou dentro de casa, se escondendo da vista da burguesia pela consciência do não pertencimento àquela sociedade pela qual transita e sobrevivendo do que conseguir encontrar.

Bong Joon-ho cria esse arco da família Kim, moradores da parte pobre da Coréia do Sul, em uma casa praticamente no subsolo (como se fosse um bueiro onde insetos se escondem) em uma área sem saneamento algum, que aproveitam a oportunidade, através de acidentes mais do que convenientes, de trabalharem para uma família extremamente rica e mudarem os seus contextos. O mais interessante é como a sinopse parece ser reveladora e clara sobre o que é o filme e ainda assim ser surpreendente em todos os aspectos, com o diretor nos conduzindo para uma história de altos e baixos que cruza sutilmente as fronteiras dos gêneros, indo do humor ácido para o suspense e para o drama sem demonstrar afobação em querer mostrar as diferentes formas de se ver a situação criada, mas nos conduzindo através de uma narrativa com uma ideia construída com cuidado e carinho, segurando em nossas mãos até o entretenimento puramente engraçados, com críticas ao vício da internet e a satirização da burguesia, até uma abordagem relevante e dura da desigualdade social que assola o mundo capitalista atualmente.

Todo o humor utilizado na maior parte do filme me faz questionar esse sarcasmo movimentando o enredo, mas no final de tudo, fico com a impressão de que estivemos rindo o tempo todo da desgraça alheia ao invés de realmente prestarmos atenção no contexto da família Kim, sendo uma reflexão que pode ser carregada para o cotidiano de nós mesmos que não buscamos enxergar a situação do outro se não for de nosso interesse material.

A ideia construída pelo roteiro de Bong Joon-ho e Han Jin-won carrega a crítica social da forma mais contundente, sendo apoiado pelo engajamento de seu elenco a passar essa metáfora de parasitas humanos com traços sutis de uma família simples, porém engenhosa, transmitindo essa inteligência que lhes é peculiar - e ainda serve para basicamente apontar o dedo na cara da burguesia que é representada por uma família extremamente ingênua com picos de burrice inacreditáveis e realmente engraçados -, atravessando a sutileza conforme a história progride e sua realidade começa a se tornar algo que nem mesmo o mais bem humorado dos miseráveis consegue rir de si próprio, superando toda a animosidade que a sociedade lhes determina a ser e alcança o ápice na conclusão da narrativa do emocional de qualquer ser humano neste planeta que se encontre no desalento e não saiba mais o que fazer ou como aguentar o descaso e sua inexistência. São baratas, metaforicamente. E em nosso dia a dia nós passamos por essas metáforas, cobrindo o nariz contra o mau cheiro para podermos aguentar sua existência em “nosso” mundo.

Uma obra que compara absurdamente baratas com a miséria cotidiana e como o ser humano lida com essas tais baratas. Escondidos nos becos, no subsolo, nos cantos escuros da casa, atrás e embaixo dos móveis, apanhando comida deixada à vista para suprir sua subsistência, a sujeira como algo natural e até mesmo a superação a dedetização, aspectos diversos que montam essa estrutura naturalista genial digna de todos os aplausos de todos os burgueses que estavam em Cannes e agem exatamente como a família Park em seus cotidianos, ou até pior. A ironia cruza oficialmente todas as fronteiras e adquire parâmetros a serem interpretados ainda, sendo este um dos filmes que ultrapassam qualquer visão humana e de sua existência, com questionamentos de pertencimento e medo em fazer parte dessa casta suprema que os colocam nesses papéis de figurantes praticamente invisíveis. O medo de se integrar, o medo da não aceitação social, pois os julgamentos às vezes são mais fortes do que a força de vontade de ser.

Inconscientemente alimentamos esse estigma de “baratas humanas” transitando pela cidade, forçando essa asquerosidade que Bong Joon-ho nos obriga a ver e compreender que há mais em desigualdade social do que esse mero título que costumamos repassar para criticar a realidade sem ao mesmo entendê-la e que sim, há famílias como a família Kim em todos os lugares, infelizmente, e Parasita nos obriga a ter esse autoquestionamento de: o que estamos fazendo para mudar isso e por que ignoramos o que não nos afeta?




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