Loucos por Filmes

Loucos por Filmes

Destaques

Últimas

Navegue aqui

Crítica: O Exterminador do Futuro - Destino Sombrio

A inevitável constatação é que o Julgamento Final aconteceu mesmo em 1991, e o que veio depois continua sendo só um suspiro da resistência.
O Exterminador do Futuro - Destino Sombrio

Após serem vendidos pelo seu criador e passar nas mãos de diversas companhias durante mais de 20 anos, os direitos de O Exterminador do Futuro finalmente retornam para James Cameron. Foi um longo caminho até aqui, já que tudo começou quando o cineasta, em 1984, concebeu e aperfeiçoou a ideia sobre um argumento que envolvia assassinos ciborgues e viagem no tempo, vendida (segundo mitos) por apenas 1 dólar para a produtora Gale Anne Hurd. O projeto, de baixo orçamento, acabou virando um sucesso. Juntamente com a carreira brilhante do diretor nos anos 80 e 90, a continuação é lembrada até hoje como um dos marcos na história do cinema de ação e ficção científica. 

Mas o imenso sucesso comercial não deixaria que a saga de John, Sarah e o Julgamento Final terminasse apenas com 2 longas, por mais que a mitologia e os arcos tenham sido maravilhosamente bem encerrados. As sequências jamais agradaram tanto o público e a crítica – o 5º exemplar, especialmente, foi recebido com frieza e deixou a franquia com um gosto mais que amargo. É por isso que O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio vem com a responsabilidade de rebootar a série a partir de sua obra-prima, O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (1991). Atendendo à suplica popular, Cameron decidiu ignorar os 3 últimos capítulos e retornar com uma história mais fresca, mas com alguns rostos maduros que necessitavam de uma melhor oportunidade para encarnar novamente personagens que se tornaram icônicos na cultura pop.

Após os eventos do segundo filme, a guerra entre humanos e máquinas, marcada para o ano de 1997, não acontece. Porém, em 2019, um novo e mais mortal exterminador, Rev-9 (Gabriel Luna), vem do futuro para perseguir a jovem Dani (Natalia Reyes), cuja única salvação é a proteção da meia humana/ciborgue Grace (Mackenzie Davis). Correndo contra o ímpeto mortal e incansável de seu inimigo, a dupla precisa se salvar para cumprir o destino misterioso que repousa nas mãos de Dani, contando, também, com a experiência de Sarah Connor (Linda Hamilton), que será obrigada a enfrentar os traumas que viveu na companhia do T-800 (Arnold Schwarzenegger).

Um dos grandes méritos da saga é a forma como o futuro poderia soar ameaçador levando em conta uma extrapolação da forma como a tecnologia está cada vez mais se embrenhando no cotidiano, substituindo os pequenos poderes de decisões humanas em algoritmos que trabalham por nossa conta, cada mais capazes de aprender sozinhos. A ideia inicial de James Cameron para o primeiro longa era fazer uma espécie de slasher (segundo ele mesmo), mas o que ele conseguiu foi criar uma representação assustadora de destino catastrófico causado pela inteligência artificial – o que, em 1984, foi elegantemente e ironicamente simbolizado quando uma máquina que pensa (T-800) era derrotado por uma que só obedece (uma prensa mecânica). Neste último, a ideia que temos de inteligência artificial é bem mais palpável, mesmo assim ele faz algo semelhante (com bem menos sutileza) ao colocar Dani e seu irmão, Diego (Diego Boneta) correndo o risco de perder um emprego em uma montadora ao serem substituídos por braços mecanizados.

De qualquer forma, os dois espectros dos antagonistas da humanidade ganham espaço no roteiro de Billy Ray (Projeto Gemini), Justin Rhodes e David S.Goyer (Batman Vs. Superman), tanto o futuro violento e aterrorizante quanto o presente ameaçado pelos exterminadores. O Rev-9 é praticamente indestrutível, consegue se metamorfosear com basicamente qualquer coisa que toque e é capaz de se transformar em uma arma letal ambulante repleta de lanças metálicas afiadas. A descrição de suas habilidades lembra bastante o igualmente icônico T-1000 e, embora Gabriel Luna faça um bom trabalho em caracterizar o vilão ao unir a expressão psicopata com os eventuais disfarces humanos, o personagem soa como uma versão genérica daquele vivido por Robert Patrick em 1991.

O que leva, infelizmente, à constatação de que Destino Sombrio não consegue escapar de ser apenas uma cópia, em sua estrutura e temas, do que já foi feito de forma impecável pelos dois primeiros longas. Não só por um aspecto, mas os paralelos são evidentes: O Rev-9 é o novo T-1000, a Skynet dá lugar à Legião, o papel de protetor exercido pelo T-800 agora é de Grace e a trama gira novamente em torno de uma fuga desesperada para proteger alguém cuja importância para o futuro não é muito difícil de se imaginar – culpa do roteiro não muito habilidoso em esconder suas pistas e do material de divulgação (se você viu os trailers, já levou alguns spoilers). A diferença é que a protagonista não tem nem um décimo do carisma que existia na Sarah de Hamilton e falta uma boa interação entre os personagens, algo também presente na relação que existia entre John Connor (Edward Furlong) e o T-800.

A sensação de que estamos vendo um filme vazio de “alma” também se reflete no retorno de Linda Hamilton – e acredite, eu ansiava pela volta de umas das heroínas mais incríveis do cinema, mas a presença da atriz parece bem mais protocolar do que o peso que ela realmente merecia. De início, é satisfatório rever o rosto inevitavelmente transformado pelo tempo, mas tão digno e forte quanto nunca; mas à medida que a trama avança, sua função vai se tornando mais um artifício de brincar com frases de efeito e preencher as expectativas dos fãs do que, de fato, um papel marcante. Já Arnold Schwarzenegger surpreendentemente ganha mais conteúdo para trabalhar seu arco em um novo contexto, mesmo que seja preciso um pouco de boa vontade para aceitar a decisão tomada pelos roteiristas de explicar sua presença na obra, apesar de ser uma ideia até interessante (na premissa).

Sendo uma pena também constatar que a jovem Natalia Reyes não tem muito com o que desenvolver as camadas de sua personagem, transformando Dani em alguém desinteressante e cujo perigo jamais se transfere de fato para qualquer sensação de empatia, o contrário acontece com Mackenzie Davis. A união entre as características humanas e artificiais é o que dá mais estofo para que a talentosa atriz faça com que Grace seja a real força da narrativa. Além de ganhar um desenvolvimento melhor em relação ao seu passado, ela transita bem entre a intensidade das cenas de ação e aos momentos onde demostra seus sinais de humanidade, tanto para o medo quanto para o humor (que só funciona pontualmente na narrativa).

Falando na ação, é justamente onde o diretor Tim Miller (Deadpool) se sai melhor. Se o longa decepciona na originalidade de suas ideias e de sua trama, se sai bem no quesito de gênero. Este é um dos mais intensos e dinâmicos da franquia, usando bem referências e diferentes localidades para investir em suas perseguições de carros, caminhões e até helicópteros e aviões. Aliado a um design de som poderoso e efetivo, as sequências de ação são muitas e a maioria delas funciona muito bem – com a exceção de quando se exige demais do CGI, fazendo com que Miller e seu diretor de fotografia, Ken Seng, não consigam contornar os cortes caóticos e desorientação espacial em cenas noturnas.

O que faz de Destino Sombrio um bom filme de ação e só. Claro, não há algum problema numa obra ser “apenas” o que se propõe a ser, mas é impossível não a colocar sob o peso de uma saga (ao menos no início) que soube tão bem aliar entretenimento e uma ótima história que sobreviveu ao teste do tempo no cinema, se expandindo, inclusive, para outras mídias. Para uma ideia que nasceu de um sonho de James Cameron (procure sobre isso...) e se transformou num marco pop, a nova geração tem direito de exigir um pouquinho mais do que um aceno para os fãs.

A inevitável constatação é que o Julgamento Final aconteceu mesmo em 1991, e o que veio depois continua sendo só um suspiro da resistência.  


Deixe sua opinião:)

Mostrar comentários 💬