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Crítica: Morto não Fala

Morto Não Fala não é um filme assustador demais, mas desenvolve uma atmosfera palpável de suspense e tensão.
Morto não Fala

Escrito por Cláudia Jouvin (Um Homem Só) e pelo diretor Dennison Ramalho (O ABC da Morte), Morto Não Fala é uma adaptação do conto de Marco de Castro de mesmo nome. Com a direção de Ramalho, fotografia de André Faccioli e direção de arte de Fábio Goldfarb, o horror nacional lida com a questão das consequências que vão além do plano em que vivemos. Ramalho vem de curtas metragens e o filme marca uma estreia forte como seu primeiro longa metragem norteado pela escola de cinema feita por James Wan. A capacidade de ver e falar com os mortos tem sido uma temática utilizada no horror mesmo antes de O Sexto Sentido popularizar esse mote que praticamente já forma um subgênero. Ramalho parece examinar esse dom de forma a subverter as expectativas e segue algumas direções genuínas, visto que a maioria dos filmes concentram-se no aspecto de maldição ou os “afortunados” com esse poder acabam usando-o para solucionar crimes, entregar uma mensagem ou para dar paz aos mortos inquietos. Entretanto, tais fórmulas são deixadas de lado e de maneira brutal e sangrenta Ramalho nos dá cadáveres mutilados, sepulturas abertas e outros horrores menos familiares. Explorando uma idéia antiga em um contexto moderno, Morto Não Fala leva tempo para chegar ao ponto, mas assume outras tradições e suposições, brinca com alguns tons diferentes e até gêneros, antes de se estabelecer em sua forma final.

O filme gira em torno de Stênio (Daniel de Oliveira), agente funerário que trabalha no turno da noite em uma violenta São Paulo, e cujo trabalho é acompanhado por sua infeliz vida em casa. As longas horas de trabalho no isolamento e o fluxo constante de corpos que entram no necrotério o faz parecer um cadáver. Ele parece estar morto, indo do necrotério para a padaria onde bebe sozinho e em seguida para sua casa onde sua família o despreza ou o ignora. No entanto, Stênio tem um segredo que mantém sua vida interessante: ele possui a capacidade de conversar com os cadáveres que ele é encarregado de costurar. Stênio fala com os mortos e os mortos falam de volta. Ele oferta palavras de bondade para os cadáveres confusos, atendendo alguns pedidos e negando outros. Enquanto os cadáveres parecem muito interessados ​​em conversar com ele, a vida em sua casa é difícil. Sua esposa Odete (Fabiula Nascimento) odeia ele e o cheiro que ele traz do necrotério para casa, e seus filhos, Ciça (Annalara Prates) e o rebelde Edson (Cauã Martins), não o vêem muito porque ele trabalha à noite e dorme durante o dia. Ciça parece a única interessada em seu bem-estar, mas, verdadeiramente, Stênio parece mais à vontade mesmo com os cadáveres em que trabalha. A situação muda quando o corpo de um amigo o revela que sua esposa o está traindo com o dono da padaria (Marco Ricca) e Stênio se submete à tentação e usa o poder que tem para se vingar dela. Logo se torna claro que os mortos não gostam de ser importunados e podem fazer mais do que falar. Entra em cena então a presença da doce Lara (Bianca Comparato), que parece disposta a ajudar Stênio a colocar sua vida em ordem.

A primeira metade do filme é a mais interessante. Mais do que uma premissa, o fato de Stenio poder falar com os mortos é um ponto de virada, um mero gatilho para uma história de vingança. Esse conceito cheio de potencial do personagem central, infelizmente, não é aproveitado ao máximo na narrativa. Em vez disso, o filme prefere caminhar e ficar em uma trama que envolve casais vingativos tanto na vida quanto no além. Ele leva algum tempo configurando os personagens e suas tensões antes de chegar ao verdadeiro ponto central da narrativa.

O longa obtém sucesso nas performances convincentes do elenco e em seu cenário inventivo e social em que São Paulo é apresentada como uma cidade repleta de níveis de violência. Deve-se dar crédito às performances de Daniel de Oliveira e Fabiula Nascimento, sempre performando bem em suas aparições no cinema e, especialmente, Bianca Comparato como a vizinha gentil, cujo rosto expressivo dá ao espectador alguém para torcer e um pilar moral no filme. Os dois atores mirins também cativam, e as performances no geral, embora não sejam magistrais, servem para transformar os protagonistas em pessoas com as quais vale a pena simpatizar. Embora com uma premissa fantástica e as atuações que ajudam a aumentar o contexto da trama, o filme sofre com a falta de personagens adequadamente desenvolvidos e textos não tão bem escritos. Principalmente com Lara, cujo enredo parecia adicionado para acrescentar outra camada na história. Tanto Fabiula quanto Bianca interpretam bem seus personagens, apesar dos arquétipos que representam e um desperdício em não tornar suas personagens um pouco mais complexas.

Filmado principalmente à noite, as ruas de classe baixa de São Paulo, a casa de Stênio, seu local de trabalho contaminado pela morte e o cemitério formam uma paisagem que é composta predominantemente por uma a densa escuridão exterior, com verdes cinzentos e marrons da cor de sangue seco. A direção da fotografia, apesar de convencional, tira bom proveito das sombras e cores urbanas, encenando algumas paisagens memoráveis ​​e horripilantes, bem como dos tons mais frios dentro do necrotério e alguns closes de cortes de corpos bem aflitivos. André Faccioli utiliza a iluminação a seu favor, iluminando cenas de uma maneira que chama a atenção para áreas específicas e, no geral, torna o filme bonito.

É preciso parabenizar os artistas de maquiagem e efeitos protéticos Britney Federline e Marcelo Amp, cujo trabalho com os efeitos práticos são bastante eficazes e tem uma verdade palpável que é crucial para a realidade da história. Mas se há uma falha que ocasionalmente nos tira do fluxo, são os efeitos digitais de qualidade questionável, principalmente os aplicados aos cadáveres falantes. Em vez de simplesmente colocar os atores, Ramalho optou por aplicar digitalmente seus rostos em corpos imóveis, o que infelizmente teve um resultado efetivamente ruim. Da mesma forma, provavelmente alguns perderão a paciência também com a música muito pesada e um pouco exagerada, com ruídos estridentes, telegrafando sustos ou sequências tensas. Embora na maioria das vezes o filme tenha boa intensidade, o ritmo se torna lento em determinados pontos, o que nos leva a estranhas pausas na tensão e faz a história parecer mais longa do que realmente é.

Morto Não Fala não é um filme assustador demais, mas desenvolve uma atmosfera palpável de suspense e tensão. Os elementos mais fantásticos são apresentados com competência e as cenas de tensão mantêm o espectador à beira do assento. Mas se Ramalho realmente queria um filme de possessões e visões aterrorizantes, ele precisava manter sua idéia central na direção de alguma coisa mais ambiciosa. Apesar de começar bastante bem e ter uma premissa com muito potencial, ele acaba sendo um filme de suspense fantástico (ou horror) que fica no meio do caminho. Considerando que foi vendido como um filme do gênero, esperava-se ter sido mais assustador, menos dependente de uma trilha sonora estridente e exagerada e nos dar um produto final muito mais original e aterrorizante. Ainda assim, o filme é uma conquista no cinema brasileiro e é uma estréia importante e ressonante.



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