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Crítica: Coringa

Analisando muito superficialmente, a comédia nasce da quebra da nossa expectativa e não há nada mais assustador do que um homem cujas ações são terrivelmente imprevisíveis – daria um excelente vilão do Batman mesmo, pena que ele não está lá.
Coringa

Precisamos ser diretos e escolher de que lado do muro queremos olhar para Coringa (“Joker” no original, 2019) e analisá-lo. O personagem existe dentro das histórias do Batman desde 1940 e para pensar sobre o novo filme – e todo o barulho que ele vem fazendo – do diretor Todd Phillips (responsável pela trilogia “Se Beber, Não Case”, e você não leu isso errado, pois é!), a primeira coisa que devemos fazer é ativar nossa memória seletiva. Não vou perder tempo aqui explicando quem é o Coringa primeiramente porque é provável que você já o tenha visto de alguma forma em algum lugar, mas principalmente porque nada que envolva o universo do Batman e tudo que sabemos sobre ele importa neste filme. A cidade é chamada de Gotham, mas é claramente a Nova York de meados dos anos 1970 e 1980; a família do milionário Bruce Wayne está lá, mas poderia ser qualquer outra família de aristocratas genéricos; e, finalmente, o Coringa está lá, mas não o vilão arqui-inimigo do Cavaleiro das Trevas, que caiu num tanque de produtos químicos ou rasgou a boca em nome do sorriso. Não, esse não. Quem está lá - e nós somos capturados sem chance de escapar para dentro dela - é a saga trágica e fascinante do Arthur Fleck (interpretado por Joaquin Phoenix numa performance nada menos do que magnífica).

Tenho a legítima impressão de que o filme só alega ser do Universo da DC Comics (com os elementos que mencionei acima vindos dos quadrinhos) porque Todd Phillips queria contar uma história magistral sobre um personagem psicologicamente atormentado que se tornava um homicida e se fantasiava de palhaço, mas chamar de “O Palhaço assassino” não ia ter tanta graça e o nome “coringa” já tinha dono – o jeito foi adaptar seu roteiro brilhante ao proprietário do nome que que ele queria usar. Mas se você leu até aqui achando que eu estou reclamando do filme, permita-me expressar melhor. Estou apenas querendo que você entenda que não verá um filme de quadrinhos e o nome do vilão famoso é – quase – uma mera coincidência. Acho que já cumpri esse papel e também já te contei o enredo que não vale a pena ser mais desenvolvido do que isso sem sacrificar a sublime experiência que é assistir a este filme.

Coringa é um filme como não vemos há algum tempo. É o tipo de obra que vai marcar as carreiras de quem a fez e as vidas de quem a assistiu. A direção se inspira descaradamente no estilo do diretor Martin Scorsese em filmes como Taxi Driver (1976) e O Rei da Comédia (1983), trazendo de lá todas as boas referências – trilha, ângulos de câmera, lentes, fotografia, iluminação e até o próprio Robert De Niro, que tem 15 minutos de filme que já são melhores que tudo que ele fez nos últimos 10 anos – e consegue nos dar um longa absolutamente original e, mesmo assim, com cara de clássico renomado, daqueles de peso mesmo.

A trama do filme é trágica. Seus temas são duros e trata de questões como abusos físicos e psicológicos, doenças psiquiátricas, assassinatos, humilhação, depressão, frustração e coisas assim. A interpretação de Phoenix é de uma ferocidade muito crível em tela. Ele está muito magro, malcuidado e frágil – da postura ao tom de voz. A película abusa de closes muito fechados e quadros incômodos e desconfortáveis para o público e faz isso de propósito. Desta forma, somos capazes de perceber cada detalhe de atuação, dos gestos e micro expressões da entrega absoluta do protagonista ao papel. Todavia, ao mesmo tempo, somos levados a ter por ele, durante todo o filme, um misto de pena e nojo que serve ao propósito da trama ao nos conduzir para o momento em que a fragilidade dele dará lugar à insanidade. Quando chega o momento certo, diretor precisa que a audiência entenda completamente as motivações e traumas de Arthur Fleck, mas também precisa ela genuinamente o odeie.

É por razões como esta que Coringa já nasce com privilégio que os grandes filmes têm: ele manipula nossas emoções exatamente como foi pensado para manipular. Começamos sentindo pena, depois uma certa simpatia, depois alguma desconfiança, depois nojo e depois o mais legítimo medo. Nossas emoções sobre o protagonista evoluem junto com as dele sobre si próprio, exceto que no momento em que estamos aterrorizados com o que ele se tornou, é quando ele está em seu auge, cheio, capaz, seguro e completo em sua metamorfose. “Eu sempre achei que minha vida era uma tragédia, mas aí eu percebi que era uma comédia”, diz o personagem já nos trailers. Bom, analisando muito superficialmente, a comédia nasce da quebra da nossa expectativa e não há nada mais assustador do que um homem cujas ações são terrivelmente imprevisíveis – daria um excelente vilão do Batman mesmo, pena que ele não está lá.


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