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Crítica: Predadores Assassinos

Predadores Assassinos faz até muito com o pouco que tem: alça uma personagem comum a uma heroína vulnerável, escolhe sua característica definidora na trama (no caso, ser nadadora) e a usa como arma.
Predadores Assassinos

Sempre que algo recebe o adjetivo de “despretensioso”, é comum que o questionamento básico surja: o que é a pretensão em um filme? Como uma forma de transformar qualquer história, por mais banal que seja, em arte, o cinema sempre pretende algo. Desde a obra mais profunda e filosófica até o blockbuster mais pirotécnico, seu objetivo é contar uma história – mais precisamente, uma narrativa, isto é, mais importante a forma como se conta do que o conteúdo de fato. Tanto é assim que seria impossível julgar um longa como Predadores Assassinos (Crawl, 2019) sob uma ótica que almejasse mais do que um bom passatempo, ou que buscasse uma mensagem poderosa nas entrelinhas de uma trama sobre pai e filha tentando escapar de predadores no meio de uma tempestade.

Pois é basicamente essa sua história: Hailey (Kaya Scodelario) vive em uma Flórida prestes a ser atingida por um furacão. Preocupada com o pai, Dave (Barry Pepper), ela decide ir para a casa onde cresceu para tentar encontrá-lo depois de não conseguir contato. Indo contra as recomendações das autoridades, ela o encontra ferido e sozinho no porão após praticamente toda cidade já ter sido evacuada. Só que, à medida que água inunda o local, eles se veem presos com crocodilos famintos vindos das inundações, correndo contra o tempo para se salvarem da tempestade e dos predadores.

A premissa e os materiais de divulgação podem levar a crer que estamos diante de um claro exercício de filme B, bem na linha de algo como Sharknado (talvez não tão galhofa), o que não seria surpresa dado à natureza que esse tipo de história costuma ganhar, geralmente envolvendo situações absurdas e versões praticamente sobrenaturais de animais reais. Portanto, é surpreendente que o longa tenha se arriscado a se levar consideravelmente mais a sério do que esperávamos, o que poderia significar sua ruína. A boa notícia é que a narrativa construída pelo cineasta Alexandre Aja (Alta Tensão, Viagem Maldita, Piranha 3D) consegue colocar mais o pé no chão (em comparação com outros exemplares do gênero) e aproximar o espectador da tensão vivida pelos personagens.

Antes de cravar o sucesso da empreitada, é preciso dizer que o roteiro escrito por Michael e Shawn Rasmussen não sai do básico. Aliás, basta ter um pouco de bagagem ou conhecer um pouco da lógica de construção da trama para notar as diversas “pistas” plantadas no 1º ato e que serão retomadas posteriormente. Faço questão de colocar entre aspas porque, geralmente, o termo pressupõe sutileza, que é algo não muito trabalhado pelos óbvios conflitos em relação a Hailey e o pai. Para evitar os spoilers, basta notar como as exposições irão ditar alguns caminhos recompensados de forma evidente durante a projeção. Ao menos, isso não passa a ser um problema tão grande assim e sua função de estabelecer uma identificação mínima com o público é meio oscilante, mas eficiente.

O que importa mesmo que Aja e sua equipe conseguem criar um clima de tensão que funciona na maior parte do tempo. Em primeiro lugar, as criaturas concebidas digitalmente são de uma qualidade surpreendente para um filme de baixo orçamento para os padrões americanos (U$ 13,5 milhões). Além de parecem reais, elas foram resultado de um cuidado em relação à natureza de seus movimentos e a correspondência com os animais reais – ao menos em uma análise mais superficial e narrativa, isto é, acreditamos nelas porque elas correspondem ao que conhecemos na vida real, o que aproxima nossa relação com a trama.

Em segundo lugar, nada disso adiantaria se o diretor e seu fotógrafo Maxime Alexandre não soubessem inseri-las na trama de forma eficiente. Ao invés de sobrecarregar o público com as ameaças, a dupla mostra uma certa parcimônia na hora de apresentar os vilões. Mérito do jogo acertado entre as sombras, os espaços apertados e algumas ótimas composições inspiradas – como aquela em que um relâmpago seguido de um trovão revela a bocarra gigante de um crocodilo que se aproxima da protagonista no canto do quadro. Mesmo que a trilha sonora acabe exagerando demais nos jumpscares, isso é atenuado pelo fato de que há uma tensão por trás os justificam.

Outra característica importante é que o espectador consegue temer um pouco pelo destino da dupla. Claro, isso não é muito fruto de um trabalho de desenvolvimento de personagens. Sempre que a narrativa se interrompe para resgatar a relação entre pai e filha a coisa começa a desandar, especialmente pela falta de tato em escrever melhores diálogos e pela trilha piegas quebrando a tensão. Mas a sensação de angústia vem mais pela vulnerabilidade diante dos crocodilos e forma violenta como suas vítimas são caçadas. Uma violência, aliás, que choca por estar associada e essa abordagem relativamente mais “real”, animalesca e implacável como é a natureza diante da pequenez do ser humano.

Desse modo, Predadores Assassinos faz até muito com o pouco que tem: alça uma personagem comum a uma heroína vulnerável, escolhe sua característica definidora na trama (no caso, ser nadadora) e a usa como arma. De quebra, ainda consegue produzir bons momentos de tensão em uma estrutura dinâmica e sem precisar se alongar (são apenas 87 minutos). Talvez esse seja um ótimo exemplo do que é ser exatamente despretensioso.



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