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Crítica: Longe da Árvore

Longe da Árvore propõe uma reflexão sobre identidade, família, sociedade e aceitação da diversidade. O documentário, por fim, configura-se como um estudo antropológico das diferenças físicas, mentais e sociais, mas, ao mesmo tempo, um exercício de humanidade e empatia.
Longe da Árvore

Ser diferente é normal. Ou, pelo menos, deveria ser. Ninguém é igual, uma vez que somos todos dotados de particularidades que compõem nossa individualidade. Entretanto, vivemos em um mundo regido por padrões que, uma vez impostos aos indivíduos, desrespeitam a diversidade, promovem e fomentam o preconceito e até mesmo a intolerância. Longe da Árvore se revela como um olhar sensível e reflexivo sobre identidades diversas.

Baseado no livro best-seller homônimo (escrito por Andrew Solomon), o longa dirigido por Rachel Dretzin é um documentário que exibe um pouco da história e da luta de algumas pessoas marcadas pela excepcionalidade. Porém não conhecemos apenas as pessoas cuja diversidade é apresentada, mas suas famílias, bem como as configurações familiares e sociais que permeiam esses núcleos. Adentramos os lares e nos deparamos com as relações públicas e privadas, com suas adversidades, com suas conquistas, com suas singularidades e (des)conformidades, todos os traços que os tornam humanos, como todos somos. Isso é justamente o que desmistifica o afastamento provocado pelo preconceito e pela imposição de padrões. Uma vez vistas na singeleza de sua humanidade, essas figuras revelam-se gente, e não anormais.

O percurso do filme é iniciado e norteado pela história do autor do livro no qual se inspira. Andrew Solomon conta duas marcas de sua identidade que o estigmatizaram como desconforme aos olhos da família e da sociedade, bem como as diferentes formas de sua família lidar com essas marcas: a dislexia, diagnosticada na infância, e a homossexualidade, que aflorou durante a sua adolescência. Enquanto a dislexia foi encarada pelos seus pais com esforço, dedicação e carinho, ajudando-o a vencer a deficiência, sua identidade sexual foi alvo de intolerância. Os tratamentos destoantes recebidos dos pais quanto a cada um dos elementos de caráter não padrão da sua personalidade fomentaram o desejo de Solomon investigar “identidades horizontais (ou seja, divergentes dos padrões familiares, linguísticos e sociais predeterminados), o que resultou no livro.

O rol dessas “identidades horizontais” do filme traz histórias repletas de luta, amor, carinho, superação, mas também de dor, preconceito, estigmatização. Porém, acima de tudo, são vidas em busca contínua por espaço, respeito, aceitação e igualdade. Além de a Andrew, somos apresentados a Jason Kingsley, um homem com síndrome de Down apaixonado pela Elsa da animação Frozen e que mora com dois amigos, ambos também portadores da doença; Jack Allnutt, um rapaz autista, que não consegue falar, mas supera essa dificuldade com o amor e a dedicação dos pais; Loini Vivao, uma jovem com nanismo que conhece outras pessoas como ela ao frequentar um evento destinado a pessoas com a mesma particularidade; Leah Smith e Joe Stramondo, um casal formado por duas pessoas portadoras de nanismo que desejam ter um filho biológico; e a família de Trevor Reese, um jovem que, aos 16 anos, assassinou um menino de 8 anos e foi condenado à prisão perpétua. Trevor é o único que o documentário não mostra (exceto fotos e sua voz por meio de ligações para a família), uma vez que se encontra preso. Com todos, conhecemos os dilemas, os estigmas e as dificuldades que essas pessoas e suas famílias enfrentam devido às suas condições.

O filme põe em questão o fato de que tais diferenças não são fruto ou responsabilidade dos pais, que podem, muitas vezes, se culpar ou serem tomados por outrem como culpados. Em casos de deficiências congênitas, os genitores (especialmente as mães) podem se martirizar, julgando como fator determinante da deficiência algo que fizeram ou deixaram de fazer durante o período de gestação. Já quando o estigma é associado ao comportamento e até mesmo, de forma errônea, a uma escolha, como a sexualidade desviante do padrão heterossexual ou a prática de ações criminosas, tanto os próprios pais se culpam quanto são tidos pelos outros como os (ir)responsáveis. O julgamento que os indivíduos sofrem acaba sendo aplicado também aos pais, que passam a ser considerados como não exemplares, colocando-se em dúvida a educação que esses filhos receberam (ou não). A não conformação aos padrões, nesses casos, é encarada como resultado de uma educação falha. Todavia o documentário nos leva a perceber que esses traços identitários não devem ser considerados como frutos de falhas, mas vistos como aquilo que são: características que compõem a identidade singular desses indivíduos.

Além disso, questionam-se a patologização da anormalidade ("anormalidade" tida como aquilo que não é normal, ou seja, que foge à norma, aos padrões) e o consequente ímpeto de normalização (de adequar tudo e todos a regras) que toma conta do ser humano. O simples fato de algo não fazer parte de um padrão requer intervenção e adequação? Isso o torna uma doença que precisa ser curada? É o que indaga Andrew Solomon: "Como decidir o que devemos curar e o que devemos celebrar?", citando determinadas condições que, há tempos atrás, eram consideradas patologias que necessitavam de cura, mas, felizmente, hoje são enxergadas com mais naturalidade e até mesmo assumidas com orgulho por determinados grupos de pessoas.

Longe da Árvore propõe uma reflexão sobre identidade, família, sociedade e aceitação da diversidade. O documentário, por fim, configura-se como um estudo antropológico das diferenças físicas, mentais e sociais, mas, ao mesmo tempo, um exercício de humanidade e empatia.



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