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Crítica #2: Meu Amigo Enzo

Apesar da singela homenagem ao piloto brasileiro Ayrton Senna e toda a referência de Swift ser um bom condutor na chuva, pouco disso é mostrado ao longo da obra.
Meu Amigo Enzo

No início da década de 1990 os famosos filmes da sessão da tarde eram recheados de pérolas envolvendo animais, longas como Lassie, Beethoven entre outros, o gênero em si trazia também macacos como Kate, papagaios como Paulie e diversos outros pets para as telas, explorando a parceria entre o dono e seu animal.

Com o passar dos anos as aventuras envolvendo animais domésticos começaram a receber contornos dramáticos e passaram a arrancar lágrimas do público a exemplo de Marley e Eu e As Quatro Vidas de um Cachorro. Meu amigo Enzo é um desses longas que visa explorar a relação dos humanos e seus pets, e tenta se diferenciar pela maneira como a condução e percepção do cachorro é mostrada.

É engraçado ver como o cinema é capaz de nos gerar momentos de reflexão e questionamentos genuínos sobre nossas atuais situações de vida. Nunca fui um assíduo fã de cinema com pets e todo o melodrama que o gênero recebeu ao passar dos anos, mas a maneira como Meu Amigo Enzo me fez refletir sobre algumas questões me surpreenderam.

O filme não toma cuidado de esconder do público qual será o destino de Enzo, pois nos minutos iniciais os pensamentos do cachorro ganham vida na voz de Kevin Costner e nos é revelada a situação do Golden Retriever, porém já apresenta um exercício de reflexão sobre a vida e a existência, um exercício que se faz presente também ao fim da obra, aquele tipo de reflexão que não termina os créditos finais e que dura um pouco mais do que deveria.

Baseado no livro A Arte de Correr na Chuva – Título mais apropriado para a obra - o enredo do longa traz as memórias de um Golden Retriever já idoso lembrando de sua jornada ao lado do dono e amigo Denny Swift (Milo Ventimiglia), um piloto que sonha um dia chegar à Fórmula 1. Como já era de se esperar a história usa e abusa da relação entre o cachorro e seu dono, desde o primeiro encontro, até os dias mais felizes ou solitários na vida dos outros.

Como método de expôr os pensamento de Enzo e conduzir a história o roteiro utiliza-se do Voice Over (Narração), recurso quando bem utilizado é capaz de dar intensidade e brincar com as expectativas do público, aqui, o recurso adotado deixa a obra muito mais próxima do livro em que fora baseado, mas deixa o ritmo da obra muito cadenciada, a transição do primeiro para o segundo ato é lenta o suficiente para gerar a impressão de serem dois blocos gigantes de cenas conectadas, mas que demoram a passar. A dificuldade da narração conduzir a obra está no fato de Enzo ter sempre um tom mais brando e passivo sobre os eventos que presencia. Talvez se melhor dosado, não fosse tão redundante.

O segundo ato da película traz a história a personagem de Amanda Seyfried, a atriz supera o aspecto genérico de seu papel e constrói aos poucos uma Eve que se apaixona por Enzo e o coloca dentro de uma família, com carinho, compreensão e amor. A maneira gentil e compreensível como Eve trata o cachorro faz a diferença para história e a atriz consegue suprir o peso que a personagem carrega.

Milo Ventimiglia vem mostrando uma evolução satisfatória em sua carreira, se a quase quinze anos ele era o filho chato de Rocky (Rocky Balboa), hoje o ator consegue fazer mais, mesmo diante de algumas limitações. O ator mostra bem ao público a maneira como se sente empolgado ao dirigir um veículo de corrida e até mesmo o arrependimento de ter brigado com seu melhor amigo, deixa a desejar em alguns momentos em que a carga emocional deveria ser maior, mas isso não tira dele os méritos de uma boa interpretação.

Kevin Costner dá voz ao cachorro Enzo, e utiliza-se de um tom mais ponderado e contemplativo ao construir o personagem. Triste ou empolgado, Enzo tem sempre o mesmo tom de voz e não se exalta, é o cachorro perfeito em tela e sua voz demonstra sabedoria. Por se tratar de uma narração, é até compreensível a ausência de nuances na interpretação de Costner, entretanto, toda a paz de espírito com que Enzo relata os eventos de sua vida ficam devendo em momentos de empolgação, como nos minutos finais do filme.

Não bastasse apenas o ritmo lento em que a obra é conduzida, alguns aspectos técnicos também precisavam de um pouco mais de cuidado, Denny Swift não parece envelhecer junto de seu animal de estimação, outras coisas como a situação financeira do protagonista são citadas no texto, porém quase nunca é sentida na pele do personagem. A direção de Simon Curtis mostra alguns planos mais interessantes do ponto de vista de Enzo, entretanto não consegue fugir muito do drama padrão entre filmes desse gênero. Apesar da singela homenagem ao piloto brasileiro Ayrton Senna e toda a referência de Swift ser um bom condutor na chuva, pouco disso é mostrado ao longo da obra.


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