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Crítica #2: Turma da Mônica - Laços

Turma da Mônica: Laços é uma aventura empolgante, de fácil assimilação e bastante alma, cujo respeito pela criação magna de Maurício de Sousa já seria suficiente para enquadrá-la como exitosa.
Turma da Mônica - Laços

Entre o fim da década de 1950 e o início dos anos 1970, o cartunista Maurício de Sousa não fazia ideia do tesouro que tinha em mãos: empregado há pouco tempo pela então Folha da Manhã (que viria a se tornar Folha de São Paulo), foi lá onde ele concebeu e publicou suas primeiras tirinhas, que estrelavam o cãozinho azul Bidu e o aspirante a cientista, Franjinha, seu dono. Inspirando-se nas histórias e crianças com as quais conviveu durante a infância, além dos pequenos que integravam seu círculo familiar, entre sobrinhos e filhos, criou personagens como Mônica, Cebolinha, Magali, Cascão, Chico Bento, Horácio, Astronauta, Anjinho, entre outros. O resultado foi um sucesso imediato, expandindo-se para concepções gráficas variadas (do gibi ao mangá, deste à graphic novel), criando um verdadeiro império licenciado e cravando um espaço impressionante na cultura popular brasileira.

Turma da Mônica: Laços (Idem, 2019), adaptação em live-action da obra homônima derivada escrita pelos irmãos Vitor e Lu Cafalggi e dirigida por Daniel Rezende (do excepcional Bingo – O Rei das Manhãs), consegue honrar esse legado indelével das criações de Maurício de Sousa e suscita um apropriado senso de nostalgia no espectador (mesmo quem já está na casa dos vinte anos sentirá o peso do tempo). Neste intuito mais sentimental, apesar das pretensões modestas da trama (a turma do título precisa recuperar Floquinho, que foi sequestrado por um homem misterioso), é um longa-metragem que causa significativo assombro – um adjetivo e uma virtude, que, confesso, jamais cogitei em relacionar a uma produção audiovisual brasileira voltada para crianças.

Trata-se de um projeto altamente virtuosístico. O design de produção comandado por Cássio Amarante e Mariana Falvo cria um mundo colorido e lúdico, no qual a vizinhança é formada por residências coloridas e divididas por cercadinhos que mal batem nos joelhos de uma pessoa adulta. Amarante e Falvo também mostram preocupação com a paleta de cores do filme, inserindo-a e dispondo-a nos cenários de maneira que nos façam lembrar constantemente do quarto principal. Sendo assim, não é raro que vejamos elementos cênicos acessórios pintados de vermelho, verde, amarelo ou azul, chamando a atenção, particularmente, um momento passageiro em que os pais de Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão, prestes a adentrar o parque no qual os pequenos estão, encontram-se rodeados por uma ambientação coberta destas cores-símbolo. Este trabalho é complementado pelos excelentes figurinos, que, essencialmente monotônicos e retilíneos, prontamente se destacam nos cenários e locações (neste sentido, o trabalho de caracterização é igualmente espantoso), recortando-se do fundo de cada quadro.

A intenção de Rezende, portanto, é de engendrar um universo atemporal, no qual ônibus prateados andam lentamente, vendedores de balões ficam nos centros das praças, bancas de jornal estão cheias de mercadoria e celebrações entre os vizinhos ainda são bastante comuns – e é particularmente tocante como a cinematografia de Azul Serra é eficaz ao captar esta realidade em tons pastéis e em contraluzes que realçam as propriedades serenas e acolhedoras do bairro Limoeiro e seus arredores (não à toa, o roteiro de Thiago Dottori insere expressões contemporâneas como “só que não” na boca dos personagens, escancarando a indefinição histórica). É com devoção semelhante que Rezende e Serra respeitam e enaltecem a iconografia dos personagens, misturando contra-plongée com planos de conjunto, focando-se, também, em minúcias características de cada protagonista (o plano-detalhe de Mônica, irada, agarrando Sansão destaca-se por personalizar visualmente a mitologia da personagem).

Esta singeleza no tratamento também é vista em um momento dramático específico, no qual o diretor e seus montadores contemplam as reações de cada componente do grupo central, que, ainda que se reiterem no sentido, ilustram não só a competência do elenco mirim como cooperam para o pleno funcionamento do beat narrativo explorado na cena. Neste instante, Rezende proporciona um respiro incomum a uma empreitada direcionada a um público tão jovem, possibilitando a esta audiência uma breve reflexão sobre as consequências das brincadeiras contumazes nesta idade, cujos efeitos na autoestima podem ser copiosamente deletérios.

Se é impecável em termos técnicos e inventivo na elaboração da diegese e do leitmotiv, o realizador obtém resultados progressivamente melhores na escalação de atores. Giulia Benite faz uma Mônica determinada, convicta e altiva, mas cuja imposição é levemente mais controlada (portanto, menos virulenta) do que nos gibis; Kevin Vechiatto foge do óbvio e compõe um Cebolinha mais realista, sem histrionismos ou exageros na troca do “r” pelo “l”; por mais que a ideia de uma Magali magra soe inicialmente inconvincente e incompatível para com a imagem gerada no imaginário popular, Laura Rauseo ajuda a quebrar esta preconcepção, construindo uma garota levemente constrangida por seu apetite insaciável e que demonstra receio em causar problemas aos amigos; por fim, Gabriel Moreira propõe uma leitura diferente de Cascão, consagrando-se como o melhor ator cômico do quarteto, hábil seja no humor físico quanto no textual. Mesmo que apareçam em menor escala, Fafá Rennó (Dona Cebola), Mônica Iozzi (Dona Luísa) e Paulo Vilhena (Seu Cebola) espantam pela proximidade com os originais dos quadrinhos (ponto, novamente, para a equipe de caracterização).

Pontuada pela trilha sonora fabulosa de Fábio Goés – que, apesar de onipresente, é calcada em melodias ritmadas e galvanizantes, com tom similar ao trabalho do francês Alexandre Desplat em Ilha dos Cachorros (2018) – e também pela participação especial de um Rodrigo Santoro maníaco, Turma da Mônica: Laços é uma aventura empolgante, de fácil assimilação e bastante alma, cujo respeito pela criação magna de Maurício de Sousa já seria suficiente para enquadrá-la como exitosa. No entanto, o que se tem aqui, a parte de um entretenimento saudosista benfeito, é Cinema feito por e para gente grande.




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