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Crítica #2: Primeiro Ano

Sua simpática história consegue encontrar ecos em muitos jovens que todos nós conhecemos, colecionadores incansáveis de tentativas de ingresso num bom curso de medicina e que acabam sacrificando muito de si no processo.
Primeiro Ano

O cinema francês, ainda que tradicional, não é muito consumido pela maior parte dos brasileiros. A França, enquanto celeiro cultural da sétima arte, possui uma importância enorme para toda indústria – é o berço do transformador movimento sessentista conhecido como nouvelle vogue e a pátria do famoso Festival de Cannes, por exemplo – mas mesmo assim conhecemos não mais do que alguns fenômenos isolados vindos de lá – como o cult O Fabuloso Destino de Amelie Poulain (de 2002) ou nomes como Jean Reno (de O Profissional, 1994) e Marion Cotillard (de Piaf, 2007). Apesar deste modesto descaso do mercado brasileiro, o mercado francês é repleto de bons exemplares de um cinema sensível e bem humorado, dotado de uma leveza bem característica e que merecia mais atenção da gente por aqui. Sem rostos conhecidos, o novíssimo Primeiro Ano (“Première année” no original, 2018) é um destes títulos que sabe tratar, com suavidade, uma ou duas discussões que vão muito além do superficial.

O filme acompanha dois jovens que se conhecem em seu primeiro ano na faculdade de medicina: Antoine (Vincent Lacoste) e Benjamin (William Lebghil). Enquanto Antoine está tentando pela terceira vez a vaga no curso sonhado, Benjamin é o calouro vindo direto do ensino médio. Juntos os dois rapazes decidem se ajudar para que ambos alcancem a meta ao final daquele ano de estudos, o que cria um cenário propício para o desenvolvimento de uma grande amizade e para um estudo competente do competitivo ambiente universitário francês.

Primeiro Ano é conduzido pelo diretor Thomas Lilt com uma pegada muito real. Sua fotografia é muito clara, e nosso olhar segue o dos jovens universitários. Antoine e Benjamin possuem questões com seus pais; o sistema da universidade é competitivo e impiedoso; entre os dois jovens há uma clara diferença social; o repetente Antoine afoga sua frustração numa obsessão nada sadia e o jovem Benjamin sofre pela insegurança e incerteza de não saber muito para onde está indo. Todos estes são cenários onde caberia uma exploração dramática e pesada da situação, dando ao filme uma carga mais pesada e reflexiva, mas não é o que vemos em tela. Thomas Lilt mostra tudo isso com sutilezas, sempre em meio a centenas de outros jovens cantando, rindo, estudando e empolgados em conseguir o mesmo objetivo dos dois protagonistas. Ao fazer isso, o diretor nos mostra que eles dois são apenas mais alguns em meio a outros milhares que vão tentar, falhar e conseguir todos os anos e que o sistema não é cruel ou clemente, mas sim absolutamente indiferente – o que em si pode ser visto como a maior das crueldades.

Bem atuado, porém sem grandes performances, o filme explora a medicina enquanto carreira e questiona os diferentes pesos que são dados à competência técnica e à paixão pelo ofício do exercer médico. Médica deve ser tratada como uma profissão técnica como fazemos com as engenharias ou como uma vocação sublime? Nada disso é respondido durante a sessão, mas os diálogos e comportamentos dos personagens nos levam a pensar sobre esses pontos – sobretudo em seu inquietante desfecho – e faz isso sem forçar a barra. Fica claro, ainda, que o diretor possui uma relação muito próxima com aquele ambiente competitivo e com a carreira em si pela forma como trata sua história. Thomas Lilt, não por acaso, é médico e este é seu terceiro longa seguido a abordar o cotidiano de médicos em diferentes estágios da profissão. Esta experiência resulta em um certo zelo e atenção aos detalhes que confere legitimidade e agrada muito num filme como este.

Infelizmente Primeiro Ano ficará restrito a salas voltadas para um público mais alternativo nos cinemas brasileiros, o que dificulta o acesso de uma audiência mais abrangente. Mesmo assim, se mostra um bom olhar sobre uma etapa da vida muito discutida, mas num campo muito particular. Sua simpática história consegue encontrar ecos em muitos jovens que todos nós conhecemos, colecionadores incansáveis de tentativas de ingresso num bom curso de medicina e que acabam sacrificando muito de si no processo.

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