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Crítica: Albatroz

A grande ideia que Albatroz esconde por sua superfície de cortes bruscos, enquadramentos desestabilizados, fusões de personagens e predomínio de cores fortes é de que a audiência, assim como as pessoas que acompanhamos ao longo desta empreitada, está tão absorta naquela história que se tornou incapaz de enxergar o que havia de mais elementar nela.
Albatroz

Albatroz (Idem, 2019) é o tipo de filme que significa apenas para ressignificar, elucida para, em seguida, confundir e assume identidades unicamente para dispensá-las. É, enfim, uma obra que desestrutura e causa desconforto e incerteza, cujas perguntas que suscita são muito mais importantes para a experiência narrativa que as respostas obtidas. Neste sentido, apesar do elenco notoriamente estelar e da grande distribuição feita pela Downtown, Globo Filmes e Paris Filmes, este filme do diretor Daniel Augusto (do esquecível Não Pare na Pista: A Melhor História de Paulo Coelho) certamente não atingirá um grande público. Pode até não alcançar a popularidade que um filme com esse elenco e esse alcance almeja, mas a experiência merece ser conferida.

O roteiro de Bráulio Mantovani (de Cidade de Deus e Tropa de Elite), Fernando Garrido e Stephanie Degreas propõe ao espectador uma desorientação suspeita já em sua abertura in media res (ou seja, quando a história já se iniciou), fazendo com que o protagonista Simão Alcóbar (Alexandre Nero) questione sua realidade e necessite procurar respostas para solucionar as lacunas das explicações que recebe. Momentos depois, porém, somos apresentados a uma premissa que, aparentemente, fundamentará a trama que acompanharemos ao longo dos 90 minutos subsequentes. Mesmo o narrador é invertido, de Simão para a romancista Alícia (Andréa Beltrão), insinuando, então, um segundo ponto de partida. No entanto, o fim condutor de todo o projeto só é apresentado no fim do primeiro ato, introduzindo-nos a uma terceira premissa, que, desta vez, possui um vínculo embrionário com todas as outras premissas que Mantovani apresentará ao espectador ao longo da projeção. É a ressignificação de conteúdo que funciona de forma diferente de um plot twist, pois promove questionamentos constantes acerca da própria natureza do que está sendo exibido no ato da exibição.

Sendo assim, quando uma trama parece se desenhar e conectar-se à cena inicial, Mantovani e Augusto mandam as convenções às favas, com o cineasta e o editor Fernando Stutz inserindo digressões imagéticas de função eminentemente sensorial (destacam-se as irrupções de cores fortes que fazem referência à cinestesia do personagem central). Além do mais, o passeio do longa-metragem por vários gêneros distintos ilustra a instabilidade proposital de personalidade da empreitada: no primeiro ato, quando Simão é encorajado por Alícia, sua ex-namorada psicologicamente mal resolvida, a seguir para Albatroz, nós imaginamos estar diante de um suspense em torno de um triângulo amoroso; na primeira metade do segundo ato, a partir do momento em que o fotógrafo comete uma atitude antiética, pensamos que um drama tomará forma; adiante, ao nos adentrarmos no relacionamento entre Simão e Catarina (Maria Flor), sugere-se um romance; por fim, com o aparecimento dos personagens de Andréia Horta e Marcelo Serrado, ensaia-se uma ficção científica quase lisérgica, honrando os momentos mais enigmáticos de David Lynch e Terry Gilliam.

Essa desestabilização funciona com êxito (em um nível sensorial, ao menos) justamente pelo desejo incontrolável dos realizadores de elaborar um quebra-cabeça intrincado e legitimamente abstruso, que opera no nível das atrações e está mais preocupado em manter a plateia atenta a cada momento. Não é à toa que o debate entre ímpeto artístico e senso de empatia evanesce depois de certo tempo, uma vez que o plano de conteúdo não é o primordial aqui.

A grande ideia que Albatroz esconde por sua superfície de cortes bruscos, enquadramentos desestabilizados, fusões de personagens e predomínio de cores fortes é de que a audiência, assim como as pessoas que acompanhamos ao longo desta empreitada, está tão absorta naquela história que se tornou incapaz de enxergar o que havia de mais elementar nela. Não era um sonho, mas um fluxo constante e inusitado da realidade, que, não necessariamente, é dotada de pleno sentido.


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