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Crítica #2: Suprema

Mesmo que não seja inesquecível como Cinema, é bom o suficiente para ensejar concretamente as discussões sociais abordadas nele, em maior ou menor grau - além de evidenciar as conquistas louváveis de Ruth Bader Ginsburg
Suprema

Estrela do excelente documentário RBG (indicado a dois prêmios do último Oscar) e figura popular de grande notoriedade após ser alcunhada de Notorious R.B.G – em referência ao rapper Notorious B.I.G – a juíza Ruth Bader Ginsburg é uma figura realmente admirável: além de uma história de vida impressionante, na qual precisou administrar sua família e superar o sexismo estrutural para poder exercer sua paixão inata pela advocacia, Ginsburg encampou pautas importantes e revolucionárias dentro do Direito norte-americano – em particular, casos sobre discriminação de gênero. É uma mulher veemente em suas convicções sociais, mas dotada de uma capacidade dialógica invejável (não é à toa que mantinha uma relação bastante amigável com Antonin Scalia, a força propulsora da ala conservadora na Suprema Corte estadunidense).

Suprema (On the Basis of Sex, 2018) exibe o porquê desse fascínio carinhoso por Ginsburg, ainda que seja menos bem sucedido nesta tarefa que RBG: nesta dramatização sobre o início da vida profissional da juíza, dirigida por Mimi Leder, vemos a tenacidade de espírito, a personalidade assertiva e a incapacidade de submissão ao status quo necessárias e que construíram a atual imagem da biografada. Assim, já na abertura, Leder e a figurinista Isis Mussenden vestem todos os homens com ternos cinzentos protocolares, enquanto Ruth (Felicity Jones, confortável no papel) traja um azul escuro refinadíssimo. Aliás, esta é uma distinção que ambas procuram fazer ao longo de todo o projeto: por mais que o ambiente tenha uma presença majoritariamente masculina, é sempre a protagonista que se destaca dos demais.

Na mesma medida, a cineasta e o diretor de fotografia Michael Grady propõem uma brincadeira visual durante uma discussão na qual vemos os homens brancos, idosos e heterossexuais encabeçados por Erwin Griswold (Sam Waterston) discutindo/afirmando ideias sobre a condição da mulher nos Estados Unidos: a sala na qual se encontram é naturalmente escura, pontuada por luzes esparsas que formam sombras e coberta pela fumaça indiscreta dos cigarros acesos. Essa ambiguidade atmosférica é ressaltada pelas escolhas feitas por Leder, Grady e pela montadora Michelle Tesoro, que opta por mostrar os argumentos machistas ditos pelos sujeitos em planos-detalhe de olhos, mãos ou sobrancelhas, mas nunca de uma maneira que possamos ver a figura humana por completo, já que esses homens não apresentam nenhum lampejo de racionalidade em seus discursos.

Já o roteiro de Daniel Stiepleman é constituído de esforços mais irregulares. A importância que Ruth sente por seu marido, Marty (Armie Hammer, afável), é central para que o espectador desenvolva empatia e a tome como uma personagem relacionável, porém, não sentimos dor ou preocupação quando o advogado descobre ter câncer de próstata, porque ainda não estamos tão familiarizados com ele nem temos consciência da ressonância emocional que exerce sobre a esposa. Da mesma forma, a cena em que Jane (Cailee Spaeny), após ser verbalmente assediada por trabalhadores, demonstra a força de sua juventude para a mãe flerta fortemente com uma cafonice indesejada para cinebiografias dramáticas, uma característica ressaltada pela condição climática chuvosa do momento. Ainda assim, deve-se destacar o trabalho do roteirista na sequência climática do longa-metragem, que condensa fortes diálogos retóricos com tensão cavalar, mantendo-nos interessados no desfecho da ação.

Com exceção de seus figurinos, Suprema também não impressiona por seu design de produção ou pela decupagem de seus planos (com exceção do exemplo citado anteriormente). Porém, mesmo que não seja inesquecível como Cinema, é bom o suficiente para ensejar concretamente as discussões sociais abordadas nele, em maior ou menor grau - além de evidenciar as conquistas louváveis de Ruth Bader Ginsburg, não só dentro de seu país, mas para toda uma sociedade que se recusava a mudar, mesmo sem perceber que, invariavelmente, precisaria abraçar a marcha do progresso.

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