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Camila Morgado e Kris Niklison falam sobre “Vergel”

Semana passada, houve uma sessão especial de pré-estreia de Vergel no Rio de Janeiro. O evento aconteceu no Espaço Itaú de Cinema, em Botafogo, e contou com a presença da equipe do filme. Nossa equipe compareceu e conversou com a diretora, produtora e roteirista Kris Niklison e com a protagonista Camila Morgado.

Semana passada, houve uma sessão especial de pré-estreia de Vergel no Rio de Janeiro. O evento aconteceu no Espaço Itaú de Cinema, em Botafogo, e contou com a presença da equipe do filme. Nossa equipe compareceu e conversou com a diretora, produtora e roteirista Kris Niklison e com a protagonista Camila Morgado.

Confira a entrevista com a Kris Niklison:

LOUCOS POR FILMES – Vergel é um filme que aborda o luto, a morte, mas também a vida. Somos apresentados a uma protagonista que enfrenta um momento bastante duro: uma brasileira que, em viagem com o marido à Argentina, precisa lidar com a morte deste e ainda com a burocracia para conseguir sair do país com o corpo e enterrá-lo em sua pátria-natal. A surpresa é que ela se permite sentir essa dor, mas também o que a vida tem a apresentar mesmo em meio ao sofrimento. Como surgiu essa história? Qual foi a sua inspiração para escrever e dirigi-la?

KRIS NIKLISON – Vergel é uma metáfora para um luto muito importante que eu vivi, mas que não foi pela morte de alguém. Depois de 20 anos morando na Holanda, onde eu fazia teatro, eu decidi voltar à Argentina e fazer cinema. Quando eu cheguei à Argentina, nesse meu apartamento, foi tudo muito difícil. Depois de tanto tempo longe, eu mal falava a língua, já não tinha amigos. Isso foi para mim como uma morte, um luto. Mesmo assim, eu tinha a certeza de que havia feito uma boa escolha e de que a vida iria florescer para mim. Então, Vergel é a metáfora disso.

LOUCOS POR FILMES – Você falou que trabalhava com teatro na Holanda e optou por começar a fazer cinema em sua ida para a Argentina. O que te motivou a isso e quais os principais desafios que você enfrentou ao produzir uma outra forma de arte?

KRIS NIKLISON – Todo desafio do mundo. Eu trabalhei com teatro por 25 anos: fui atriz, diretora, coreógrafa, dançarina, acrobata, autora/roteirista de teatro. Então, quando eu já tinha feito tudo, pensei: “O que de mais difícil eu posso fazer: ser astronauta ou fazer cinema? Bora fazer cinema!”.

LOUCOS POR FILMES – Como surgiu o nome da Camila (Morgado) para interpretar a protagonista desse longa, uma mulher que fala mais através do silêncio do que necessariamente por palavras?

KRIS NIKLISON – Eu vi as grandes atrizes dessa faixa etária deste país (Brasil), todas extraordinárias. Mas, quando escrevemos a história de um personagem, temos algo em mente que ainda não foi revelado. Quando uma amiga, pouco tempo antes das filmagens, me falou: “Olha essa atriz!”, eu falei: “É ela!”. E não errei.

LOUCOS POR FILMES – Houve dificuldades para escrever um roteiro que trabalha muito com silêncio e poucos diálogos, contando bastante com a atuação da protagonista e o seu trabalho de direção para a construção de cenas que falam muito com seu silêncio?

KRIS NIKLISON – Esse foi um grande desafio. O desafio era conseguir transmitir a partir do poder da imagem, nem tão apoiado à interpretação, que é bem minimalista.

A narrativa do filme sustenta-se na força das imagens. Eu fiquei em cima de mim mesma para não deixar passar nenhuma cena enquanto eu não sentia que a imagem contava exatamente aquilo que eu queria que fosse contado. Foi um trabalho muito intenso e profundo, feito ao longo de sete anos.

LOUCOS POR FILMES – O filme aborda a questão do luto, mostrando que, apesar da dor, a protagonista se permite viver as experiências que a vida lhe apresenta de forma muito natural. Também notamos a importância do contato com a natureza nesse processo de lidar com o luto. A seu ver, quais as vantagens de não se fechar para o que a vida tem a lhe oferecer, mesmo nesses momentos amargos? E como a natureza influencia no seu trabalho e na sua vida?

KRIS NIKLISON – Bom, se abrir é viver, enquanto se fechar é morrer. Talvez, a solução para essa morte que ela vivencia seja a abertura.

Quanto à natureza, ela é o grande caminho: é de onde nos afastamos, para onde temos de voltar, onde estão todas as respostas. E essa mulher, de algum jeito, acha uma saída para essa dor na vida dessas plantas. No filme, as plantas atuam como metáfora de vida.

Confira também nossa entrevista com a Camila Morgado:

LOUCOS POR FILMES – Em Vergel, você encarna uma protagonista que se mantém calada em boa parte das cenas. A sua interpretação, mesmo em silêncio, fala muito (até mais do que por meio de diálogos). Qual foi o maior desafio de fazer um filme em que o silêncio fala muito mais do que palavras e como foi o trabalho para conseguir encontrar o tom para essa personagem?

CAMILA MORGADO – Eu não sei se eu consegui chegar, mas eu tentei muito.

Isso que você falou foi um dos atrativos dessa história, porque o roteiro dá algumas pistas: o silêncio frequente, a personagem que está em uma realidade paralela, em um estado de suspensão, a história contada por um olhar feminino, muito íntimo, com uma câmera que expõe muito o ator. Todos esses pontos do roteiro foram atrativos que me levaram a pensar: “Eu vou tentar fazer esse filme. Eu acho que posso, que consigo. Eu acho que serei levada para um lugar desconhecido.”. Porque, ao ler o roteiro, eu percebi que não era algo cômodo, confortável para o ator, pois requer algo diferente. Por isso mesmo, eu aceitei para tentar fazer, encontrar esse lugar, enfrentar o desafio.

LOUCOS POR FILMES – Como foi fazer um filme escrito, dirigido e produzido por uma mulher, que se sustenta, em sua maior parte, apenas com essa mulher silenciosa em cena? Ou seja, como foi fazer um filme sobre mulher, feito por mulheres e com um olhar feminino tão íntimo?

CAMILA MORGADO – Isso foi maravilhoso: contar a história dessa mulher, que, inclusive, não tem nome no roteiro, sendo mencionada apenas como MULHER.

Poder trabalhar, hoje em dia, em uma história toda contada por esse olhar (feminino) é um grande privilégio. Eu me sinto muito orgulhosa por ter sido escolhida para fazer esse filme, principalmente no contexto em que vivemos. Com toda a questão do feminino em voga, eu acho muito importante termos a mulher representada, contarmos a história dessa mulher para que o espectador possa enxergá-la por vários ângulos e conhecê-la mais profundamente. Foi uma experiência muito boa.

LOUCOS POR FILMES – Acostumada a atuar bastante em novelas e teatro, com papéis nos quais você está em constante diálogo com outros personagens, como foi interpretar uma personagem silenciosa, que contracena muito mais com as plantas, a água, as paredes, do que necessariamente com outro(s) ator(es)?

CAMILA MORGADO – Esse lugar do filme é um espaço onde nós, atores, gostamos de estar, porque não é um lugar-comum, não é um naturalismo, mas é algo diferente, tanto para quem está fazendo quanto para o espectador, que está absorvendo.

Trabalhar com o silêncio traz um outro ponto de vista, uma outra realidade. Vergel tem um espaço bem hermético, mas um espaço que existe. Então, para o ator, poder se exercitar dessa forma, nesse tipo de experiência, é muito gratificante.

LOUCOS POR FILMES – Para você, qual a importância de se representar o luto, tanto no sofrimento experimentado quanto nas formas de lidar com ele e “seguir em frente”, em vez de pura e simplesmente haver o foco no peso e na premissa de que é preciso alimentar a dor por um tempo antes de retomar os rumos da própria vida?

CAMILA MORGADO – O luto tem várias fases. Existe a fase em que estamos muito ligados com a morte, é como se nós também estivéssemos mortos. E existe a fase em que começamos a sair do luto. Esse processo é lento, requer reconstrução, ressignificação.

É justamente esse processo que a personagem faz: de ressignificação. É algo que está ligado à potência de vida. O que vemos no filme é a potência de estar alegre – alegre no sentido de vivo. Ela faz a mesma troca com a água, com o verde das plantas. São elementos que simbolizam a vida. Isso tudo vai tomando corpo. A partir desse corpo que começa a se fazer presente que vemos a personagem começar a se reconectar com o mundo.

LOUCOS POR FILMES – Que mensagem você daria para o público? O que esperar de Vergel?

CAMILA MORGADO – É um filme muito sensível, muito delicado. Poder contar a história do ponto de vista dessa é muito importante neste momento em que nós, mulheres, estamos conquistando um espaço maior. E eu estou muito feliz por participar disso.

Vergel estreou na quinta-feira (09/02) e se encontra em cartaz em diversas salas de cinema do país.


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