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Crítica: Não Olhe

“Não Olhe” não funciona bem como terror nem como thriller psicológico, jogando no lixo a chance de pegar carona no sucesso de Vidro (de M. Night Shyamalan, 2019) e ser mais um suspense competente envolvendo boas metáforas sobre os enigmas da psique humana.

Não é lá muito difícil encontrar exemplos de boas premissas que são mal aproveitadas no cinema. Muitas vezes os diretores e roteiristas da indústria conseguem vender excelentes idéias aos estúdios, com a possibilidade de gerar peças genuínas de entretenimento capazes de divertir e emocionar o público. Porém, no caminho entre o argumento e a tela grande, seja por demérito de um roteiro que morre na praia ou de um diretor que não sabe conduzir a narrativa, algo dá errado e assistimos uma grande ideia sucumbir de inanição bem diante dos nossos olhos. O mais novo exemplo deste tipo específico de desperdício é o thriller Não Olhe (“Look Away” no original, 2019) do diretor Assaf Bernstein.

Na curiosa sinopse, Maria (India Eisley - que tenta, tenta e tenta) é uma menina no último ano do colegial com problemas de auto-estima, dentro de casa e com bullying – uma adolescente comum – que troca de lugar com seu reflexo – pois é! – que é uma versão mais sombria dela mesma e que promete ter o ímpeto que ele não tem para dar um jeito nos problemas de sua vida. Muito embora olhando assim pode parecer uma ideia ruim desde o começo, durante o primeiro ato do longa parecia que Bernstein faria desta história estranha uma alegoria sobre vaidade, aceitação pessoal e até mesmo transtorno de personalidade – que ficou famoso após o sucesso de Fragmentado (com James McAvoy, 2016). Tudo no filme diz respeito à imagem. O casamento dos pais de Maria é de fachada, seu pai (Jason Isaacs, conhecido pelo papel de Lucius Malfoy na Saga Harry Potter) é um cirurgião plástico obcecado com aparências, sua única amiga não é tão amiga assim e o tempo todo o roteiro questiona a Maria o que ela enxerga quando se vê diante do espelho.

Parecia uma boa alegoria sobre traumas que criamos ao esconder nossas emoções e impulsos. Maria não se aceitava e isso gerou nela uma personalidade auto-confiante e vingativa – seu extremo oposto – que numa versão exagerada do conflito entre razão e emoção que ocorre dentro dos nossos pensamentos, assume o lugar da menina no mundo real e começa a, em bom português, tocar o terror na vida de aparências em torno dela. Mas é aí que os problemas do filme começam e, o tempo todo, paira no ar a sensação de que há elementos deslocados na trama.

Maria está no último ano do ensino médio, há um número bem maior do que o necessário de cenas de sexo e nudez que expões que aqueles personagens já são crescidinhos, mas mesmo assim, o bullying que sofre a protagonista envolve não deixá-la sentar no lugar que ela quer no ônibus da escola, botar o pé na frente para ela tropeçar e arrastar a menina pelo braço como se todos fossem crianças num parquinho. Está presente a partir da troca de “personalidades” uma incômoda tensão sexual entre pai e filha que não serve para nada senão para causar desconforto e também um plot em flashback envolvendo um bebê natimorto que além de não fazer sentido, tira da história boa parte da analogia sobre transtornos psicológicos que mencionei anteriormente. Finalmente, sem muita coerência, a partir de uma morte sem pé nem cabeça – que levou a platéia de críticos que assistiam a cair na gargalhada – começa uma escalada de acontecimentos inverossímil e até um pouco patética, que termina sem mostrar para onde foi uma história que começou sem dizer para onde ia.

Não Olhe” não funciona bem como terror nem como thriller psicológico, jogando no lixo a chance de pegar carona no sucesso de Vidro (de M. Night Shyamalan, 2019) e ser mais um suspense competente envolvendo boas metáforas sobre os enigmas da psique humana. Infelizmente não foi dessa vez, e todo o potencial do longa acaba por cair no ridículo quando paramos para – com o perdão do trocadilho – refletir sobre ele após a sessão.

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