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Crítica: Todos Já Sabem

Todos já Sabem tem uma boa sacada ao final, quando decide mostrar que mesmo a experiência traumática que aquela família viveu não os impedirá de jogar mais coisas para debaixo do tapete.
Todos Já Sabem

Intrigas, segredos e relações familiares sempre foram os esqueletos de boas histórias tanto na literatura quanto no cinema. Seja para comédia, drama, terror ou qualquer outro gênero, há muito o que se explorar usando como base as relações de pessoas essencialmente diferentes, que dividem entre si parentescos e vínculos importantes, mas que muitas vezes, se não fosse por esses vínculos, talvez jamais conseguissem passar mais do que cinco minutos na mesma sala. Se este ambiente já é propício para uma narrativa interessante, o diretor iraniano Asghar Farhadi adiciona a isso uma excelente escolha de elenco e um crime misterioso para ser o catalisador emocional em um filme que, no fim das contas, é uma versão dramática e sem exageros desnecessários de uma popular “lavação de roupa suja”.

Embora seja comandado por um iraniano, Todos Já Sabem (“Todos lo Sabem”, no original em espanhol) é uma produção espanhola e conta com um elenco repleto de grandes estrelas hispano-hablantes bem conhecidas por aqui. A trama conta a história de Laura (Penélope Cruz de Vicky Cristina Barcelona, 2008), esposa de Alejandro (o astro argentino onipresente Ricardo Darín de O Segredo dos Seus Olhos, 2009), que volta à Espanha com os dois filhos para o casamento da irmã. Com toda a família grande e feliz reunida, um misterioso sequestro ocorre durante a festa e a preocupação e o desespero dos personagens presos nesta situação começa aos poucos a mostrar a verdadeira natureza de relações que pareciam amistosas à primeira vista. O ganhador do Oscar Javier Bardem (Onde os Fracos não têm Vez, 2007) se junta aos protagonistas como o boa-praça Paco, que possui uma relação muito próxima com a família de Laura e está no centro dos conflitos do filme.

Assim como a comparação com a lavação de roupa suja que fiz no início, tudo que se segue após o misterioso sequestro no primeiro ato do longa nos põe a testemunhar as fragilidades daquela família. Cena a cena, arrebatados pela qualidade das atuações (com outros rostos reconhecíveis como Jaime Lorente de La Casa de Papel e Barbara Lennie do suspense Um Contratempo, de 2016) vemos as verdadeiras motivações para atitudes do passado vindo à tona, segredos que não eram tão secretos assim são admitidos e há uma boa dose de verdades “jogadas na cara” entre personagens que pareciam se amar.

Não há muito espaço para humor em Todos já Sabem, e a grande revelação do filme é drasticamente previsível – embora a verdadeira natureza do sequestro seja um twist competente. Gosto de pensar que o roteiro de Farhadi opera esta previsibilidade propositalmente – o que justificaria o título da obra – e faz com que seu filme não seja sobre um segredo escondido – ou vários – mas sobre a nossa capacidade de camuflar e simular emoções, uns mais do que outros, e sobre como este mimetismo emocional é potencialmente destrutivo.

Embora seja muito competente, a direção é simplória e tudo no filme é carregado pelas atuações. Sem a menor ambição de ser um suspense, ciente o tempo todo que se sua história não é sobre o mistério do sequestro, a produção também não consegue alcançar um patamar de ser memorável ou profundamente emocionante. Passa longe de bons dramas familiares recentes como o ótimo Os Descendentes (com George Clooney, de 2011) ou Álbum de Família (com Meryl Streep, de 2013) e se mantém num nível alto de qualidade, mas infelizmente não passa muito disso.

Todos Já Sabem tem uma boa sacada ao final, quando decide mostrar que mesmo a experiência traumática que aquela família viveu não os impedirá de jogar mais coisas para debaixo do tapete. É assim que nós somos, é assim que nossas famílias são, e a reflexão é legal. Mesmo assim, mesmo sendo muito bom ver aqueles atores trabalhando juntos, sobra pouca coisa para elogiar de verdade além do que ver Darín, Cruz e Bardem lavando roupa suja em tela grande.


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