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Crítica: A Mula

Renunciando ao seu papel no cinema, construído como herói de proporções épicas, Eastwood investe nessa nova tendência de transformar vigaristas em pessoas que causam empatia e você realmente gostaria de conhecer.
A Mula
Os últimos filmes de Clint Eastwood, Sniper Americano (2014), Sully: O Herói do Rio Hudson (2016) e 15h17 - Trem para Paris (2018), foram representações melancólicas de pessoas comuns da vida real transformadas em celebridades em função de seus atos de bravura. Despreocupando-se com o negócio do heroísmo, A Mula é o primeiro papel principal de Eastwood em seis anos e seu primeiro em um filme onde ele dirige e atua desde Gran Torino (2008). No caso desse último citado, os dois filmes têm muito em comum. Ambos são sobre homens que foram deixados para trás por todos em sua vida, se centram na figura de velhos caubóis urbanos, fora de sintonia com as gerações atuais e que fazem questão de reclamar e criticar.

O personagem de A Mula é uma figura um pouco mais suave do que em Gran Torino, filme onde Eastwood representa um homem extremamente racista, sexista e homofóbico, mas ainda assim é um homem culpado por negligenciar sua família e que comumente dispara uma piada insensível. Ele é atraído para uma surpreendente vida pós-aposentadoria no crime quando um cartel de drogas se apresenta para ele.

Baseado na história real de Leo Sharp, narrada no The New York Times, que foi pego aos 87 anos com 200 quilos de cocaína pela polícia estadual de Michigan em 2011, o filme foi escrito por Nick Schenk, que também escreveu o roteiro Gran Torino. Renomeado para Earl Stone, ele é um veterano de guerra horticultor que tem um relacionamento tenso com sua ex-esposa Mary (Dianne Wiest), sua distante filha Iris (Alison Eastwood, filha de Clint na vida real) que se recusa a falar com ele e tem apenas a atenção de sua neta Ginny (Taissa Farmiga) que ainda tem alguma esperança nele. Quando Stone se depara com problemas financeiros, sua idade avançada, os anos de experiência dirigindo pelo país e um registro criminal limpo o leva a se tornar um transportador de drogas e um dos ativos mais valiosos do cartel de drogas mexicano de Sinaloa. Ele não faz perguntas e o dinheiro é bom. Ele troca então sua picape velha por uma nova e continua, e logo está enviando grandes remessas de drogas pelos EUA. Enquanto isso, o agente da DEA Colin Bates (Bradley Cooper) que está sob pressão de seu chefe (Laurence Fishburne) tenta conseguir rastrear grandes remessas de drogas e efetuar prisões junto com seu parceiro Colin (Michael Peña). A coisa toda acontece como um road movie, enquanto Earl tenta compensar décadas de negligência com a família com maços de dinheiro, traçando uma linha que o liga a eles e os caminhos errantes ao longo dos anos.

Apesar de poder ter um alcance mais emocional o drama da história e sua resolução parece muito arrumada, com pouco impacto e um tanto previsível. Eastwood acaba dando humor e potencializa a história com sua construção de personagem. As longas filmagens de Stone dirigindo pelas estradas e cantando junto com as músicas de seu rádio, a construção de relacionamentos com os traficantes de drogas e a maneira rude e o racismo casual são usados ​​como um dispositivo de comédia e ilustra a maneira como esse homem está fora de sintonia com o mundo de hoje.

A maior parte do roteiro é uma mistura de comédia e drama e se posiciona como uma história de redenção, concentrando-se nas tentativas do personagem central em consertar as coisas com sua família antes que seja tarde demais. Apesar da ótima montagem, repleta de oportunidades para Eastwood perpetuar seu discurso sobre o declínio americano, iniciado em Gran Torino, ele não atinge todo o seu potencial dramático. O principal problema do filme está no roteiro, que contém lacunas e os personagens satélites e antagonistas são bem fracos e fica a cargo de Eastwood fazer com que os altos e baixos funcionem dentro da tela. Em especial a de seu chefe latino, que inicia um bom arco dramático que não se desenvolve e as performances do elenco de apoio são geralmente pouco notáveis ​​e não tão bem dirigidas.

Andy Garcia tem o arco de seu personagem inexplicavelmente apressado e não tem tempo de tela suficiente como o chefão das drogas. O próprio Earl também é um personagem que carece de um arco significativo e um objetivo consistente para afirmar sua bússola moral. Ele consegue recuperar sua casa, ajuda o bar de um veterano a ficar aberto e paga as dívidas da faculdade de sua neta. Mesmo assim, depois disso ele continua a transportar as drogas, correndo riscos e esse aspecto não é explicado ou nos apresenta justificativa dentro da trama. Earl inexplicavelmente se arrepende mais por negligenciar sua família do que carregar as drogas. Mas o ato final proporciona ao filme um tom sombrio e melancólico, adequado aos temas do arrependimento e do deslocamento da família propostos.

Renunciando ao seu papel no cinema, construído como herói de proporções épicas, Eastwood investe nessa nova tendência de transformar vigaristas em pessoas que causam empatia e você realmente gostaria de conhecer. Com seus ombros curvados, caminhada irregular e chapéu de caubói, revela sua desconfiança em telefones celulares, computadores, mensagens de texto e outros aspectos da tecnologia moderna que tornam difícil e desafiador ajustar-se a um mundo digital. É um filme com bastante humor, lento, previsível e carente de melhores ajustes no roteiro, mas ainda assim é divertido, prende e vale o ingresso ver Eastwood nos altos de seus 88 anos continuar dando vida a personagens interessantes.



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