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Crítica: Minha Fama de Mau

É irônico que Minha Fama de Mau traga as mensagens anárquicas e good vibes de Erasmo Carlos, ao mesmo tempo em que exibe preferências normativas típicas do status quo.
Minha Fama de Mau

Por mais espinafradas que fossem pelos críticos da época, as canções da Jovem Guarda, em sua maioria, envelheceram bem junto ao público e até mesmo ganharam a aprovação dos especialistas, com o passar do tempo. Adaptações brasileiras como “Splish Splash” ou composições originais na linha de “Pare o Casamento” e “Festa de Arromba” são facilmente identificáveis apenas por suas primeiras notas, não importa qual geração as escute. Esse período foi, guardadas as devidas proporções, o nosso equivalente à beatle mania, o sessentista Iê-Iê-Iê.

Em um efeito semelhante ao ocorrido no insípido Bohemian Rhapsody (2018), Minha Fama de Mau (Idem, 2019), cinebiografia baseado no livro homônimo de Erasmo Carlos sobre a ascensão meteórica de sua carreira, usa as canções da Jovem Guarda para empolgar a plateia e suscitar a nostalgia naqueles que as ouviram assim que foram lançadas, cresceram com elas ou as tiveram em suas vidas de alguma maneira. Sendo assim, é impossível que qualquer obra, por menos espetacular que seja, possa ser considerada ruim: as canções são deleitosas o bastante para que a experiência seja suficientemente agradável.

Além desse incontestável ponto positivo, o filme dirigido por Lui Farias possui uma vivaz reconstituição de época, pontuada por cenários mais realistas e corriqueiros (como a vila na qual o protagonista vive) e outros mais requintados (o estúdio de gravação do programa da Record). Os figurinos de Valéria Stefani também merecem aplausos pela eficaz contextualização e constante necessidade de diferenciação entre os personagens (Erasmo, mesmo rico, continua usando roupas despojadas, enquanto Roberto Carlos mantém-se sóbrio e refinado, marcando os distintos estilos de ambos).

Contudo, o projeto padece de uma característica infelizmente presente no cinema comercial, tanto brasileiro quanto estrangeiro: o excesso de embelezamento. Não se está exigindo uma semelhança irrestrita em relação aos fatos e figuras reais, mas, ao menos, alguma verossimilhança é bem-vinda para constatar o mínimo de honestidade. Não é o que ocorre aqui: escancara-se a necessidade de apelo comercial ao colocar Chay Suede, um ótimo ator dramático, porém, de beleza mais palatável e padronizada que a de Erasmo Carlos, a quem interpreta nesta cinebiografia. A interpretação é boa e o rapaz prova ter carisma abundante para sustentar a narrativa, ainda que seja virtualmente impossível ignorar as diferenças físicas e tonais entre intérprete e o biografado. Por outro lado, as escalações de Gabriel Leone e Malu Rodrigues como Roberto Carlos e Wanderléa, respectivamente, também provocam alguma estranheza, mas o trabalho de caracterização é mais eficaz nestes casos (impressiona que Leone consiga reproduzir as mesmas linhas do sorriso do Rei).

Desse modo, é irônico que Minha Fama de Mau traga as mensagens anárquicas e good vibes de Erasmo Carlos, ao mesmo tempo em que exibe preferências normativas típicas do status quo. Ainda assim, vale a pena para, ao menos, sacudir-se um pouco ao som de “Vem Quente que Eu Estou Fervendo”.



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