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Crítica: Alita - Anjo de Combate

Alita – Anjo de Combate leva um grande nome na produção e tem um diretor competente, mas sofre com uma história sem substância, personagens ruins e um desperdício de um universo potencialmente interessante.
Alita - Anjo de Combate

A passagem dos anos 80 para a década de 1990 foi proveitosa para alguns dos mangás japoneses que trabalharam com tema das distopias futuristas. Em 1989, Masamune Shirow lançou Ghost in The Shell, cuja premissa e universo influenciaram as irmãs Wachowski em Matrix (1999). Aproveitando a força das histórias sobre o futuro da raça humana vs inteligência artificial – algo que já seria suficiente para definir o gênero da ficção científica –, Yukito Kishiro seria o responsável, 1 ano depois, por Battle Angel Alita. O quadrinho, que fala sobre uma cyborg “ressuscitada” depois de ser encontrada com o corpo destruído, é mais um que entra nas questões inerentemente numerosas sobre como o ser humano se definirá em um futuro onde a distância entre artificial e real será cada vez mais ínfima.

Migrando para o cinema, o grande nome à frente é o de James Cameron. Finalmente colocando em prática o projeto que imaginou há anos, ele entra como produtor e co-roteirista na adaptação cinematográfica: Alita – Anjo de Combate. Na trama, Dr. Ido (Christoph Waltz) é um cientista robótico que se depara com o torço de uma cyborg jogada em um enorme despejo de lixo à céu aberto. Agora com o nome de Alita (Rosa Salazar), a jovem desperta sem saber nada sobre seu próprio passado, mas basta pouco tempo para que ela comece a apresentar habilidades fora do comum, levando-a a crer que talvez sua existência tenha um propósito muito maior do que imaginava.

Não se pode negar a importância de Cameron para os gêneros de ação e ficção científica. Desde a excelente repaginação de Alien para uma continuação celebrada até as evoluções tecnológicas que ajudou a perpetuar na indústria após Avatar, o homem se tornou uma aposta certa para qualidade e, principalmente, sucessos estrondosos (ainda hoje, Avatar e Titanic ocupam os lugares da ponta nas maiores bilheterias de todos os tempos). Além das óbvias constatações em relação ao seu valor no melhor do escapismo, ele também é simplesmente um bom contador de histórias (vide os dois primeiros da franquia Exterminador do Futuro e O Segredo do Abismo, por exemplo). Portanto, mesmo que não ocupando a cadeira de diretor, é natural que se espere algo à altura de seu nome na produção.

E se há ao menos uma coisa que corresponda a essa expectativa é justamente o que se mostra o ponto forte da obra: a personagem-título. O processo é resultante de mais um trabalho bem-sucedido da Weta Digital, que tem como um dos fundadores Peter Jackson. Uma das principais especialidades da empresa é justamente os impressionantes trabalhos de captura de performance, e aqui não é diferente. Mesclando live-action, CGI e motion capture, a protagonista ganha uma indiscutível verossimilhança curiosamente dando realidade a um rosto que não foi feito para se parecer exatamente humano. A junção do corpo robótico com a notável expressividade – em grande parte alcançada pelos grandes e intensos olhos cuja concepção lembra as origens características do mangá – é responsável por tornar Alita convincente quase que imediatamente, o que indubitavelmente ajuda que o espectador se identifique com ela.

Boa parte desse mérito se deve também ao ótimo trabalho físico e de voz realizado por Rosa Salazar. A atriz encontra bem um equilíbrio entre a vulnerabilidade e inocência relativos a uma jovem que começa e descobrir o mundo e as pessoas a sua volta; além de conseguir dar uma identidade que se une de forma orgânica à sua concepção visual. Ela é definitivamente o ponto forte do longa e não é difícil se pegar torcendo por ela, mesmo nos pequenos conflitos normais que enfrenta ao se mostrar maravilhada pelas possibilidades novas. Nesse sentido, o 1º ato é o mais eficiente, pois coloca no nosso olhar subjetivo a descoberta e o impacto do universo estabelecido.

Infelizmente, fora a concepção da protagonista, sobra muito pouco o que reverenciar em praticamente todos os outros aspectos, o que torna tudo uma grande decepção. Uma pena, já que o aspecto absurdamente genérico da narrativa e da história desperdiçam imensamente uma personagem que desejaríamos ver em um roteiro melhor. Este, escrito por Cameron, Robert Rodriguez e Leata Kalogridis, jamais consegue criar algo que desperte um genuíno interesse por aquele universo. Se, no início, nossa empatia por Alita parecia ser a ferramenta primordial para que nos engajássemos na trama, logo mergulhamos numa exposição constante sobre caçadores de recompensa, sociedade de castas e o velho arco do sujeito aparentemente comum destinado a ser um herói. Veja, falando assim até parece que existe muito o que desenvolver, só que o trio de roteiristas comete o erro de colocar esse papel em cima de personagens ruins.

O cerne desse problema é precisamente a forma como esses nunca saem do superficial – isso quando não beiram a caricaturas, como é o caso de basicamente todos os antagonistas, que ora são focados fazendo cara de mau enquanto a trilha te ensina que ali há maldade, ora aparecem fazendo aquilo é considerado o pecado mortal de qualquer um: maltratar um cachorro e até matar uma barata com as mãos (!). Nesse núcleo, atores como Mahershala Ali, o Vector (que está excelente em tudo que fez nos últimos anos), Jennifer Connelly (Chiren), Ed Skrein (Zapan) e Jack Earle Haley (Grewishka) são desperdiçados por diálogos ruins e motivações ainda mais genéricas. Do outro lado, o talentoso (e oscarizado duas vezes) Chrisoph Walt está num piloto automático nada convincente, ainda mais quando são reveladas certas características do personagem que deixam ainda mais complicada nossa suspensão de descrença (não revelarei pelo bem da proteção ao spoiler).

Como se a coisa não já não estivesse complicada, o arco entre Alita e o jovem Hugo (Keean Johnson) é mais um desses romances ruins que geralmente tendem a piorar e tomar tempo de tela de uma história que falha em ser substancial. Até que no início, o fato de estarmos impressionados com a expressividade da protagonista faz com que haja alguma simpatia pela descoberta, mas o fato de Hugo ser constantemente utilizado como um recurso de exposição e nunca ganhar um desenvolvimento melhor prejudica consideravelmente o resultado sempre que a narrativa se detém no casal. Fora que até ela começa a agir de forma inverossímil quando o roteiro a força a tomar decisões estapafúrdias em nome de amor que jamais pareceu convincente – e pouco ajuda tentar justificar pelo fato dela ter uma “mente” de adolescente, já que para outras motivações tinham sido dadas uma importância muito maior previamente.

Mas, e o valor de produção da obra, faz jus às produções de James Cameron? Em um sentido, até que sim. Com evidente inspiração na estética cyberpunk (só que mais “limpinha”) a cidade com aspecto industrial impressiona, além de ser explorada com competência pelos planos abertos e grandes profundidades de campo de Robert Rodriguez. Fora isso, os pequenos detalhes dos ambientes, das casas, prédios, veículos, e até do esporte famoso (o Motorball) são suficientemente críveis e visualmente interessantes. O problema é que acabam ficando em 2º plano por causa de uma trama que não empolga e de promessas que são plantadas apenas para dar gancho a possíveis continuações. Por isso tanta coisa que foi falada e não foi mostrada deixa a sensação de preguiça por um ambiente grandioso que fica inexplorado a maior parte do filme.

O mesmo pode ser dito da energia impressa por Rodriguez na condução da narrativa, que atinge uma certa constância, mas parece ser também apenas genérica (a repetição do termo é realmente necessária). O cineasta tem boa noção visual e uma habilidade suficiente para conceber sequências de ação eficientes, não apelando para cortes frenéticos e deixando planos mais abertos para que possamos desfrutar do que está de fato ocorrendo na tela. Em contrapartida, numa época onde o gênero atinge níveis grandiosos, fica aquele gostinho “apenas ok” para uma proposta potencialmente bem mais ambiciosa.

Alita – Anjo de Combate leva um grande nome na produção e tem um diretor competente, mas sofre com uma história sem substância, personagens ruins e um desperdício de um universo potencialmente interessante. É até possível se divertir entre um segmento e outro, mas uma boa protagonista não é o suficiente para salvar o resto.

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