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Crítica #2: Se a Rua Beale Falasse

É um romance que, mesmo atingindo notas mais altas, jamais poderá ser chamado de ingênuo ou relativista.
Se a Rua Beale Falasse

Excetuando-se seu verniz de produção prestigiada direcionada às grandes premiações, Se a Rua Beale Falasse (If Beale Street Could Talk, 2018) apresenta características que se encaixam apropriadamente em um gênero tido hoje como sinônimo de exagero, pieguice e do brega: o melodrama. Porém, a abordagem e os resultados passam longe do apelativo e indutivo, já que o diretor Barry Jenkins (vencedor do Oscar por Moonlight) utiliza camadas e proporções diferentes deste estilo para contar sua história de amor cheia de obstáculos intransponíveis.

Adaptada do romance de James Baldwin em uma narrativa não linear, a trama acompanha o casal Alonzo ‘Fonny’ Hunt (Stephan James) e Clementine ‘Tish’ Rivers (KiKi Layne), cuja estabilidade é abalada após ele ser preso em decorrência de uma acusação de estupro feita por Victoria Rogers (Emily Rios). O rapaz sequer estava perto do ocorrido, mas mesmo assim foi detido. Para completar, Tish, de apenas dezenove anos, descobre que está grávida de Fonny, contando com a ajuda da família (Regina King, Colman Domingo e Teyonah Harris) para criar a criança e provar a inocência do amado.

Está tudo lá para que se perceba a conexão com o melodrama operístico: a trilha sonora de Nicholas Britell (digna do Oscar ao qual concorre) é quase onipresente, inserindo-se entre diálogos e no prólogo de várias cenas, pontuando vários momentos de Fonny e Tish, desde aqueles mais felizes em que dançam/jantam no restaurante de Pedrocito (Diego Luna) ou fazem sexo em um local escuro e isolado. A música orquestral não diz ao espectador qual emoção sentir – até porque se constitui de variações tonais muito semelhantes -, mas possui enorme relevância para que compreendamos a ternura e singeleza das experiências e sentimentos vividos pelos dois protagonistas.

Além disso, em contrapartida, os próprios diálogos concebidos por Jenkins em seu roteiro, por mais que sejam bem intencionados em ilustrar a implacabilidade do racismo nos Estados Unidos setentista, terminam sendo excessivamente calculados para gerar impacto e catarse. Não é à toa que palavras lapidares e de forte apelo emocional, como “inferno” e “amor” sejam constantemente adotadas e, consequentemente, subtraiam a sutileza das cenas nas quais os personagens sequer abrem a boca. Um bom exemplo ocorre durante uma reunião familiar na casa dos Rivers, na qual o encontro supostamente agradável logo se converte em uma (divertida) discussão acalorada, com direito a tapas, condenações e frases de efeito.

Da mesma forma, o design de produção de Mark Friedberg e os figurinos de Caroline Eselin assumem uma lógica de cores contrapostas e dramaticamente recorrentes (o que, ironicamente, remete a La La Land, com o qual o projeto anterior de Jenkins enfrentou uma disputa figadal pelo Oscar de Melhor Filme): Fonny está frequentemente trajando amarelo, e esta cor surge justamente quando ele é contraposta a uma das paredes do presídio; já Tish aparece trajada em suéteres verdes, uma cor que também se espelha em outras partes do cenário, em particular, quando a personagem está presente; por último, o vermelho é escolhido para simbolizar os momentos mais felizes e apaixonantes do casal, presente na celebração pública de Fonny ao comprar um terreno para os dois no galpão de Levy (Dave Franco) ou nas paredes do restaurante no qual ambos jantam regularmente.

As atuações também têm o mesmo equilíbrio entre expansividade e contensão do restante desses predicados. KiKi Layne (que certamente conhecerá o estrelato após este papel) é extremamente hábil ao amalgamar uma doçura inocente levemente melindrada com uma vivacidade convicta e apaixonada, fazendo a transição entre este comportamento e a maturidade requerida pela idade adulta; Stephan James (da série Homecoming), por sua vez, demonstra a imponência jovial de Fonny em uma postura carinhosa e meditativa, impressionando pela fraqueza ou felicidade que podem estar visíveis em seu olhar; e Regina King, favorita para conquistar o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2019, entrega uma performance gradativa, indo da calmaria à tempestade em questão de segundos, o que é visto em uma das últimas cenas da projeção. Com menor espaço, mas talento igualmente irrepreensível, estão Brian Tyree Henry, Teyonah Harris, Colman Domingo, Emily Rios, Aunjanue Ellis e Michael Beach, que conseguem protagonizar, pelo menos, um grande momento durante o longa.

Usando os mesmos closes simétricos de Moonlight com propósito dramático, em que os atores quase olham diretamente para o público, Se a Rua Beale Falasse utiliza o que o melodrama oferece de palpável e emocionalmente efetivo, misturando-o com a potência trágica da desigualdade social e do racismo estrutural que interfere diretamente na felicidade individual. É um romance que, mesmo atingindo notas mais altas, jamais poderá ser chamado de ingênuo ou relativista.


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