Loucos por Filmes

Loucos por Filmes

Destaques

Últimas

Navegue aqui

Reflexões de um cinéfilo: Papéis maternais no cinema e o reconhecimento do Oscar

Papéis maternais no cinema

A partir dos recentes movimentos em prol da maior inclusão das mulheres na indústria cinematográfica além da posição de atrizes e a igualdade salarial entre mulheres e homens nos mesmos cargos, é passível de questionamento o quão inseridas as mulheres estão no mercado dos filmes, mais especificamente nos cinemas, e de que forma elas estão sendo retratadas.

O posicionamento das mulheres dentro do cenário predominantemente masculino passa primordialmente pela forma como elas estão sendo representadas, constantemente escritas e/ou dirigidas por homens, e o realismo presente na imagem da mulher como um ser humano, e não idealizada pelo homem.

O Oscar, mesmo com seus percalços de relevância atualmente, ainda é uma das maiores vitrines para o reconhecimento de certos filmes. E mais do que apresentar novos filmes que geralmente não chegam a grande massa, servem como plataforma para a visibilidade de atores já estabelecidos, os atores revelações do momento e os atores da velha guarda esquecidos pelo tempo. Um cenário tradicionalista e recluso quando se trata de novidades que vem abrindo portas para a atualização da perspectiva das indicações, visibilizando a realidade da diversidade social que emerge consideravelmente após os dois anos consecutivos do “Oscars so white” e se consolida com a vitória de Moonlight no Oscar de 2017.

Uma vitrine que embora possua seus problemas, críticas relevantes sobre o que é o Oscar afinal de contas, e uma organização de jurados conservadores que, aparentemente, após tantas críticas duras a cerimônia, parece estar definitivamente se renovando. O que não se renova, e isso pode soar tanto como uma problematização – não crítica realmente – como também um elogio ao Oscar e aos roteiristas, que é o apego das personagens femininas – principalmente em papéis coadjuvantes – ao papel de mães e o reconhecimento que o Oscar dá a esses papéis.

A maternidade é a fundação de qualquer sociedade, independente do que se diga e independente de qualquer machismo instaurado nas pessoas. As mulheres e a maternidade em conjunto são o símbolo da criação humana e do desenvolvimento do ser humano, seja a pessoa criada pela mãe biológica ou adotiva, pela tia, pela avó, ou pela babá. A presença materna diz mais sobre qualquer indivíduo do que possamos perceber, e os filmes constantemente traduzem esse pensamento e é corroborado pelas inúmeras indicações a atrizes que interpretam mães no cinema, e não só indicadas, mas geralmente saindo vitoriosas na noite do Oscar. Regina King acaba de ser indicada por seu papel materno em Se a Rua Beale Falasse, e, honestamente, é a favorita para ganhar como Melhor Atriz Coadjuvante. Fato que pode ser visto também no ano passado com Allison Janney interpretando a mãe abusiva da ex-patinadora no gelo Tonya Harding em Eu, Tonya e ganhando o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, na mesma noite em que Frances McDormand ganha o seu segundo Oscar como uma mãe desesperada por justiça pelo assassinato de sua filha em Três Anúncios para um Crime, em um ano em que tivemos outras atrizes interpretando mães, como Laurie Metcalf (Lady Bird) e Mary J. Blige (Mudbound).

A tendência de o Oscar premiar interpretações voltadas à maternidade – em certos casos há o papel maternal, porém não é o real destaque da atuação de acordo com a narrativa – expõe a falta de mais personagens femininas e histórias que diversifiquem a representação das mulheres no cinema, pois, é clara a diferença de personagens atribuídas aos homens para a das mulheres. A diversidade de histórias junto a vastidão de personalidades que lhes são oferecidas e raramente reconhecidos por papéis paternais. Enquanto que as mulheres, levando em conta o reconhecimento do Oscar, permanecem na bolha de papéis regulares e já conhecidos, apenas alterados psicologicamente.

Mas, o que se problematiza na falta de mais personagens para as mulheres trabalharem e a constante “estagnação” nos mesmos papéis, especialmente de mães, também serve como atenção do que se percebe socialmente e o tamanho respeito que é prestado à maternidade em si.

A maternidade nunca poderá ser padronizada nas histórias e nem na vida real, possuindo aspectos mais variantes do que mil homens em situações completamente distintas. É Patricia Arquette como uma mãe solteira em busca de autorrealização e uma vida melhor para seus filhos em Boyhood, Nicole Kidman como uma mãe adotiva tentando se conciliar com seus filhos em Lion, Brie Larson como uma mãe devido ao abuso sexual, mas que opta por ser a mãe de uma criança já destinada ao descaso em O Quarto de Jack, podendo estender essa lista a várias outras mães nos filmes do início do século XX até os dias de hoje, com cada uma possuindo sua profunda personalidade.

As razões de o Oscar reconhecer tais performances e premiá-las ano após ano pode ser considerada basicamente como mérito da interpretação, por uma personagem bem escrita e desenvolvida, mas, o que se pode tirar desta feliz realidade de papéis maternos sendo reverenciados pela prestigiada academia é que as mães no cinema não são só premiadas pelo fato de serem interpretadas primorosamente ou por ser a atuação mais “forte” do ano, e sim porque as mães, seja na ficção ou na vida real, tem influência no mundo e nas pessoas que as rodeiam. O que seria de Kramer vs. Kramer sem a discussão da maternidade de Meryl Streep no filme? O que seria de Daniel Day-Lewis em Meu Pé Esquerdo sem a mãe de Christy Brown interpretada por Brenda Fricker? O que seria de Chiron em Moonlight sem sua mãe para expor questionamentos sociais e raciais com Naomie Harris?

Várias performances masculinas que são interligadas com suas mães e que consequentemente tem sua narrativa conduzida pela influência materna. Ainda sem citar os filmes realmente protagonizados por mães e histórias com mulheres no centro que são desenvolvidas a partir das ações das mães.

O reconhecimento das várias Mildred Pearce e Mildred Hayes se deve a influência social que as mães, independente se biológicas ou não, possuem no ser humano em geral. Seja homem ou seja mulher, sua representatividade diante dos olhos da sociedade é algo naturalmente reconhecido devido ao sentimento único que a feminilidade puramente maternal é capaz de transmitir, guiar, desenvolver, criar e recriar. Quando duas atrizes ganham na mesma noite como Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante quer dizer mais da visão humana para o que são as mães socialmente do que é realmente percebido.


Deixe sua opinião:)

Mostrar comentários 💬