Loucos por Filmes

Loucos por Filmes

Destaques

Últimas

Navegue aqui

Crítica: Vergel

Vergel é um ensaio sobre interpretação e escancara o passado de experiência teatral da diretora argentina.
Vergel

O luto é uma das mais complexas emoções da experiência humana. Não são poucas as obras que se debruçam sobre as várias maneiras de se lidar com as perdas na vida. Há desde clássicos como Ghost – Do Outro Lado da Vida (de Jerry Zucker, 1990), populares como Sempre ao Seu Lado (de Lasse Hallström, 2009), tenros como o recente Tão Forte, Tão Perto (de Stephen Daldry, 2011) e os controversos como Anticristo (de Lars Von Trier, 2009). Dentre todas as formas – bonitas ou tristes ou reflexivas ou autodestrutivas – de se contar uma história sobre o tema, a diretora Kris Niklison escolhe se aproximar mais do exemplo de Von Trier e faz de seu Vergel (2017), co-produção entre Brasil e Argentina, uma conflituosa viagem que flerta o tempo todo com o sexo, a tristeza e a loucura.

Vergel, de acordo com o dicionário, é um pequeno horto ou jardim, espaço de cultivo que necessita de cuidado, água, luz e essas coisas todas. Na trama, acompanhamos uma mulher sem nome (interpretada com uma entrega total pela atriz brasileira Camila Morgado) que está na Argentina sozinha, no apartamento de uma amiga, e está tendo problemas com os serviços funerários para conseguir que o corpo de seu marido seja enviado para o Brasil. A mulher está devastada, havia ido para lá com o marido de férias e viu-se viúva de repente - O olhar vazio de Camila Morgado entrega tudo que precisamos saber sobre os sentimentos da personagem. Enquanto tentamos entender a verdadeira natureza do que está acontecendo com ela, que jura permanecer na Argentina até que se resolva seu problema – entre telefonemas confusos e acessos de fúria - entra em cena uma vizinha (a doce atriz argentina Maricel Álvarez) que havia ficado responsável por regar as plantas – o Vergel – do apartamento na ausência da proprietária. Aos poucos, mais pela profunda confusão mental da viúva do que por qualquer sedução, as duas mulheres engatam numa aventura sexual que descobriremos possuir significados bem diferentes para cada uma delas.

Não há mais o que ser contado sobre o enredo, pois ele é só isso mesmo. Vergel é uma grande experimentação de Kris Niklison que se baseia totalmente na qualidade das atuações de suas protagonistas – estas, alias, que são praticamente as únicas personagens em cena. Por mais da metade do filme Camila Morgado está sozinha e, proporcionalmente, há muito mais momentos sem falas do que aqueles em que ouvimos diálogos durante a projeção. O abuso aqui está na exploração do sexo e da loucura da mulher que experimenta seu luto recente com violência e angústia.

Embora haja cenas bonitas da paisagem urbana de Buenos Aires, uma fotografia que realmente lembra ensaios e exposições ao mesclar o nu com jogos de sombra e luz, Vergel é um a viagem sobre a necessidade de se preencher com o que lhe falta após uma perda. A personagem de Maricel Álvarez entra naquele apartamento vazio e silencioso para regar não só as plantas, mas para incorporar em si a metáfora daquela que vai lá impedir que se perca a vida que havia ali. Maricel leva às plantas secas, a água, ao apartamento silencioso, conversas e risadas e à viúva, leva romance, êxtase sexual, clímax.

Mesmo que a metáfora funcione, é bastante óbvia. O uso de cores é bonito e o vermelho que remete ao calor daquela relação é muito presente. Mas faltam falas, sendo as poucas que existem estranhas e teatrais, longe de serem verossímeis – exceto aquelas com a truncada agência funerária que são excelentes. A loucura de Camila Morgado na parte final da película não se justifica muito e a crueza das cenas de sexo e masturbação pode incomodar algumas pessoas.

Em seu desfecho, uma vez que a questão inicial é resolvida, tudo mais também é, e resta a mensagem de que o luto fere, mas passa - e o faz tão de repente como começa. Vergel é um ensaio sobre interpretação e escancara o passado de experiência teatral da diretora argentina. O problema é que filmes assim são de difícil digestão e facilmente suas escolhas gráficas, no tocante ao sexo, serão questionadas quanto à sua necessidade. No fim do dia, mesmo entre alguns méritos, se sobressai entre as outras uma palavra incômoda quando se analisa filmes, mas que grita forte demais para ser ignorada ao subir dos créditos: Pretensioso.



Deixe sua opinião:)