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Crítica: Homem-Aranha: No Aranhaverso

Divertida, empolgante, catártica e visualmente espetacular, se soma a mais um acerto do personagem para as telas. Tomara que ela tenha o papel de fazer aqueles já um pouco cansados das mesmas coisas se empolgarem novamente com o próximo super lançamento do mês.
 Homem-Aranha: No Aranhaverso

Quando achávamos que já havia muitas versões para o cinema de um dos personagens mais icônicos da Marvel (tirando as anteriores sem muito legado, a trilogia Sam Raimi, as duas aventuras de Marc Webb e o renascimento para o MCU), a Sony vem mais uma vez aproveitando a grande popularidade do herói com este novo Homem-Aranha no Aranhaverso, baseado nas histórias em quadrinhos de Miles Morales, umas das identidades com inspiração no ator – cantor, diretor, roteirista, produtor – Donald Glover e até no ex-presidente americano Barack Obama. A animação faz parte do conceito de misturar várias realidades paralelas que acabam se encontrando, algo que geralmente significa uma dificuldade a mais para desenvolver uma adaptação para o cinema de elementos que costumam relevar bem mais o absurdo da premissa nas HQ´s. A ótima notícia é que isso não só funcionou muito bem na transposição para um longa-metragem, como também uniu com maestria uma excepcional conjunção do melhor entre o visual cinematográfico e do desenho.

Miles Morales (Shameik Moore) é um adolescente negro do Brooklyn, filho do policial Jefferson Davis (Brian Tyree Henry), que vive uma vida normal entre o ambiente escolar e os conflitos da idade. Tudo muda quando, certo dia, ele é picado por uma aranha radioativa e presencia a morte de Peter Parker (não se preocupe, isso não é um spoiler e já está na premissa), que acaba por repassar a ele a missão de impedir que Wilson Fisk (Liev Schreiber) use um dispositivo avançado para abrir uma passagem entre as realidades paralelas, o que poderia causar uma tragédia de proporções gigantescas. O que já era intenso fica mais ainda quando Miles se depara com outro Peter Parker (Jake Jhonson) mais velho e vindo de outra realidade. Agora, com o objetivo de ajudar o mentor e amigo, ele tem que enfrentar a necessidade de amadurecer rápido e se tornar o novo e oficial Homem-Aranha de seu mundo.

Não é difícil perceber como essa história já parece bem mais exagerada e fantástica do que nos acostumamos a ver no cinema. Mas o fato é que, desde de seu início, o longa determina suas regras com a segurança do roteiro de Phil Lord e Rodney Rothman, que trata de acostumar o espectador desde cedo de que ele deve se acostumar com o tom jocoso e extraordinário da narrativa. Só a introdução do próprio personagem nos instantes iniciais mistura um resumo bem-humorado de sua trajetória – que ele próprio reconhece já ser de conhecimento geral – e a personalidade jovial, cheia de si e orgulhosa dos próprios poderes que demostra em seu monólogo: “eu salvei um monte de gente, de novo e de novo...”, “a verdade é que eu adoro ser o Homem-Aranha, quem não adoraria!?”; algo que retoma diretamente à personalidade que exibia nos quadrinhos.

Antes dos 5 primeiros minutos, junto com a excelente trilha sonora de Daniel Pemberton, há uma demonstração certeira do humor referencial da obra (nem o infame Homem-Aranha emo de Tobey Maguire escapa), que não poupa as diversas versões do personagem ao longo dos anos e nem sequer os memes do universo pop alavancados pelo retorno de sua popularidade pós anos 2000. É fácil se identificar e rir com essa abordagem rapidamente sem que ela torne menos substancial o desenvolvimento dos personagens principais e nem ao menos o rico universo estabelecido. O que é outro mérito do ótimo roteiro, já que poderíamos facilmente assimilar a história mesmo que ignorássemos seus excepcionais aspectos técnicos. Seguindo o manual, o 1º ato nos apresenta perfeitamente as inseguranças do protagonista, a complexa relação que se estabelece com o pai e com seu tio Aaron (Mahershala Ali) e a riqueza dos conflitos que vão escalando à medida que as coisas se complicam.

Desse modo, é realmente surpreendente como uma animação que tem tanto a trabalhar em apenas 2 horas consegue traçar muito bem o arco da maioria de seus personagens. A jornada do herói tradicional para Miles Morales ganha riqueza com um aspecto intrínseco de seu discurso político sem que este parece panfletário. O mesmo acontece com Gwen Stacy (Hailee Steinfeld), que jamais surge como secundária ou dependente de outro personagem, fora que a possibilidade de um romance jamais é colocada em primeiro plano. Melhor ainda é perceber com o filme não hesita em mostrar os efeitos da vida de herói em um Peter Parker mais velho, com uma barriguinha saliente e em crise no seu relacionamento com Mary Jane (Zoe Kravitz). Mesmo com uma pegada mais descontraída, esse é um filme que se apresenta multidimensional ao abordar os temas de heroísmo, maturidade e inclusão sem deixar de ser uma aventura intensa e muito divertida.

Como se não bastasse tudo isso, ainda nem falamos do que ele tem de melhor: seu espetacular visual. Liderado pelo supervisor de efeitos visuais Danny Dimian, a técnica de animação do longa é uma das mais originais e deslumbrantes dos últimos anos. Na verdade, o correto seria dizer que há uma junção de vários processos e uma visão perspicaz que permite que a narrativa funcione como uma verdadeira experiência dos quadrinhos dentro do cinema. Indo na contramão do que geralmente acontece com a animação estabelecida em 3D (que tende a deixar as os traços suavizados e mais compatíveis com movimentos reais), a opção de misturar com os traços tradicionais de desenho à mão e investir em um frame rate mais baixo leva um aspecto menos “realista” e bem mais estilizado e que remete bem mais à lógica dos quadrinhos. O resultado é (agora sim) a verdadeira experiência de “ler” uma história no cinema como se folheasse as páginas de uma HQ.   

Para isso, não se levou muito a sério o conceito de sutileza – e de forma decididamente acertada. Todas as sequências do filme são banhadas por uma intensidade brilhante de cores muito vivas (mesmo considerando os espectros frios e quentes) e propositalmente um leve grau acima da exposição, o que faz com que o tom geral viaje entre os extremos cromáticos com surpreendente naturalidade. Mas o melhor de tudo isso é que todo esse cuidado contribui diretamente para a narrativa, já que toda essa característica espalhafatosa casa perfeitamente com energia de uma trama repleta de referências, reviravoltas e sequências de ação. Auxiliada, ainda, pela excepcional montagem de Robert Fischer Jr. e a direção do trio Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman, essa sensação constante de uma dinâmica intensa passa pelas diversas telas divididas, planos esteticamente belos e geograficamente precisos, e a presença de elementos típicos dos quadrinhos (como os balões de pensamento) que nunca soam gratuitos ou repetitivos.

Mantendo a unidade visual e dramática, Homem Aranha no Aranhaverso consegue ser ainda mais coerente mesmo quando não tem medo de mesclar humor com um drama bem dosado e nem brincar com a própria lógica que estabeleceu, como acontece com as aparições de outras versões do herói (algumas delas bem absurdas, ainda mais para quem não conhece os quadrinhos): Peni Parker (Kimiko Glenn) e sua característica das animações orientais, o Spider-Ham (John Mulaney) – que é basicamente uma brincadeira com Hanna-Barbera – e o Spider-Man Noir, dublado por um Nicholas Cage certeiro com a proposta sombria do famoso gênero das décadas de 40 e 50; todas elas com seu tempo de tela e abordagem estética. O mesmo vale para a concepção do Rei do Crime, propositalmente com suas formas mais desproporcionais que o fazem um vilão já naturalmente bizarro e assustador; e sem deixar, aliás, de conferir a ele motivações que também se integram organicamente com o restante da história.

Mesmo que você esteja saturado da mesmice dos super-heróis no cinema (confesso que também estou), é inegável que essa é uma das melhores e mais renovadoras obras do subgênero dos últimos anos. Divertida, empolgante, catártica e visualmente espetacular, se soma a mais um acerto do personagem para as telas. Tomara que ela tenha o papel de fazer aqueles já um pouco cansados das mesmas coisas se empolgarem novamente com o próximo super lançamento do mês.

E que abra o caminho para um bom 2019 dos blockbusters.

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