Loucos por Filmes

Loucos por Filmes

Destaques

Últimas

Navegue aqui

Crítica: Creed II

Creed 2 é mais clichê e menos elegante que seu antecessor, mas ainda consegue a façanha de fazer o espectador entrar no ringue e temer pela derrota mesmo depois de 4 décadas de uma bem contada história que se repete.
Creed 2

Quem imaginaria que a saga iniciada por um personagem criado por Sylvester Stalone em 1976 ainda sobreviveria até hoje? Rocky foi uma inspiração que o ator teve após assistir a um combate entre Muhammad Ali e Chuck Wepner, cuja transposição para um roteiro cinematográfico passou pela luta do próprio Stalone para interpretá-lo (o estúdio cogitou astros do calibre de Robert Redford e Burt Reynolds). A aposta deu tão certo que o longa saiu como o grande vencedor do Oscar de 1977, colocando o personagem como um dos mais icônicos esportistas do cinema.

Muitas continuações depois (algumas sofríveis...), o retorno em 2006 com Rocky Balboa parecia ser a despedida definitiva do já velho protagonista prestes a se provar mais uma vez. Mas eis que, em 2015, Ryan Coogler o traz de volta como coadjuvante dando lugar à improvável história do filho de um de seus grandes adversários – e depois amigo –, Apollo Creed (Carl Weathers). A surpresa veio tanto com a eficiência do arco de Adonis quanto à ótima direção de Coogler, resultando num longa nostálgico, mas com a cara de novo e bom recomeço. O sucesso não tardou a produzir a continuação e Creed 2 estreia 4 anos depois continuando a jornada do agora Adonis Creed (Michael B. Jordan) e resgatando mais uma vez o passado da franquia.

Dessa vez, após se tornar conhecido pelo desafio do primeiro longa, ele divide a rotina de lutador profissional sob a tutela de Rocky (Sylvester Stalone) com a vida pessoal junto com Bianca (Tessa Thompson). As coisas iam bem até que Ivan Drago (Dolph Lundgren), antigo adversário de Rocky e responsável pela morte de Apollo (eventos vistos em Rocky 4, de 1985), retorna com um desafio: uma luta entre seu filho Viktor Drago (Florian Munteanu) e Adonis como uma forma de revanche pelo resultado do embate ocorrido há mais de 3 décadas entre ele e Rocky.

Se Creed trata de renovar, porque voltar ao passado? Uma das melhores características do primeiro Rocky era que grande parte da história se dedicava às batalhas internas do protagonista. Por mais clichê que isso soe hoje, o roteiro de Stalone tinha enorme sensibilidade em primeiro construir os conflitos do homem para depois falar sobre o boxeador. O mesmo aconteceu no último longa, quando as dificuldades pessoais de Adonis eram a verdadeira substância por trás de um tradicional filme de esportista. A boa notícia é que o novo roteiro de Stalone e Juel Taylor mantém o foco nas batalhas pessoais ao entrelaçar questionamentos acerca de orgulho, força e insegurança com a grande luta da vez.

Esse é o grande mérito dessa continuação: provocar um turbilhão de emoções fazendo o espectador desejar ainda mais a vitória junto com o protagonista, mesmo que, no fundo, saibamos como tudo provavelmente vai acontecer. Ainda assim, é com certa surpresa, por exemplo, que o longa inicie não com o herói, mas com Viktor e Ivan num lugar que antes pertencia a Rocky. Enquanto Adonis vive a ascensão ao estrelato, os dois russos sobrevivem na quase clandestinidade, procurando reestabelecer a ideia de glória ao país – algo tão estereotipado quando a URSS do filme de 1985.

Mais quadrado que o anterior, esse é um filme que regride um pouco ao apelar mais para a figura de um vilão, ainda que tente ocasionalmente estabelecer alguma profundidade ao relacionamento entre pai e filho (dá para notar o tremendo esforço de Lundgren e Munteanu). Mesmo assim, é notável como a habilidade em manter a ótima química entre Stalone e Michal B. Jordan contribui para que este empolgue e emocione da mesma forma que o anterior. Com um conflito principal baseado em “pelo que você está lutando? ”, como indaga o próprio Rocky, a verdadeira jornada são os obstáculos pessoais de Adonis: a dificuldade em aceitar a derrota e a constante insegurança que envolve tanto a carreira como a vida familiar. Grande mérito disso é a atuação de Jordan, não só na impressionante fisicalidade, mas nas agruras dos momentos de silêncio e nos tropeços arrogantes que surgem da necessidade de “vingança” da morte do pai.

Do outro lado, Sylvester Stalone vive com a mesma familiaridade de sempre o papel de sua carreira. Embora haja um certo exagero em transformar quase todos os seus diálogos em monólogos de pequenas (e grandes) sabedorias, é difícil não se conectar um sujeito que continua projetando a mesma humildade e simplicidade que tinha quando jovem, algo que resgata imediatamente o carinho que temos por ele.  A combinação faz a dupla ser extremamente engajante e é muito fácil torcer por eles a cada desafio e temer por cada obstáculo.

Fora isso, a direção de Steven Caple Jr. não esquece de estruturar sua narrativa sem deixar de colocar as marcas registradas da franquia. Aí se incluem a clássica jornada do herói aplicada aos filmes de esporte (a derrota seguida do renascimento rumo à vitória), as sequências de treinamentos inusitados que viraram obrigatoriedade nos filmes e até a clássica música tema, que aparece mesclada a uma trilha genérica. É tudo que agrada o fã e que está lá para apelar para a nostalgia, mesmo que vez ou outra o diretor traga uma imagem simbolicamente mais interessante – como aquela que traz Ivan Drago diante das famosas escadarias do Museu de Arte da Filadélfia.

Tecnicamente, Caple Jr. se mostra bem menos inspirado do que Ryan Coogler. Não espere ver algo como o excelente plano sequência no primeiro longa, ou mesmo o inevitável impacto da novidade. As cenas de luta não fogem muito de um padrão repetitivo, mas possuem sua parcela de força graças ao preparo dos atores, o que garante que não haja uma necessidade de picotar a ação na montagem. O que ele perde na identidade visual, mantém na força de seus personagens e no tom edificante do arco de seu protagonista.

Creed 2 é mais clichê e menos elegante que seu antecessor, mas ainda consegue a façanha de fazer o espectador entrar no ringue e temer pela derrota mesmo depois de 4 décadas de uma bem contada história que se repete.


Deixe sua opinião:)