Loucos por Filmes

Loucos por Filmes

Destaques

Últimas

Navegue aqui

Crítica: Cafarnaum

O que se ergue como um depoimento sobre os problemas sociais de crianças no Líbano se torna um manifesto por essas crianças.
Cafarnaum

Um depoimento sobre a disfuncionalidade social em um país assolado pela miséria e a distopia que as crianças vivem em detrimento da precariedade alarmante, sob um contexto com questões mais profundas do que a pobreza em massa. Crianças que estampam jornais para expor os problemas do terceiro mundo apenas pelo “mérito” de grandes manchetes, em Cafarnaum, Nadine Labaki retira essas crianças das páginas dos jornais europeus e americanos, e dá voz aos silenciados pela miséria.

A trajetória de Zain (Zain Al Rafeea) é retratada entre sua vida conturbada pela pobreza e pela responsabilidade colocada em seus ombros, e sua prisão e o processo que aplica contra seus pais, costurando a narrativa pura e real de uma criança dentre milhares que perderam ou nunca se encontraram com sua infância.

O depoimento da condição humana dirigida por Nadine Labaki é uma moldura significativa para a realidade de diversas famílias, seja no Líbano ou seja na Nigéria ou em qualquer outro lugar, especialmente diante da atual situação imigratória. A pobreza é apenas a ponta da faca que Labaki enfia na sociedade, com panoramas secos e claustrofóbicos, mas aumentados em tomadas aéreas para escancarar a dimensão que a pobreza tem alcançado, sendo terrivelmente possível imaginar que as tomadas aéreas possam ter sido gravadas em qualquer parte do mundo.

A consciência de Zain é fundamental para ser pontuada como crianças em situações precárias são forçadas a pular a infância e atingir a maturidade adulta precocemente, e principalmente a negligência dos pais para com seus filhos. Questionamentos que são interpretados concretamente e sem oscilações. Atores novatos e amadores que transmitem com veracidade o que está acontecendo neste momento. Os pais agressivos e inconsequentes, a imigrante que luta para dar uma condição de vida melhor para seu filho, as diversas crianças não sendo crianças, etc. Mas, o olhar inocente na imagem dura e determinada de uma criança já adulta que é visto em Zain Al Rafeea é tão sentimental, puro e difícil, quanto Yuya Yagira em Ninguém pode Saber (2004). O alcance emocional do ator de apenas 14 anos – alguns anos mais novo durante as filmagens – é surpreendente, ao mesmo tempo em que é reconhecível o entendimento que essa criança tem de seu personagem já que Zain Al Rafeea é um dos muitos refugiados sírios espalhados pelo mundo.

As camadas de Zain são expostas de acordo com a progressão da história que é impulsionada pelos cortes precisos das cenas no presente centradas no julgamento e as cenas no passado que levam até o julgamento. Conduzido pelo roteiro que instiga o interesse em saber o que levou ao julgamento, sem entregar demais e com desfechos que costuram os percalços de Zain e seu entorno.

Roteiro que se constrói a partir das críticas sociais, partindo da pobreza e guiando até os conceitos de maternidade, que pode ser comparado com Roma e os conceitos lá apresentados. No entanto, com cenários completamente diferentes que expõem os diferentes tipos de mães, Labaki faz questão de exercitar com clareza sua percepção do que é ser mãe e pontuar as duas oposições em Cafarnaum. A mãe de Zain que, com um marido ao seu lado, muitos filhos e atolada na miséria, trata seus filhos apenas como máquinas de trabalho e os ataca constantemente, especialmente Zain que se posiciona contra a agressividade dos pais e os confronta quando surgem rumores de que sua irmã de 10 anos iria ser entregue ao casamento. Em contraponto, Rahil, uma imigrante etíope, sobrevive em condições ainda piores que os pais de Zain, com seu filho pequeno, e mesmo que não possua bens materiais a oferecer para a criança, brinquedos caros, ou até passeios ao ar livre, o amor e a ternura para com seu filho são maiores do que a pobreza que barra sua humanização socialmente. Polos que são apontados e analisados por Nadine Labaki, mas que realmente criticados por Zain e seu inconformismo com o fato de seus pais o terem colocado no mundo.

Cafarnaum trata de temas claros e pungentes, como a pobreza, maternidade e a perda da inocência. Cenário estabelecido que, com a secura do ambiente libanês e a cinematografia crua expondo a sujeira das vidas dessas pessoas e as expressões de Zain como a maior obra de arte, ainda encontra uma brecha para posicionar mais um questionamento no pano de fundo.

O aborto é um ponto de interrogação no mundo, com países já entrando em um acordo sobre sua legalidade ou ilegalidade. Pais que tem consciência de sua situação precária e falta de condição de sustentarem um filho, e, no caso do filme, são mais de cinco. A legalidade do aborto entra em casos como este que impediria pais sem nenhum preparo de conceberem filhos que irão ser deixados à deriva. Em um país religioso como o Líbano, a barreira entre o aborto e a religião é muito grande, o que facilita o aumento de crianças como Zain a tentarem sobreviver à miséria e não ter a oportunidade de serem crianças, já que a preocupação em cumprir a religião fala mais alto do que a preocupação em como essa criança será criada.

Filmes fora de Hollywood e do Reino Unido, mais precisamente filmes não em língua inglesa tendem a prezar mais pela história e como contá-la do que embelezar cenários estonteantes ou efeitos maravilhosos. Cafarnaum se desprende desse padrão e sonoriza os pensamentos de Zain com uma trilha sonora terna e melódica que nos silêncios do personagem, durante acessos de fúria ou na constante busca por identidade, ornamenta a escultura cinematográfica de Labaki.

O que se ergue como um depoimento sobre os problemas sociais de crianças no Líbano se torna um manifesto por essas crianças. Manifesto que é fortemente interpretado por Zain Al Rafeea, mas posto em voz alta, curiosamente, por sua mãe em uma das cenas mais duras e confessionais de uma mãe perdida mentalmente. Nadine Labaki mostra os problemas não reconhecidos com a consciência de não dramatizá-los, e sim problematizá-los. A visão que expressa em sua obra é calculista em compreender o outro e dar voz a ele sem interferir, mas puramente os dirigindo em um relato profundo da diretora e seus atores.


Deixe sua opinião:)