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Crítica: Roma

A obra de arte criada por Alfonso Cuarón é claramente um relato pessoal de alguém que após anos de carreira decide se confessar e se abrir a seu público através da mais pura arte.
Roma

As representações da família em um todo são objetos a serem compreendidos mais do que imaginados, dentre suas diferenças e realidades opostas. Alfonso Cuarón não reconhece isso em lócus à parte dessas realidades, pois retrata em Roma sua família, sua infância. Sem glamour hollywoodiano, sem enfeitar a vida real apenas pelo bem do entretenimento. Seus conceitos de família são concretos e críveis, emoldurando memórias cinematograficamente, como se por um momento fossemos presenteados com a capacidade de entrar na mente de um diretor com veias artísticas na pureza da sua criatividade e intenções sociais, subestimado até certo ponto de sua carreira – certamente devido ao fato de ser mexicano – que segue no ápice junto ao trio mexicano nos últimos anos.

Através do olhar de Cleo (Yalitza Aparicio), empregada de uma família de classe média na Cidade do México, é contado o contexto dessa família e seu cotidiano. Um enredo um tanto simples que agrega mais valores do que puramente percebidos. Sentimental e metafórico, Roma é uma semiautobiografia do crescimento de Alfonso Cuarón na Cidade do México, e além de uma dedicação a sua infância, a metáfora por completo é situada na presença de Cleo e de Sofia (Marina de Tavira), a patroa e mãe de três filhos constantemente cuidados por Cleo.

O tom em preto e branco realça a melancolia e frieza do enredo completamente centrado em Cleo e seus sentimentos silenciados. É claro a sua importância para a família, a sua ligação, mesmo quando insultada por Sofia. Sendo Sofia a mãe, recebendo afeto puro e biologicamente “obrigatório”, a sua presença e ausência são sentidas, subentendida quando se vê apenas lacunas quando esta mãe deveria estar lá, o distanciamento recorrente de famílias abastadas que deixam seus filhos nas mãos das criadas, etc. Marina de Tavira transporta a imagem matriarcal, de patroa, de “madame”, com a força que o roteiro exige, com a dureza expressa no seu rosto que passa ambiguidade em sua bondade com Cleo, nunca sendo claro seu real sentimento para com sua empregada. A sensibilidade com seus filhos, com sua mãe, nada concreto, mas nos pontos de fraqueza que atriz expõe de sua personagem é impossível não acreditar em suas lágrimas, em suas palavras, que te convencem que é apenas um ser humano com seus defeitos. E afinal de contas, Sofia é realmente apenas um ser humano falho, que, com o papel que lhe é dado e forçadamente atribuído pelo marido, carregar o peso de lidar com uma casa inteira abre as frestas que a personagem busca deixar fechadas.

O sentimentalismo é a moldura principal da cinematografia, lisa e limpa, em preto e branco, que incrivelmente constrói obras de arte dentro do filme. Os panoramas, enquadramentos, etc, encontram uma perfeição jamais vista, particularmente dizendo. A simplicidade de imagens da cidade contra o pôr do sol; uma pessoa focada enquanto algo aterrorizante acontece ao fundo; a água puxada para o ralo por Cleo ao início do filme contrastado com sua entrega ao mar, como um símbolo de libertação de seus traumas, com as ondas batendo em Cleo e na família, todos juntos, os lavando dos problemas, memórias, etc.

Libertação metafórica que é interpretada por Yalitza Aparicio de forma crua e reveladora. A capacidade de submergir nos diversos sentimentos de Cleo é além do que poderia ser esperado de uma atriz amadora como Yalitza. A interpretação aparentemente rasa e simples, já que a personagem não possui grandes momentos para se alterar ou aumentar o tom de voz, faz com que a beleza de sua performance carregada pela metáfora e o simbolismo aplicado em Cleo pelo roteiro de Cuarón seja mais profunda do que possa ser descrito em palavras, mas visto em cada olhar perdido de Yalitza Aparicio.

Cleo exibe a crítica à burguesia que depende do trabalho de empregadas para manter a casa, e mais do que isso, para que eduquem e deem carinho a seus filhos. O que é passível de uma breve comparação com o filme de Anna Muylaert, “Que Horas Ela Volta?”. A representação é idêntica e o intuito é bem semelhante, o que os difere, é exatamente o simbolismo.

Roma expressa da maneira mais pura a maternidade em todos os seus pontos, desde conceber até criar, gerações diferentes de mães, além de conceitos do que é ser mãe. Sofia é a mãe biológica de seus filhos, entretanto, quem os cria? Quem os dá amor diariamente? Quem os educa? Quem os valoriza e ensina valores? Cleo é a mãe dessas crianças, assim como várias empregadas domésticas e babás ao redor do mundo que exercem mais o papel de mãe do que as mães biológicas. O que ao mesmo tempo não diminui as mães biológicas, pois, na situação interpretada em Roma, os problemas que são escondidos “embaixo do tapete” para que as crianças não sejam afetadas por eles representa o ser mãe, de proteger seus filhos de qualquer coisa que possa afetá-los de forma ruim. E este é o papel de Sofia, imperfeita, mas o zelo por seus filhos é visível, e, o cuidado – na maior parte do tempo – com Cleo, partilhando essa maternidade com sua subordinada, eleva um tom de sororidade que raramente é visto nesses casos, seja na ficção ou na vida real, sendo uma ligação que na sutileza das atrizes aparenta uma profundidade e apreço belíssimos. Esta sororidade que é passada abandona os clichês de colocá-las em palanques ou realmente expô-las, mas através do cotidiano e percalços pessoais e união consciente que cada uma sente e que compartilham enquanto mães.

A imersão criada por Cuarón se expande das camadas e vai até o lado técnico, com a obra de arte que é a sua cinematografia, junto com a recriação de época, e o mais interessante é a mixagem de som que, em filmes estrangeiros e em filmes que retratam cotidianos, não costumam explorar a sonoridade além de trilhas sonoras. Os silêncios são profundos o suficiente para que cada som reproduzido, desde a água descendo pelo ralo, ou ondas do mar junto ao vento na praia, ou a gritaria de militantes em marcha na rua, se torne a trilha sonora do filme, construindo poesia no monótono e ordinário. Os sons cruzam a narrativa de maneira simples e pungente, atingindo o sensorial além de uma expressão artística que é genuinamente visual.

A obra de arte criada por Alfonso Cuarón é claramente um relato pessoal de alguém que após anos de carreira decide se confessar e se abrir a seu público através da mais pura arte. Dirige, escreve, edita, fotografa e produz Roma, trabalhando em cada aspecto que deixa a produção mais fiel ao ser humano do que qualquer melodrama hollywoodiano ou britânico. A homenagem é sincera, as informações são relevantes e pessoais. Cuarón abre espaço para que o conheçamos profundamente, e a recompensa por isso é o retrato mais emocionante que um amante da sétima arte pode receber.


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