Loucos por Filmes

Loucos por Filmes

Destaques

Últimas

Navegue aqui

Crítica: Bumblebee

Nunca pensei que o próximo filme de uma série tão desgastada poderia ainda render alguma coisa, mas certamente foi bom para os transformers que seu antigo dono tenha resolvido largar a cadeira de diretor e se manter ali quieto na produção, apenas financiando aqueles que ainda podem evitar que sua criação continue sendo usada como argumento para separar qualidade de quantidade.
 Bumblebee

Falar de da franquia Transformers virou uma espécie de piada interna no meio cinéfilo. Sempre que surge a cartada dos impressionantes 4.3 bilhões de dólares somados da receita de todos os filmes, imediatamente o argumento de bilheteria vs qualidade aparece. É o exemplo mais significativo da “batalha” entre público e crítica atualmente no Cinema. Com exceção do 1º, (Transformers, 2007), à medida que as continuações estreavam, mais os veículos especializados batiam nos vícios megalomaníacos de Michael Bay na direção. Dava muito dinheiro, mas a custo de longas inchados, incompreensíveis visualmente e incapazes de despertar um engajamento substancial na sua mitologia desnecessariamente complicada. Agora, pela primeira vez sem seu cineasta original na cadeira criativa, um novo (talvez um reboot em sua essência) capítulo foca no simpático autobot amarelo em uma história de origem que nunca foi almejada por ninguém. Acontece que quando você muda as peças, o jogo é outro, e Bumblebee, surpreendentemente, atinge um resultado melhor que tudo aquilo que seus predecessores jamais conseguiram.

A trama aproveita parte dessa mitologia que já tinha sido construída anteriormente e parte da fuga dos autobots da destruição de seu planeta natal, Cybertron. Obrigado a se separar do restante, B-127 é designado para a Terra, onde acaba caindo nos arredores de São Francisco. Disfarçado de fusca em um ferro velho, ele é encontrado pela jovem Charlie Watson (Hailee Steinfeld), que acaba de fazer aniversário e resolve ficar com o “novo” veículo. Ainda se recuperando emocionalmente da morte do pai, ela encontra consolo na improvável amizade com o forasteiro. Só que as coisas começam a mudar quando dois decepticons descobrem a localização do rival e iniciam uma caça para exterminar o que restou da resistência dos autobots.

Já de início, fica claro que essa nova história tomou a melhor decisão que poderia para se livrar do desgaste da franquia: deixar a grandiloquência vazia de lado e investir numa aventura mais comedida e descompromissada. Não parecia que ia ser assim se nossa aposta se baseasse no prólogo, onde todo o fantasma de Michael Bay paira sobre os diálogos ruins, a tentativa de dar um tom épico a uma guerra desinteressante e aquela insistência numa austeridade que não se sustenta. Felizmente, o foco deixa de ser o espaço e se concentra no pequeno arco de Charlie e Bumblebee; especialmente na relação entre os dois – e já para constatar o sucesso, ela consegue ser mais significativa do que qualquer outra interação entre uma enormidade de personagens aborrecidos dos outros 5 filmes da série.

Para entrar nesse mérito, é imprescindível destacar os dois elementos principais que ajudam a obra funcionar positivamente: o carisma de Hailee Steinfeld e a nostalgia dos anos 80. Pois é, apelar para a mítica da cultura pop dessa época parece ser a mais recorrente arma para incrementar qualquer gênero (foi assim nos recentes Stranger Things, Summer of 84 e It – A Coisa). As fitas cassetes, os televisores de tubo, The Smiths e o visual estão todos lá e ajudam a dar um aspecto agradável que busca inspiração no cada vez mais referenciado John Hughes – não à toa, Clube dos Cinco é novamente usado como o coringa na hora de garantir uma recompensa sentimental. Ninguém resiste a um saudosismo desse tipo, não é!?

No outro lado, há uma atriz talentosa, que já vinha mostrando segurança desde Bravura Indômita (2010), Mesmo se Nada Der Certo (2014) e, principalmente, Quase 18 (2016). O clima da trilha sonora de canções icônicas – e ainda incorporadas na comunicação de Bublebee – mais a pegada numa aventura aos moldes de E.T – O Extraterreste e O Gigante de Ferro garantem um tom muito mais agradável do que se poderia supor baseado no histórico da série. Se você se lembrou da Sessão da Tarde com um desse exemplos, é porque o longa parece justamente pronto para figurar como um futuro bom representante da lista. Talvez não fosse a época ou a protagonista, o arco da amizade entre Charlie e o robô poderia soar enfadonho e melodramático demais, mas, apesar de não fugir muito dos clichês, o roteiro de Christina Hodson consegue ser eficiente em despertar finalmente uma simpatia pelos personagens que parecia impossível dado o que já presenciamos nos últimos 10 anos desse universo.

É preciso dizer que nem tudo funciona assim tão bem fora desse núcleo específico. Se a protagonista ganha força na pele de Steinfeld e uma trajetória eficiente no roteiro, o mesmo não pode ser dito da maioria dos demais coadjuvantes. Apesar de terem escolhido John Cena para o papel do agente Burns como forma de incorporá-lo como o brutamontes bondoso, é decepcionante que não tenham aproveitado a oportunidade para inseri-lo mais na trama. Ele aparece pouco, seus conflitos são superficiais e tudo se resolve rápido demais. E como se não confiasse na comprovada força da personagem feminina sozinha, Hodson inclui um potencial par romântico, Memo, interpretado por Jorge Lendeborg Jr., que pouco tem a fazer num papel dispensável. Até tem um resquício de química com a parceira, mas sua participação se resume a piadinhas deslocadas na trama. Já o humor, de forma também surpreendente, encontra seu lugar nas interações entre Charlie e Bumblebee, além de funcionar também com a família Watson, formada pela mãe, Sally (Pamela Adlon), o padrasto Ron (Stephen Schneider) e o irmão mais novo, Ottis (Jason Drucker) – que é justamente o contrário do que ocorria com os insuportáveis pais de Sam nos longas anteriores.

Para um filme que tem como premissa a existência de um planeta habitado por robôs inteligentes, tudo que vem de lá continua desinteressante. Sempre que ele resolve explicar algo relativo à guerra entre autobots e decepticons (há uma boa piada com a obviedade do nome), os diálogos se tornam mecânicos (com o perdão do trocadilho) e expositivos. Felizmente, isso acontece pouco e o diretor Travis Knight (do ótimo Kubo e as Cordas Mágicas) prefere manter sua narrativa mais contida. Nesse ponto, é impossível não compará-lo com Michael Bay e é reconfortante notar que os exageros no tom, no patriotismo, nas objetificações sexuais, nos travellings circulares, nos contra-plongées afetados e na montagem caótica dão lugar a uma condução muito mais equilibrada.

Em termos de ação, Bumblebee não faz nada de extraordinário. Do contrário, suas sequências mais dinâmicas são até simples e sem muita inventividade, mas isso não afeta tanto o resultado, já que o foco se mantém na dupla principal. O design de produção continua a não ser lá muito criativo na concepção dos robôs. Todos eles se esforçam para serem diferentes uns dos outros, mas, no fim das contas, é sempre confuso tentar separá-los por “time” sempre que um confronto explode na tela. Em compensação, o CGI mantém a competência da franquia, só que que dessa vez a escala menor permite que absorvamos mais. É o famoso “menos é mais” que se prova a escolha correta.

Nunca pensei que o próximo filme de uma série tão desgastada poderia ainda render alguma coisa, mas certamente foi bom para os transformers que seu antigo dono tenha resolvido largar a cadeira de diretor e se manter ali quieto na produção, apenas financiando aqueles que ainda podem evitar que sua criação continue sendo usada como argumento para separar qualidade de quantidade.



Deixe sua opinião:)

Mostrar comentários 💬