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Premiada no Festival Curta Cinema 2018, Thais Fernandes fala sobre seu novo filme

Thais Fernandes é a ganhadora de dois dentre os mais importantes prêmios da noite com Um Corpo Feminino: o Prêmio do Júri Popular na modalidade Competição Nacional e o Prêmio Canal Brasil de Curtas.
Thais Fernandes

A noite desta quarta-feira (31/10) marcou o encerramento da edição 2018 do Festival Curta Cinema – Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro –, dedicado à exibição e à promoção de obras audiovisuais de curta-metragem. A programação deste ano aconteceu de 24 a 31 de outubro em diversas salas de cinema do Rio de Janeiro.

A noite de encerramento do Festival constou de uma sessão especial de três curtas-metragens seguida pela cerimônia de premiação. Ao final do evento, nossa equipe entrevistou Thais Fernandes, ganhadora de dois dentre os mais importantes prêmios da noite com Um Corpo Feminino: o Prêmio do Júri Popular na modalidade Competição Nacional e o Prêmio Canal Brasil de Curtas.

LOUCOS POR FILMES: Você pode nos contar sobre o que é o seu curta Um Corpo Feminino?

THAIS FERNANDES: Um Corpo Feminino é um documentário. São mulheres que chegam em um espaço, sentam e conversam comigo sobre ser mulher e ter um corpo feminino. Eu uso o dispositivo do corpo para tentar entender isso, o que é ser mulher nesse nosso contexto.

Eu sempre digo também, acho importante falar, que eu nunca quis, desde o princípio, fazer um filme-panfleto. Não que eu ache que não deve ser feito. Eu acho que sim, que os filmes-panfleto são essenciais. Mas essa minha escolha foi justamente para me deslocar do meu espaço. Eu sou uma mulher branca de classe média. É muito fácil falar sobre ser feminista e empoderada onde eu estou. E eu queria justamente ouvir o discurso que não era o meu, então foi um grande exercício de também entender o empoderamento fora do meu contexto de fala. 

Ele (Um Corpo Feminino) é um documentário que faz uma pergunta que não tem uma resposta. Estou dando spoiler (risos)! É isso, não tem como você dizer o que é um corpo feminino e o que é ser mulher. Não existe uma forma ser. O filme é uma busca, era algo que me incomodava. Eu queria me entender feminista e achava que eu estava com um entendimento muito raso do que era dizer isso. Agora eu tenho menos respostas ainda, mas eu acho uma grande coisa. Eu sou professora também e eu sempre digo para os meus alunos: “Se vocês sabem o que vocês querem dizer com o filme, não façam. Façam um artigo então, não um filme”.

LOUCOS POR FILMES: Como foi o processo de criação desse curta?

THAIS FERNANDES: A minha ideia inicial era encontrar essas mulheres em espaços que nos moldam, ou seja, entrevistar meninas em escolas e senhoras em asilos – respectivamente, a instituição que nos molda e a instituição que nos receber depois que não servimos mais. Porém, ao falar de corpo, eu não podia deixar de entrevistar as mulheres trans. Então, essa premissa caiu por terra quando eu me dei conta de que eu não podia fazer um filme sem mulheres trans, porque elas não estão em nenhum desses espaços: primeiro, porque nas escolas, elas ainda são muito jovens, ainda estão se descobrindo e muito dificilmente falariam sobre isso; segundo, porque elas não chegam aos asilos devido à violência. 

Com isso, a premissa não era mais aquela. Acabei seguindo nos lugares propostos (nas escolas e nos asilos), mas as mulheres trans foram encontradas de outras formas, procurando quem estivesse a fim de falar sobre o tema. Como o curta foi feito em Porto Alegre, eu fui a uma ONG que trabalha em prol da visibilidade LGBT para buscar possibilidade de contato com mulheres trans mais velhas. Quanto às trans mais jovens, eu apresentei o projeto para a coordenadora do programa de redesignação de sexo que existe no Hospital de Clínicas de Porto Alegre para ela fazer a mediação com as pessoas que fazem parte do programa, abrindo espaço para que as mulheres que quisessem participar entrassem em contato comigo.

LOUCOS POR FILMES: Tendo em vista o atual panorama político do nosso país, mas, em contrapartida, a produção cada vez mais efervescente do cinema brasileiro, quais são as suas expectativas em relação à produção de cinema no Brasil daqui em diante?

THAIS FERNANDES: Eu me incomodo com o discurso derrotista. Na verdade, nunca foi fácil fazer o que nós fizemos. Não é fácil.

Talvez, a vaca tenha ido pro brejo (com o perdão da expressão) em alguns departamentos. Talvez, a partir de agora, tenhamos muito mais de dificuldade de conseguir incentivo público, o que já não era fácil e provavelmente, ficará um pouco mais difícil.

Eu acho que agora é a hora da resistência real. Uma coisa é dizermos: “O cinema é resistência”. Mas ainda existem editais e tudo mais. Agora é a guerrilha mesmo. Acho que vai ser bem difícil. Não estou eximindo essa realidade ou querendo dizer que estamos exagerando. Acho que será difícil, mas eu acho que o discurso deve ser: “Será difícil, mas iremos peitar”. 

Como vai ser? Não sei. Mas eu estou indo com essa energia, estou indo para a guerra.


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