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Crítica: Os Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro

No fim das contas, Os Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro se parece justamente com vários canais do Youtube: até pode parecer interessante no começo, mas logo se mostra mais um sem muito conteúdo.
Os Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro

Cada geração tem os heróis que lhe convém. Ou ao menos a imagem projetada pela cultura pop em cima de algo que represente o atual. A mistura do horror e da comédia no cinema rende obras inesperadamente divertidas e ela continua a sobrevier agora dentro da lógica dos anos 2010 – que, convenhamos, não é diferente em seus temas e histórias, mas apenas no fato de que dialoga com a geração que nasceu conectada pela Internet. Esses heróis, além de já serem os nerds, ou os losers, passam por arcos semelhantes, mas se comunicando com a linguagem de hoje, como é o caso de Os Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro.

O título já é uma referência da referência ao juntar “exterminadores”, como algo que já remete a alguns tipos específicos do cinema, com uma dessas brincadeiras de escola que jura que virou lenda urbana (não é para tanto). Mas a proposta é justamente a graça da correspondência de algo familiar ao público brasileiro sendo contado com elementos conhecidos do cinema. Para isso, Danilo Gentilli e parte de sua turma de seu popular talk show, The Noite, colaboram mais uma vez com o diretor Fabrício Bittar (Como se Tornar o Pior Aluno da Escola) para enveredar seu tipo de humor característico em um gênero escasso (para o Brasil) nas grandes salas de exibição.

Na trama, Jack (Gentilli), Fred (Léo Lins), Túlio (Murilo Couto) e Caroline (Dani Calabresa) são um grupo de youtubers que possuem um canal na internet onde supostamente caçam seres sobrenaturais em diversos locais também supostamente assombrados (algo bem na linha dos diversos programas de TV com a mesma temática). Claramente sensacionalistas, eles amargam a falta de inscritos e likes, além de trolls que insistem em evidenciar a óbvia falta de credibilidade dos vídeos (veja quantos termos atuais). Tudo pode mudar quando surge a oportunidade de investigar o caso da loira do banheiro, uma entidade que está aterrorizando uma escola e seus alunos. O diretor, Nogueira (Sikêra Júnior em participação surpreendentemente divertida), contrata o grupo para que o ajudem a melhorar a imagem da escola, porém as coisas desandam inesperadamente quando eles percebem que não se trata de um hoax ou uma fake news (veja aí os termos, novamente), e sim de genuíno caso de assombração.

Você pode até pensar que o filme tem o terror como abordagem principal pelos trailers e imagens de divulgação, mas o que realmente fica evidente é que tudo é uma brincadeira com fantasmas, gore e comédia, que fica no meio da seriedade do terror tradicional e da completa sátira de um Todo Mundo em Pânico. Sendo assim, facilita analisar o longa sob os dois aspectos, mesmo que teoricamente tentem se complementar. Aí é aparece uma balança que oscila violentamente dependendo do que você mais levará em conta como espectador. Mas o fato é que esse desequilíbrio mostra que há duas abordagens ocorrendo e elas não parecem ter sido preparadas para funcionar uma com a outra.

Do ponto de vista de sangue, tripas e sustos, é preciso reconhecer que o trabalho de Bittar tem suas qualidades. Embora ainda não tenha tentado nem um pouco sair dos clichês do gênero, há competência visual no trabalho de design de produção, maquiagem e eventualmente de câmera. Não há criação de suspense ou sequer uma grande preocupação com uma atmosfera característica do terror tradicional (não é a proposta), mas há o clichê sendo utilizado com alguma inspiração em alguns sustos que funcionam e na caracterização da própria loira do banheiro. São momentos pontuais, mas que possuem a sua relevância tanto dentro da proposta narrativa quanto do ponto de vista do gênero dentro do cenário da produção nacional.

Além disso, há puramente o aspecto visual e, nesse ponto, Glauce Queiroz (Arte) e Denise Borro (Maquiagem) conseguem contribuir em grande parte para a diversão descompromissada de quem gosta do estilo, não só pela própria estética, mas pela mistura com a comédia absurda que justifica toda o tom do filme. Assim, não será surpresa se várias sequências da obra lembrarem bastante a saga de Ash Williams em Evil Dead. Como o próprio diretor afirma em entrevistas, a franquia iniciada por Sam Raimi é o exemplo perfeito do que se tentou reproduzir aqui: colocar os “heróis” em situações desesperadoras e absurdas, mas sem nunca realmente atravessar para a seriedade, sempre mantendo o humor como característica principal.

O problema é que lá esse humor se misturava organicamente com a narrativa. Já o roteiro de Gentilli e Bittar é o grande problema do filme. Se ocasionalmente funciona o horror, a comédia vai por água a baixo e não consegue arrancar risadas de ninguém pelo evidente esforço de tentar fazer a lógica das piadas de observação (originárias do universo do stand up comedy) casar com a lógica cinematográfica. É como se todas as piadas do longa tivessem sido retiradas de um show de comédia e colocadas para funcionar num contexto que sempre obriga que a narrativa se interrompa para que elas possam ser contadas. Isso fica bem evidente com o personagem de Léo Lins, que é basicamente o próprio humorista fazendo suas observações ácidas, mas não como um personagem, e sim como um artifício que constantemente interrompe o ritmo no meio de uma cena para basicamente fazer o que faz em cima do palco – e não é relevante aqui o julgamento se isso funciona ou não em seu próprio universo, mas sim o fato do retirar qualquer senso de caracterização mínima de personagem.

O mesmo acontece com Danill Gentilli, que mais uma vez usa um roteiro para falar de si mesmo e para se colocar constantemente como um perseguido pelo politicamente correto (basta ficar atento à forma como o arco da própria vilã do e seu personagem é construído). E novamente, se ele é ou não, não faz diferença, mas a forma como mais uma vez o texto obriga a narrativa a “piscar” para o espectador tempo todo quando Jack basicamente olha para o público dizendo: “aprenda, você nunca vai agradar todo mundo”. Aliás, a mania que a obra insiste em investir nos comentários de si mesma fica rapidamente repetitiva e óbvia. Na segunda vez que alguém fala “se isso fosse um filme de terror...”, para em seguida uma piada referenciar o próprio clichê, a coisa já fica telegrafada. Nas outras várias vezes que o mesmo acontece, a metalinguagem passa a virar uma autoindulgência que acredita ser esperta por apontar o óbvio – nesse caso, note como o fato do personagem de Antônio Tabet reconhecer que não tem função não muda o fato de que sua falta de função continua prejudicando o longa (não seria se fosse engraçado, mas não é).

O fato de praticamente todos do elenco principal não serem bons atores para qualquer tipo de exigência mais dramática facilita ainda mais esse descolamento entre cinema e plataforma para piadas isoladas. Dani Calabresa costuma ter bastante timing cômico, mas aqui sua participação é bastante reduzida. Gentilli e Lins são eles mesmos contando suas piadas da mesmíssima forma que fazem na televisão. Murilo Couto parece ter um pouquinho mais de “personagem” em sua tentativa de ser o dispositivo que pede empatia do público, por isso até suas piadas parecem ser mais naturais dentro da narrativa.

O resultado é que tudo é uma grande brincadeira dentro desse horror de vísceras, secreções e nojeira em geral, mas sem a substância que a torne um filme mais transgressor, principalmente no humor. Embora acredite estar desafiando o público, está apenas reproduzindo um besteirol sem muita inspiração e exageradamente dependente da persona de seus intérpretes.

No fim das contas, Os Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro se parece justamente com vários canais do Youtube: até pode parecer interessante no começo, mas logo se mostra mais um sem muito conteúdo.

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