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Crítica: Infiltrado na Klan

Infiltrado na Klan é o grito de resistência contra os opressores mundo afora.
 Infiltrado na Klan

A politicagem de Spike Lee em Infiltrado na Klan não só relembra seus melhores momentos como cineasta, como em Malcolm X, mas reconhece a atualidade do mundo e os problemas recorrentes que são acobertados pela autoridade. Enfatizando o racismo impregnado na sociedade americana dos anos 70, a partir da visão de um policial negro novo na delegacia que emplaca uma investigação na Ku Klux Klan infiltrando um dos agentes dentro do grupo. História verídica publicada pelo então policial Ron Stallworth, interpretado por John David Washington, com um tema importante historicamente e infelizmente atemporal.

O toque de humor na história não desorganiza a revolta latente em Spike Lee diante desta realidade, principalmente na violência policial contra negros. Os Panteras Negras, a Ku Klux Klan, policiais sem ética profissional, é este o quadro que Lee pinta e monta em cima de imagens contemporâneas como discursos de Donald Trump ou assédios policiais, ou em imagens sobrepostas como os rostos dos homens e das mulheres negros durante discursos de empoderamento, exaltando seus cabelos black power e crespos com orgulho, os olhares de indignação ao mesmo tempo em que transmitem a raiva, a determinação, o medo, a fome por revolução em seus olhares. A direção concreta e visionária – após 30 anos de carreira, Spike Lee perdura em seu status visionário – enfatiza os personagens, suas ações e pensamentos, mais do que o real cenário em que são inseridos. Cenário e figurino que, diga-se de passagem, não poderiam ser melhor recriados, com as discotecas, cores vistosas, paleta da cinematografia vibrante e forte, agindo a favor do tempo retratado e como um belo ambiente para uma história tão relevante ao ser humano.

Baseado em um livro e uma história verídica, as memórias dos filmes na era da discoteca são homenageadas em todas as formas e contextos possíveis, regido pela trilha sonora de Terence Blanchard, tipicamente da época retratada, com momentos de tensão ou de ação de Stallworth evocando a musicalidade funk e soul jazz do blaxploitation.

A personificação do afrontamento contra a sociedade racista é favorecida pela performance de John David Washington, que, rodeado de injúrias raciais e problematização com sua função de policial, ainda é mantém o resquício de humor em meio ao desrespeito diário. Consciente, firme, a distância entre Stallworth e Washington é indescritível, pois ela praticamente não existe, sendo um como parte do todo que representa o personagem que é policial e negro na década de 70 sob o racismo escancarado e o ator negro em uma indústria racista sob o governo de um branco supremacista.

No panorama conturbado da época, os toques engraçados de Spike Lee costuram a sua narrativa com uma das melhores duplas dos últimos anos no cinema. John David Washington é o pilar de consciência da história, de onde o humor e o drama são extraídos, a exposição de atos racistas, e tudo acompanhado por Adam Driver como Flip Zimmerman, com seu jeito peculiar de ser normalmente, envolvido nos maiores momentos de tensão e mantendo o controle completamente, mas principalmente representando outra realidade, pois mesmo sendo branco e se enquadrando no visual privilegiado, é judeu. Engraçados, sarcásticos, o apoio de um para o outro é fluido. As piadas funcionam e o consentimento das duas situações é mútuo. O relacionamento dos dois transmite verdade e companheirismo como há muito não era visto nos cinemas.

Dentro do roteiro compacto em sua mensagem e no que quer dizer e de que forma quer dizer, existe a tentativa de colocar um romance entre Stallworth e Patrice (Laura Harrier), a presidente da união negra estudantil, que não vai para frente e nem vai para trás, se estabiliza entre um romance e “humanização” dos Panteras Negras, tidos constantemente como militantes frios e presos na bolha político – o que é um problema estrutural da sociedade não compreender este pensamento; a não percepção dos privilégios junto a falta de reconhecimento do lugar de fala –, enquanto este romance fica detido em clichês básicos de amenização da narrativa e levemente conveniente.

Da mesma forma, um dos policiais serve apenas como caricatura dos típicos policiais racistas e autoritários, destilando injúrias e ataques raciais contra a comunidade negra e contra o próprio Stallworth, sendo nada mais do que uma imagem passante do homem branco racista, sem propósito aparente, ficando caricato e vago em um roteiro tão compacto como esse. O que ocorre parcialmente com os membros destacados da KKK que são os reais vilões, porém, mesmo que zombados por Spike Lee durante o filme inteiro, nunca transmitem a ameaça deles mesmos, mas a ameaça já conhecida do que é a Ku Klux Klan.

O mais interessante é que o humor aplicado está em cima dos membros da KKK, caçoando dos membros e a organização em si como um recado pessoal de Spike Lee aos preconceituosos de plantão. Não há maior afronta contra a supremacia branca do que um negro tirando sarro dos racistas.

Essa relevância para os dias de hoje vem das manifestações neonazistas ocorridas no ano passado nos EUA, e sua interferência social se encaixa em cada nação onde a opressão é presente. Spike Lee reconhece e exalta o trabalho de Stallworth em sua obra, enquanto coloca qualquer minoria como força maior que o Estado. Stallworth representa em Infiltrado na Klan mais do que o homem negro lutando por igualdade em meados do século XX e instigando uma investigação em um dos maiores grupos segregacionista do mundo. Este homem negro e defensor da igualdade representa todos os negros, LGBTQ+, mulheres, imigrantes, indígenas, etc, que dentro de suas realidades distintas resistem juntamente sob os sistemas que tentam diminuí-los diariamente. Infiltrado na Klan é o grito de resistência contra os opressores mundo afora.

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