Loucos por Filmes

Loucos por Filmes

Destaques

Últimas

Navegue aqui

Crítica: Chacrinha - O Velho Guerreiro

Ao contrário de Bingo: O Rei das Manhãs (2017), que usava a estrutura ascensão-queda-redenção para entender as motivações e a psicologia do artista, Chacrinha: O Velho Guerreiro não está interessado em estudar seu personagem-título, fazer um comentário acerca da comunicação de massa nacional ou em estabelecer uma premissa paradoxal.
Chacrinha: O Velho Guerreiro

As cinebiografias constituem um subgênero cinematográfico bastante fértil e de possibilidade vária, já que tanto podem ser contadas por um prisma mais dramático ou cômico, ou algo que se encaixe neste meio termo (o melhor exemplo que me vem à cabeça é o excepcional telefilme A Morte e Vida de Peter Sellers). Apesar dessa oportunidade de variedade tonal, muitos cineastas não se conectam profundamente com o material e não lançam um olhar provocativo ou reflexivo em torno da figura ou fato em que se baseiam, recorrendo a um maniqueísmo prejudicial, seja enaltecedor ou depreciativo.

Aproveitando a onda de sucesso oriunda de um musical teatral e de um programa de TV, o cineasta brasileiro Andrucha Waddington comete justamente esse pequeno pecadilho em Chacrinha: O Velho Guerreiro (Idem, 2018): faz um longa-metragem sem nuances psicológicas e não parece estar construindo um personagem, mas, sim, passando por momentos da vida da figura midiática, não do homem.

Parte significativa desse demérito é fruto de um texto apressado e superficial, escrito a seis mãos por Cláudio Paiva, Carla Faour e Júlia Spadaccini. O trio aparenta tantas preocupações em condensar o máximo possível de fatos históricos e da vida pessoal do protagonista que se torna quase inviável estabelecer qualquer relação com as situações apresentadas: Chacrinha se casa, tem uma má relação com a mãe, transforma-se em um workaholic, comete um suposto adultério, um de seus três filhos sofre um terrível acidente e, já sênior, passa os últimos anos em turnês decadentes. A progressão célere dessas passagens não oferece nenhum material que afete o personagem decisivamente ou gere uma empatia, um apego do público às “peças de tabuleiro”. Há, pelo menos, sessenta anos discorridos em tela, mas as elipses abruptas e descoordenadas não ajudam a tornar a experiência mais fluida. Pelo contrário: causa certo estranhamento pessoal, uma sensação de desorientação temporal, sanada apenas pela intuição do espectador.

A correria desmedida do roteiro afeta até mesmo a edição. Um exemplo: em uma cena, os filhos do personagem central especulam a respeito do provável caso extraconjugal do pai com Clara Nunes (a sempre excelente Laila Garin); na cena seguinte, vemos o enterro da mãe de Chacrinha; adiante, já estamos na gravação do programa, com muita cor e fanfarra. Não há elemento de conexão entre esses acontecimentos. Apenas fazem parte da trajetória do biografado e, por isso, merecem ser destacados. No entanto, um pequeno acréscimo seria suficiente para concatenar e urdir melhor o enredo. Para piorar o panorama, os roteiristas insistem em fazer seus personagens periféricos proferirem falas proféticas ao protagonista, na linha de “Você é diferente” ou “O rádio tá ficando pequeno pra você”, diálogos capazes de informar o mais desavisado dos espectadores sobre quem é a figura central da narrativa.

Entretanto, há bons predicados que fazem a jornada valer a pena. O design de produção de Rafael Targat é comprometido com fidelidade histórica, mas também é hábil ao empregar formas e cores vivazes quando necessitado, assim como os figurinos de Marcelo Pies passam sensação semelhante de filigrana fantasiosa. Ademais, as aparições ligeiras de grandes nomes do cenário musical brasileiro são bastante divertidas e algumas chegam a ganhar planos mais longos, quase estudados. O elenco também é competente e está bem caracterizado o bastante para conquistar a plateia, em especial, Stepan Nercessian, que consegue entregar boas tiradas de humor seco e segura bem seus arroubos mais dramáticos.

Ao contrário de Bingo: O Rei das Manhãs (2017), que usava a estrutura ascensão-queda-redenção para entender as motivações e a psicologia do artista, Chacrinha: O Velho Guerreiro não está interessado em estudar seu personagem-título, fazer um comentário acerca da comunicação de massa nacional ou em estabelecer uma premissa paradoxal. É apenas uma cinebiografia benfeita, de boa procedência, porém, sem estofo para render discussões ou provocações que instiguem a audiência. Ironicamente, é um filme oposto ao espírito externo daquele que biografa.


Deixe sua opinião:)