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Crítica: Animais Fantásticos - Os Crimes de Grindelwald

Ainda há mais méritos do que deméritos no Wizarding World, mas caso os vindouros três últimos capítulos sigam a tendência apresentada neste aqui, infelizmente, o saldo final deixará de ser encantador para se tornar apenas operante, um adjetivo que é, tratando-se de uma série como esta, uma blasfêmia homérica.
Animais Fantásticos - Os Crimes de Grindelwald

A esta altura do campeonato, conhece-se bem o poder cultural exercido pela franquia Harry Potter. O sucesso é merecido: o universo mágico no qual a história se ambienta é capaz de suscitar várias interpretações em cada leitor, e os personagens são carismáticos o suficiente para que nos interessemos afetivamente por suas jornadas, por menor que sejam. Entretanto, o sustentáculo de toda a série, tanto na Literatura quanto no Cinema, é a imaginação borbulhante da escritora inglesa J.K Rowling. Não importa se é apenas um pormenor, será tratado com o devido esmero e detalhamento.
É a criatividade assombrosa e a atenção aos detalhes realizada pela autora que mantém Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald (Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald, 2018) de pé, mesmo quando o longa-metragem claudica consideravelmente. Contudo, se o traquejo de romancista de Rowling continua irretocável, o mesmo não pode ser dito de suas habilidades como roteirista, que representa o ponto baixo da cinessérie como um todo.

Desta vez, Newt Scamander (Eddie Redmayne) está proibido de fazer viagens internacionais devido aos incidentes ocorridos em Nova York no filme anterior. Uma oportunidade de trégua é oferecida a ele pelo Ministério da Magia, a qual recusa prontamente. O jovem continua suas investigações sob a tutela de Alvo Dumbledore (Jude Law, uma excelente adição), que tem grande interesse em colocar um fim ao reinado de terror de Gellert Grindelwald (Johnny Depp, optimizado) antes que sequer comece. Nesta aventura, Newt reencontra o divertido padeiro Jacob Kowalski (Dan Fogler) e a auror Tina Goldstein (Katherine Waterston), por quem passou a nutrir consideráveis sentimentos.

A grande deficiência do texto é a falta de foco. Há muita gente em cena e muitas tramas paralelas que aparecem apenas para ilustrar o quanto serão importantes nas continuações, além de uma quantidade exponencial de diálogos expositivos, como nunca visto até então. Newt, Credence (Ezra Miller), Leta (Zoë Kravitz, que até ganha uma digressão temporal no meio da projeção), Queenie (Allison Sudol) e Grindelwald disputam o protagonismo da trama central em vários instantes, o que questiona o peso de Newt e dos personagens introduzidos no longa anterior (agora, Tina e Jacob só são necessários em uma ou outra cena, por exemplo). Este problema é agravado na segunda e terceira metades da narrativa, cujo escopo abrange tantas tramas e pontos de vista que o resultado final passa a ser marcado por uma latente falta de personalidade, além de desviar a atenção daqueles por quem passamos a nos importar previamente (Newt, Tina, Queenie e Jacob). Mesmo a jornada de Credence, uma peça aparentemente fulcral para o desdobramento geral do enredo, parece diluída, menos vital do que realmente é, consequentemente, não gerando a empatia e o impacto necessários e ambicionados.

Contudo, por mais que esta estrutura truncada ocasione problemas de ritmo, Rowling compensa (ou tenta, dependendo do gosto de cada espectador) com uma profusão significativa de referências ao universo que construiu, gerando reações orgásticas nos fãs mais aguerridos. Neste sentido, esta continuação parece indicar que a franquia se encaminhará em uma direção reverencial, pregando essencialmente para convertidos. Mais ainda: ao posicionar-se para um caminho em que a cronologia de um universo se aproximará ou interferirá na outra, a criadora toma uma atitude parecida com a de Peter Jackson na trilogia O Hobbit ao criar um suspense baseado em homenagens e hipertextos já conhecidos para uma história cujo destino já é notório. Resta especular se esta escolha melhorará ou maculará toda a conjuntura solidificada até aqui.

Novamente, a autora também mostra que seus subtextos políticos e históricos são bastante sofisticados. O perigo de Grindelwald, na década de 1930, assemelha-se ao representado pela ascensão do nazismo naquele mesmo período, assim como o fato de a árvore genealógica dos Lestrange registrar unicamente os nomes dos homens critica as tradições patriarcais históricas e vigentes. Da mesma forma, criaturas antropomórficas servem como representações alegóricas de minorias incompreendidas e vítimas do escárnio de uma maioria ruidosa, ao passo que os no-majs passam a simbolizar os imigrantes e miseráveis. Também há espaço para uma crítica sutil a uma fase comportamental contemporânea da negação do conhecimento comprovado e da suavização de preconceitos danosos, tratados como se fossem perfeitamente justificáveis e toleráveis.

Contando novamente com o fascinante design de produção de Stuart Craig (forte candidato a esta categoria no Oscar), com os figurinos refinados de Colleen Atwood e com uma ótima trilha sonora composta por James Newton Howard, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald se arregimenta graças a esse apuro técnico e aos simbolismos desenvolvidos pela autora na criação do enredo. Todavia, os passos dados nesta caminhada foram taciturnos e inadvertidamente ligeiros e aleatórios. Ainda há mais méritos do que deméritos no Wizarding World, mas caso os vindouros três últimos capítulos sigam a tendência apresentada neste aqui, infelizmente, o saldo final deixará de ser encantador para se tornar apenas operante, um adjetivo que é, tratando-se de uma série como esta, uma blasfêmia homérica.




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