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Crítica #2: Millennium - A Garota na Teia de Aranha

Millenium: A Garota na Teia de Aranha é uma quase antítese de sua fonte original, tanto na literatura quanto no cinema.
Millennium - A Garota na Teia de Aranha

A notoriedade conquistada nos mercados americanos pela trilogia literária sueca Millenium é bastante curiosa, afinal, mesmo se encaixando em um filão mainstream consagrado (thriller investigativo), a essência de sua narrativa é completamente dissonante do perfil internacional: as tramas são labirínticas, os personagens são sádicos ou emocionalmente empedernidos e não há glamourização da violência.

Porém, a razão deste chamariz imprevisto é a protagonista da série, que atende pelo nome de Lisbeth Salander. Hacker cyber punk, bissexual, impassível e inacessível, Lisbeth castiga homens poderosos que violentam mulheres, sejam suas esposas, filhas, irmãs, enteadas ou subordinadas. Conhecemos sua trajetória aos poucos, constatando o porquê de seu temperamento errático e pragmatismo interpessoal. Contudo, uma das proezas de Stieg Larsson (também de seus adaptadores e discípulos) foi a de construir um paradoxo: quanto mais se sabe sobre Lisbeth, menos se tem certeza sobre qual será seu passo posterior.

Este também é justamente o ponto forte de Millenium: A Garota na Teia de Aranha (The Girl in the Spider’s Web, 2018), um misto de reboot e continuação da cinessérie norte-americana iniciada por David Fincher há sete anos. No entanto, existe uma diferença substancial que separa as obras: o livro no qual o longa-metragem se baseia não foi escrito pelo autor original (Larsson teve um ataque cardíaco e faleceu em 2004, após optar por subir as escadas do prédio em que trabalhava), e a nova adaptação não tem o mesmo diretor do anterior.

Não que o uruguaio Fede Álvarez seja um cineasta incompetente ou desprovido de talento, uma vez que quem assistiu ao remake de A Morte do Demônio (2013) ou a O Homem nas Trevas (2016) pode asseverar tranquilamente sobre a efetividade destes trabalhos. O que funciona contra o diretor é a falta de propósito, relevância e identidade deste projeto: por mais que aproveite a paleta de cores granítica adotada por Fincher e consiga construir uma ou outra imagem memorável (como aquela que mostra Lisbeth sentada na janela de uma boate punk), a impessoalidade do roteiro assinado por ele, Jay Basu e Steven Knight impede que o filme adote um viés mais analítico e impiedoso em detrimento de uma abordagem mais urgente e acelerada, portanto, mais palatável ao grande público.

Se antes havia algum esforço para trazer alguma complexidade moral ao enredo, povoado por criaturas dúbias ou sutilmente dissimuladas, o roteiro coloca todos os antagonistas como notavelmente execráveis desde as suas primeiras aparições. A caracterização quase cartunesca destas encarnações advém da trama como um todo, derivativa e similar a de filmes de espionagem fantasiosos, na linha de Missão: Impossível e 007. Ademais, se em Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, a protagonista parecia encontrar, em sua jornada investigativa e pessoal, uma oportunidade de desabrochar e se reconectar com um senso de humanidade há tanto lhe negado, aqui, mesmo formando uma dupla inusitada com um garotinho superinteligente a partir de certo momento da narrativa, Lisbeth parece estar sempre no mesmo clima de letargia e frieza, características que o clímax procura alterar, mas de forma demasiadamente tardia. Da mesma forma, personagens vitais como Mikaell Blomkvist (Sverrir Gudnason) e o agente Needham (LaKeith Stanfield) mal registram, já que não têm o menor desenvolvimento ou motivações claras, servindo apenas como objetos de ação.

O que realmente faz a experiência valer a pena, além de algumas pegadinhas feitas pela editora Tatiana S. Riegel e pela trilha sonora retumbante de Roque Baños, é a atuação da inglesa Claire Foy como Lisbeth Salander. Destaque em ótimas produções televisivas como Wolf Hall (2015) e The Crown (2016-presente), Foy é bastante hábil ao expressar a angústia e o distanciamento de sua personagem por meio de seus lábios levemente contraídos e de seus olhos azuis de boneca de porcelana. A versatilidade cênica (física e textual) também se faz presente no arcabouço da atriz, que a usa para tornar Lisbeth uma mulher crível, por mais que o roteiro force a barra ao mostrá-la como alguém quase imbatível no que tange à tecnologia. A convicção com que Foy defende Lisbeth é tão forte que leva Álvarez a deixar a câmera em seu rosto, em primeiríssimo plano, durante meio minuto, enquanto arfa profundamente em uma paisagem gélida.

Millenium: A Garota na Teia de Aranha é uma quase antítese de sua fonte original, tanto na literatura quanto no cinema. A ambientação ainda é asséptica e álgida, a trilha é melancólica e ecoante, mas o roteiro não tem nenhuma complexidade ou traz qualquer surpresa, e, para piorar, a direção não encontra tese para defender. Se as aventuras de Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist não eram para quem tinha estômago fraco, agora, tão pasteurizadas, servem até para aqueles que não têm paciência em ler outdoors.



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