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42ª Mostra | Crítica: O Anjo

Os paralelos se completam e são relacionáveis, contando mais do que uma história ao estilo Bonnie e Clyde, mas as diferenças do descobrimento de suas sexualidades, e como cada pessoa lida com suas questões individualmente, sendo umas mais bem resolvidas e com auto aceitação automática
O Anjo

A romantização de crimes é uma normalidade cinematográfica, assim como seu embelezamento contraditório. Mas, como já dizia Oscar Wilde: “A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”, e os jovens têm propensão a seguir essas palavras com afinco. O que é visto em O Anjo, a jovialidade usual contra a autoridade dos adultos, descobrimento sexual, desejos libertários etc, aspectos inclusos no filme de Luis Ortega, porém, não despropositadamente ou por puro entretenimento, pois Carlos Robledo Puch representou todas essas características nos anos de 1970 na Argentina, ainda estando vivo e cumprindo a sentença de prisão perpétua.

Carlitos (Lorenzo Ferro) é um jovem de 17 anos, charmoso, de cachos loiros e um rosto angelical. Acostumado a cometer pequenos furtos em casas, sua ânsia pelo crime aumenta ao conhecer Ramon (Chino Darín), formando uma dupla perigosa que irá atiçar seus desejos sexuais e homicidas.

O retrato vintage aplicado serve como base para a personalidade descolada de Carlitos e a rebeldia ao tom de James Dean extremista. A delinquência de Carlitos é saudada pela vivacidade colorida da ambientação, representando mais sua irreverência de modo perfeccionista e quase mandatório pelo próprio personagem, que, em sua manipulação celestial vinda de olhos azuis e cabelos loiros, é irresistível seus companheiros não cederem a suas vontades, da mesma forma que é irresistível não se entregar a juventude. Lorenzo Ferro interpreta o rebelde que adoramos odiar, expressivo em suas danças particulares, a jovem inconsequência ouvindo música durante o assalto como se estivesse tudo sob controle e nada pudesse atingi-lo. A típica sensação adolescente de imortalidade. A despreocupação com o perigo que com a jovialidade física e atraente, sua calma e paciência são contagiantes. Seus desejos são palpáveis, e a tensão sexual que cria quando está em cena com Chino Darín chega a beirar o erotismo que falta nas produções americanas do mesmo gênero.

A relação de Carlitos e Ramon é o ponto chave para o desenvolvimento da história. O ponto principal é certamente o desenvolvimento de Carlitos enquanto assassino nato e impiedoso, mas, é visível sua atração pelo companheiro em meio aos seus crimes e o quanto isso lhe serve como estímulo para suas ações. E dentro dessa perspectiva, é claro a sua vontade latente de se mostrar para Ramon, do que é capaz, sua sensualidade assassina, etc, alimentando a sexualidade de si mesmo, assim como aos poucos quebra as camadas de seu amigo aparentemente heterossexual, mas que os charmes de um anjo são impossíveis de se opor.

A sexualidade percorre a trama em aspectos mínimos quando se trata de Carlitos e Ramon, utilizando simples olhares, gestos, flertes, que funcionam entre os dois, emoldurados pelos conceitos imagéticos de Pedro Almodóvar, produtor do filme junto de seu irmão Agustín.

A coloração vívida e extravagante de Almodóvar pinta a vida de Carlitos precisamente, quase homenageando o real Carlos Robledo Puch, recriando o que sua imaginação poderia ter pensado durante seus assaltos quando jovem rebelde. Músicas da época delineadas pela libertinagem de Carlitos e as diversas cores ao redor, sempre predominando as cores primárias que dão vida aos cenários e a cinematografia colorida e metódica. O vermelho vibrante característico da filmografia de Almodóvar assume o papel coadjuvante no enredo, dando cor e materializando a tensão sexual recorrente no filme. Os tons são fortes e presentes, o que causa um distanciamento do toque do real diretor, Luis Ortega, que, envolto da criatividade visual de seu companheiro produtor, perde personalidade própria, deixando O Anjo ser dominado por Pedro Almodóvar.

Os tons de vermelho e neon realçam a personalidade um tanto meticulosa de Carlitos, que, em seus assassinatos, há uma beleza desconcertante ao mesmo tempo em que atraente, simétrica e violenta. Assassinatos dirigidos com o capricho do personagem e a cinematografia ao estilo Nova Hollywood misturado ao dadaísmo da juventude corrompida pelo prazer de quebrar regras. Quebrando-as até mesmo no conceito da cinematografia, entre aprofundamentos e alongamentos, planos abertos e outros claustrofóbicos, buscando a beleza artística pelos olhos de Carlitos.

A abordagem LGBTQ+ é neutra, não apelando para a pornografia ou o claro erotismo. Ferramenta do roteiro que explora o desenvolvimento da identidade de dois garotos em suas adolescências transviadas, e a identidade sexual no momento mais particular da vida de um ser humano como a adolescência. Os paralelos se completam e são relacionáveis, contando mais do que uma história ao estilo Bonnie e Clyde, mas as diferenças do descobrimento de suas sexualidades, e como cada pessoa lida com suas questões individualmente, sendo umas mais bem resolvidas e com auto aceitação automática, outros se veem perdidos nos seus desejos, sem saber se está tudo certo consigo mesmo. E afinal, está tudo certo.

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