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Crítica: Sequestro Relâmpago

Apesar dos deslizes o resultado como um todo não é ruim, e Sequestro Relâmpago se torna um filme diferente mesmo diante das obviedades.
Sequestro Relâmpago

O mais novo longa-metragem de Tata Amaral traz uma história que infelizmente é corriqueira e causa um trauma elevado para moradores de diversas cidades – só em 2017, cerca de 129 casos de Sequestro Relâmpagos ocorrem em São Paulo - como diz o título, Isabel (Marina Ruy Barbosa) sofre um sequestro relâmpago. Matheus (Sidney Santiago Kuanza) e Japonês (Daniel Rocha) estão a procura de uma vítima e Isabel se mostra perfeita.

A dinâmica estabelecida pelo roteiro da própria diretora é de que Matheus e Japonês não se dão bem e que em algum momento essa medição para ver quem possuí o maior falo resultará em algum problema.

O primeiro ato do filme faz o favor de não explorar a qualidade de Sidney Santiago, ao fazer seu personagem verbalizar a todo tempo que vai ficar tudo bem com a moça. O comportamento físico e o figurino do ator, corroboram para a ideia de que ele é o mais centrado entre a dupla de assaltantes. Matheus por boa parte do longa se utiliza de camisa social, como se estivesse pronto para uma festa, destoando completamente do ato cometido por ele, mas que afirma a sua calma diante do crime, verbalizar essa tranquilidade é desnecessária. No avançar da trama, Matheus se torna menos confiável e mais perturbado, sua camisa social dá lugar a uma camiseta bege, num tom quase sujo, revelando a real faceta do personagem. Sidney é de longe quem possuí a melhor interpretação no filme.

Já a personagem de Daniel Rocha intitulado de Japonês se utiliza de um “jaco” muito popular nos dias de hoje, por dar um ar meio anos 90, como se ele fosse uma armadura para esconder quem realmente o personagem é, alguém que busca aprovação e por isso tenta liderar o sequestro, para obter respeito e afirmação. Com o decorrer da película, vemos o personagem mais a vontade depois que seu ego é diminuído numa situação de quase morte de Japonês.

A motivação dos sequestradores é satisfatória, enquanto Matheus busca um meio de sustentar sua família, Japonês é o típico Playboy que planeja se ver no mundo do crime.

Não podemos esquecer do trabalho de Marina Ruy Barbosa, a Isabel, a atriz segura bem os momentos de tensão do filme, o figurino ajuda a deixar bem claro o estilo classe média que frequenta regiões descoladas de São Paulo, existem pelo menos dois momentos sagazes da personagem, que em um roteiro melhor ajudaria a personagem a soar menos “patricinha” e diminuiria a distância social entre ela e seus sequestradores, distância que é proposta, verbalizada, mas nunca é visualmente verídica, não fossem os esforços da atriz, talvez a química entre Matheus, Japonês e Isabel, não funcionaria.

O problema do roteiro vai além dos diálogos, a obviedade do texto passa por um momento grotesco no terceiro ato, em que no instante que a cena se inicia o espectador já sabe o final, uma falha grande o suficiente para anular o essencial para o longa, o suspense. O ponto positivo do roteiro está no fato de que o segundo ato, aposta em criar uma amizade entre sequestradores e sequestrada, uma síndrome de Estocolmo que funciona de maneira orgânica.

A irregularidade do longa ostenta horizontes tortos na fotografia e escolhas estranhas para locações. Um exemplo disso é utilizar as estações menos cinematográficas da cidade como ambiente para contrastar a espectro social de cada membro.

A medida que o longa evolui, a direção de fotografia melhora gradativamente, mas as cenas diurnas parecem tomadas emprestadas de algum capítulo de novela das seis, gozando de enquadramentos fora de eixo e um tom quase amador.

A edição de Sequestro Relâmpago é boa, tem paciência para desenvolver as personagens e até consegue formar um ou outro momento de tensão. A trilha sonora opta pelo caminho diegético, e se mostra como outro aspecto positivo para o filme, as escolhas musicais embora questionáveis representam muito para as personagens e para a trama.

O Longa de Tata Amaral - conhecida por Antônia de 2006 e Hoje de 2011 - tem a boa intenção de retratar as diferenças de classe, mas peca ao ter uma resolução que põe qualquer um na vida de crime como um sociopata em potencial. Isabel até tenta convencer os sequestradores de que eles são todos iguais, ouvem o mesmo tipo de música, não fazem parte do 1% do mundo que é considerado a alta classe, mas é como nos tempo atuais, em que é difícil mostrar para alguém que tem uma vida mais humilde que os ricos não ligam para nós.

Apesar dos deslizes o resultado como um todo não é ruim, e Sequestro Relâmpago se torna um filme diferente mesmo diante das obviedades.


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