Loucos por Filmes

Loucos por Filmes

Destaques

Últimas

Navegue aqui

42ª Mostra | Crítica: Poderia Me Perdoar?

Poderia Me Perdoar? carrega uma mensagem para autores desconhecidos e ainda aspirantes, consagrado pela atuação de Melissa McCarthy que quebra suas próprias molduras para nos gratificar com uma tragicomédia.
Poderia Me Perdoar?

Como escritora, Marielle Heller presta uma homenagem aos seus companheiros e o ofício de escrever que tem se tornado cada vez mais decadente em reconhecimento e importância. As dificuldades que os escritores sofriam nos anos de 1970, 1980 etc, se estendem até a atualidade, porém, de forma mais mascarada. Mas, a ironia de Poderia Me Perdoar? está no fato de que, em torno de toda a criminalidade abordada, e os vícios gritantes em álcool, e a personalidade um tanto arrogante da protagonista, o questionamento real é sua própria representação identitária socialmente, direcionada particularmente aos escritores em suas perdições mentais.

Lee Israel (Melissa McCarthy) é uma das grandes escritoras de biografias de sua época, tendo tido um de seus livros como best seller no New York Times. No entanto, sua carreira nunca alavancou completamente, e seu alcoolismo e personalidade forte a levaram ao declínio. Lee encontra uma escapatória para seus problemas financeiros quando começa a falsificar cartas de celebridades já falecidas como Katharine Hepburn, Dorothy Parker, entre outros. Trabalho que funciona até investigações começarem a ser levantadas.

A tragicomédia de Marielle Heller traz visibilidade ao descaso com escritores – que ainda ocorre atualmente – por meio de uma ironia corrosiva que percorre o enredo e é carregado principalmente pela interpretação no mínimo transformadora de Melissa McCarthy, quebrando as barreiras de comédias baratas e mostrando seu talento como atriz com um peso no olhar, na fisionomia e na fala que é possível sentir o sofrimento latente paralelo aos resquícios de esperança pela carreira. Marielle abre as brechas para que o humor já conhecido de Melissa McCarthy intercale na história, com a citada ironia que é presente, mas não ameniza a tristeza e problemas que a diretora quer mostrar, mais especificamente as tribulações que um escritor tem que passar para ser publicado. E colocar uma atriz regular em comédias dá um charme a mais para a trama, o qual Melissa passa com firmeza e pura dramaticidade sem apelar demais para o humor ou para o drama, equilibrando a performance perfeitamente.

O visual nova-iorquino da era do jazz trazido pela trilha sonora e em cenários festivos e calorosos, quase etéreos a partir do ponto de vista da protagonista, materializa sua mentalidade e seus desejos de reconhecimento e ter a luz em cima de si, contrapondo os lugares que a personagem frequenta constantemente como bares escuros, seu apartamento bagunçado e sujo, realçados pela cinematografia esfumaçada e cinzenta como os pensamentos, as conturbações profissionais e pessoais de Lee.

A melancolia e o humor negro se unem da mesma forma que os personagens de Melissa McCarthy e Richard E. Grant que formam uma cumplicidade criminal tragicômica. Impulsionada pelo charme irreverente de Jack Hock interpretado por Richard E. Grant, que serve como base para o desenvolvimento de Lee, como a consciência personificada da autora. Extravagante o suficiente para criar uma personalidade em meio a melancolia. E “sutil” o suficiente para descascar as camadas de Lee Israel.

Seu desenvolvimento enquanto autora e criminosa são conduzidos pela inteligência do roteiro que nunca a transforma em vilã, e sim propõe um entendimento da situação da personagem, moldando a base de sua história difícil – bem humorada – e com resoluções gratificantes quando as falsificações começam a dar certo. Ainda trazendo apreensão ao público ao vê-la ruindo vagarosamente, mas até com certo orgulho pelas suas realizações “ilegítimas”. O filme se arrasta a partir do segundo ato com um tom um pouco repetitivo, mas a perspicácia do roteiro se dá pela não vilanização da personagem, um humor que provavelmente não funcionaria com outra atriz que não fosse Melissa McCarthy, e o foco em dois personagens únicos que costuram suas próprias narrativas e deixam os figurantes interpretarem seus reais papéis de apoiarem o enredo e pontuar as vidas dos personagens, o que ocorre acertadamente. No entanto, existe a tentativa de um romance que acaba ficando extremamente deslocado da narrativa, que não só não progride em todos os sentidos, como fica largado por inteiro.

Marielle Heller é consciente de suas intenções, diante de panoramas opacos como a Nova York de 1990 refletindo o fechamento psicológico de sua personagem, mas principalmente como escritora. O seu entendimento da profissão – geralmente desconsiderada como profissão – é fundamental para o primor de seu trabalho como diretora neste filme especificamente, pois, como escritora, Marielle certamente é ciente dos problemas da carreira, do ofício em si, do descrédito – especialmente pela quantidade de material distribuído virtualmente, capaz até de descredibilizar qualquer obra. As complicações tidas hoje com editoras, que eram recorrentes no século passado, no caso de Lee Israel, seus problemas com a falta de reconhecimento com biografias e seu talento em escrevê-las, independente de fama. Atualmente, a literatura está polarizada entre best sellers e cânones, e no fogo cruzado esses autores como Lee Israel que não se encaixam no enquadramento quase obrigatório das editoras e na visibilidade do público. São autores com talento que buscam seu lugar ao sol com suas biografias, poemas, contos, romances, etc, mas barrados pelo silenciamento dos “não famosos”. Com Poderia Me Perdoar?, Marielle Heller presenteia os escritores com uma carta um tanto irônica, levando em conta o cunho criminal que a história possui, com a mensagem de perseverança e incentivo aos autores no silêncio para alcançarem suas realizações a qualquer custo (se necessário).

Poderia Me Perdoar? carrega uma mensagem para autores desconhecidos e ainda aspirantes, consagrado pela atuação de Melissa McCarthy que quebra suas próprias molduras para nos gratificar com uma tragicomédia. O roteiro funciona quase que por completo, se não fosse por decisões puramente hollywoodianas. Porém, o humor negro rega a narrativa com miséria e graça bem medidas que, para ressaltar, não funcionaria sem a grandiosa presença dramática e humorística de Melissa McCarthy.


Deixe sua opinião:)