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Crítica: O Primeiro Homem

Para mergulhar o espectador na sensação de estar voando como um foguete em uma cápsula apertada de metal, Damien Chazelle preza o ponto de vista dos pilotos, seja de forma objetiva ou subjetiva.
O Primeiro Homem

Damien Chazelle se tornou um garoto prodígio em Hollywood nos últimos anos. Mesmo naqueles que veem um exagero na forma como sua imagem foi alçada de jovem promessa a jovem gênio, há também o reconhecimento na qualidade acima da média de sua filmografia, especialmente Whiplash: Em Busca da Perfeição e La La Land: Cantando Estações (esses subtítulos...). Realmente não há como negar o domínio da linguagem contido nesses trabalhos. A segurança na condução da narrativa e a habilidade na técnica engana ao imaginarmos alguém muito experiente na cadeira de diretor.

Agora já com um Oscar nas mãos (o mais novo a vencer na categoria), ele retorna com uma equipe repleta de gente gabaritada e premiada, além de carregar a responsabilidade de manter o nível dos filmes anteriores. Para isso, resolveu contar a história que por si só já é dotada de um poder cinematográfico: a primeira ida do homem à Lua, em julho de 1969. Claramente saindo da sua zona (pequena ainda) de conforto, O Primeiro Homem é sua obra mais diferente até agora. A boa notícia é que ele continua sendo um cineasta competente, já a razoável (não chamaria de má) é que a mudança pesou um pouco no seu estilo e no resultado final.

Baseado no livro homônimo de James R.Hansen, o foco é na vida de Neil Armstrong (Ryan Gosling) e na sua trajetória na NASA até a famosa missão da Apollo 11. O marco histórico todo mundo já conhece, mas o que diferencia essa de outras incursões é que o roteirista Josh Singer (ganhador do Oscar por Spotlight) resolve optar pela via mais intimista e fora da glamourização em torno da carreira de astronauta e dos feitos (incríveis, por sinal) alcançados por eles. É fácil admirar o poder da tecnologia e os esforços de centenas de pessoas para que tudo culmine em uma caminhada na superfície lunar, mas também é comum que a maioria não saiba dos inúmeros obstáculos, falhas e até tragédias envolvendo os anos de disputa pelo desbravamento do espaço com a União Soviética.

Por essa razão, ao invés de olhar para fora com o objetivo de retratar o impacto do tema na sociedade americana ou focar no jogo político em um filme de diversos temas, ele prefere acompanhar o protagonista enquanto sua carreira interfere na sua vida familiar, e vice-versa. O paralelo é estabelecido desde o começo num jogo entre fracassos e recomeços, tanto os que envolvem um trauma para Armstrong e sua mulher, Janet (Claire Foy), quanto os da longa escalada para tornar o pouso na Lua possível sem que se sacrifique todo mundo no caminho. A abordagem segue bastante a lógica na montagem de Tom Cross (também oscarizado por Whiplash), que conecta constantemente as ações do casal no ambiente familiar e no trabalho em cada período dos 7 anos que cobrem a narrativa, o que permite ao longa construir aos poucos os conflitos pessoais resultantes das escolhas do protagonista.

Introspectivo e bastante racional, o Neil Armstrong concebido por Singer e Chazelle é mais um daqueles papeis que caem perfeitamente para Ryan Gosling. Há quem o ache superestimado, mas o fato é que a escolha faz sentido para o propósito da obra. À medida que avança a trama, o homem se torna cada mais incapaz de exteriorizar seus sentimentos, tanto para os amigos e até para a própria mulher – ela que se torna a parte conciliadora e acaba servindo como o ponto de convergência emocional da narrativa. Nesse ponto, o longa é hábil em desenhar o arco de cada um sem que precise recorrer a exposições, unindo o silêncio de uma personalidade retraída aos vícios aprendidos pela exposição na carreira – como exemplo, basta observar a cena em que o homem é incapaz de ter uma conversa com os filhos pequenos respondendo à preocupação deles de talvez nunca mais ver o pai, numa representação que vai ao contrário do que se esperaria em outras obras. Fora o texto, a fotografia de Linus Sandgren (advinha só, venceu também o Oscar por La La Land) ressalta o clima de preocupação crescente na vida dos Armstrong preenchendo os ambientes com sombras cortadas por fontes de luz pontuais mesmo quando tudo parece estar bem numa primeira vista, além de manter constantemente os personagens isolados cada vez que um obstáculo aponta na trama.

Falando em grandes obstáculos, em uma época onde vários astronautas perderam a vida testando os limites da tecnologia para corresponder à corrida espacial da Guerra Fria, optar pela profissão era aceitar um risco constante. Para mergulhar o espectador na sensação de estar voando como um foguete em uma minúscula cápsula apertada, Damien Chazelle preza o ponto de vista dos pilotos, seja de forma objetiva ou subjetiva. Dessa forma, o sentimento de apreensão que eles experimentam ganham forma nos planos detalhe de pequenas frestas, imperfeições, botões, fios e parafusos que só fazem os lembrar estarem nas mãos de um grande trambolho metálico. Também no excelente design de som, reproduzindo os intensos ruídos de ranger metálico e explosões, a experiência sensorial se mostra o ponto forte da narrativa, ainda mais aliada pelo uso comedido da trilha sonora, que só entra quando muito necessária.

É uma pena que o ponto mais complicado de O Primeiro Homem seja justamente a principal forma com que o diretor escolheu para filmá-lo. Se por um lado, a leve granulação na imagem ajuda a conferir um aspecto de época para a fotografia, o exagero nos planos fechados durante toda a narrativa se mostra irregular. Do ponto de vista da lógica cinematográfica, faz sentido que a abordagem nos conflitos pessoais peça uma aproximação nas expressões e nos detalhes, mas o aspecto da câmera tremida destaca um desnível entre o semidocumental e a desorientação desnecessária; ela funciona bem nas sequências mais tensas, mas atrapalha bastante nos momentos mais calmos, chegando a se desejar que ela se afaste para que possamos ver melhor a interação entre os personagens.

Ainda assim, o filme consegue criar alguns simbolismos entre a vida pessoal de Neil Armstrong e sua jornada espetacular que entrou para a história. Embora a estrutura acabe soando um pouco repetitiva e episódica, há momentos excelentes que traduzem a angústia e a expectativa de um fato cujo desfecho todo mudo já sabe.

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