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Crítica: Meu Anjo

Meu Anjo, apesar de não ser satisfatoriamente consistente, é um primeiro filme louvável da diretora que se destaca na representação da natureza humana e da paralisia ética dos personagens.
Meu Anjo

O relacionamento entre pais e filhos nunca foi fácil e muitos filmes recentes vem tratando das relações voláteis entre eles. Cisne Negro (Darren Aronofsky), Precisamos Falar Sobre o Kevin (Lynne Ramsay), A Árvore da Vida (Terrence Malick) e o nacional não tão recente Bicho de Sete Cabeças (Laís Bodanzky) exploraram as relações conflituosas cheias de altos e baixos, brigas, cumplicidade, amor e outros sentimentos pungentes nessas relações. O tema é recorrente na trajetória do cinema e já foi inspiração para diferentes cineastas que representaram essas conexões, à sua maneira, com personagens e conflitos diferentes.

Meu Anjo, longa de estréia da diretora Vanessa Filho, também explora esse território. E por mais que o tema seja assíduo, o filme, em mais de um aspecto, será inevitavelmente comparado ao premiado Projeto Flórida do diretor Sean Baker que chamou muita atenção em 2017 ao mapear a relação de uma mãe irresponsável com seus filhos. Mas embora ambos os filmes se concentrem nas relações mãe e filha, as conclusões tiradas em Meu Anjo são muito mais tenebrosas.

O filme é ambientado em uma pequena cidade ao longo da ensolarada Riviera Francesa e traça a problemática geracional através da história de Marlene (Marion Cotillard), uma mãe solteira alcoólatra de comportamento impulsivo e caótico, e Elli (Ayline Aksoy-Etaix), sua filha de oito anos e olhar frio. Cotillard retrata Marlene como uma mulher sem perspectivas e com estilo de moda questionáveis, vivendo à margem da sociedade em uma atmosfera intoxicante e irresponsável. O filme inicia apresentando-a inicialmente como uma personagem familiar, mas seu papel vai se definindo precisamente por uma estética brega, com seu cabelo loiro desgrenhado, um guarda roupa extravagante e uma série de eventos dramáticos de embriaguez. Ela é uma mulher em uma espécie de estado patológico de esquecimento sobre o comportamento moral apropriado, incapaz de construir e manter relacionamentos saudáveis ​​e que nunca consegue dizer ou fazer a coisa certa para sua filha. Sem saber muito o que se passa, a pequena Elli está acostumada com a rotina de sua mãe e puramente padroniza seu comportamento pelo único modelo que tem na vida. A cena de abertura onde a menina canta uma canção para Marlene inverte a dinâmica típica entre mãe e filha e estabelece desde o início que no relacionamento Elli é quem proporciona conforto e tranquilidade. A partir daí o filme é contado a partir de um inocente ponto de vista infantil, onde Elli, que começou a beber também, é obrigada a crescer rápido e forçada a assumir responsabilidades consigo mesma por causa da imprudência de sua mãe.

No segundo ato do filme, quando Marlene desaparece completamente, Elli é deixada num doloroso eco de solidão e condenada ao ostracismo não só pela mãe, mas por todos que a cercam. É aqui que ela se depara e tenta desesperadamente se agarrar a Julio (Alban Lenoir), ex mergulhador com problemas cardíacos e que também sofre com o abandono por parte do pai e mora em um trailer sujo à beira mar. A performance de Ayline Aksoy-Etaix está de certa forma muito comovente e ela é a principal atração do filme, mas apesar de manter naturalidade e convencer nas cenas mais discretas parece mecanizada demais quando grandes emoções são necessárias.

A direção de fotografia de Guillaume Schiffman (O Artista), optou por um estilo solto com grande parte do filme feita com uma câmera na mão inconstante e com closes bem fechados no rosto, sugerindo o mundo fechado dos personagens e buscando mergulhar o espectador diretamente no ponto de vista deles. A câmera é colocada constantemente num nível baixo nos conduzindo através dos olhos de quem a história é contada. Essa altura incomum gerou muitas cenas de ângulo baixo nos atores adultos e uma mobilidade quase permanente. As cores vívidas e quentes foram bem utilizadas como uma escolha artística e a equipe de arte certamente teve bastante trabalho com a constante necessidade da maquiagem incomum e os tons azuis brilhantes e rosas constantes nas ambientações.

Meu Anjo, apesar de não ser satisfatoriamente consistente, é um primeiro filme louvável da diretora que se destaca na representação da natureza humana e da paralisia ética dos personagens. Mesmo tendo alguns momentos exagerados, onde se foge da emoção autêntica do mundo real e onde a estética muitas vezes precedeu ao conteúdo, é emocionalmente vibrante. Consegue enquadrar bem uma relação instável de maneira que permite que cada parte enfrente seus próprios dramas e vícios em vez de apenas nos apresentar conturbações emocionais compartilhadas.


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